Kristian Thacker para The New York Times
Kristian Thacker para The New York Times

Cidade que vivia do carvão aposta em economia criativa

A cidade americana de Tazewell investiu no turismo para motocicletas, valendo-se de suas estradas sinuosas e riquezas naturais

Roy Furchgott, The New York Times

17 de outubro de 2018 | 06h00

Em 1999, quando Larry Davidson encerrou sua carreira militar depois de 27 anos, e voltou para a cidade de Tazewell, na zona de mineração do carvão da Virgínia, na qual os seus pais moravam, a indústria carbonífera estava morrendo. Assim como a cidade, a Main Street, outrora próspera, já era o retrato da decadência com suas lojas vazias.

Davidson refletia sobre o problema enquanto percorria de motocicleta a bela Estrada 16 em Virgínia, que ziguezagueia por 51 quilômetros entre Tazewell e Marion. Em 2010, ele teve uma ideia genial. 

Tazewell estava perdendo um recurso - o carvão - mas havia outro que poderia substituí-lo: suas estradas sinuosas.

Uma estratégia semelhante havia funcionado para Deal’s Gap, na fronteira entre Tennessee e a Carolina do Norte. Nos anos 1990, os moradores apelidaram um trecho de estrada cheio de curvas de “Cauda do Dragão”, gabando suas “318 curvas em 11 milhas”, ou cerca de 18 quilômetros. Ela se tornou uma atração internacionalmente conhecida pelos motociclistas.

Davidson, hoje com 70 anos, observou que a Estrada 16 se desenrolava por três montanhas e decidiu que “Back of the Dragon” (Dorso do Dragão) seria um nome muito interessante  Ele testou a ideia  imprimindo uma dúzia de camisetas com o logotipo do dragão. E as vendeu em um dia. Desde então, passou a dedicar-se à promoção da estrada.

No ano passado, calcula-se que 60 mil entusiastas da motocicleta e dos carros esportivos tenham passado por Tazewell, cuja população é de 4.240 almas. Em 2013, foram apenas 16 mil, segundo David Woodard, o diretor do escritório de desenvolvimento da comunidade do Condado de Tazewell.

Tazewell é um exemplo de uma cidadezinha que vivia da exploração do carvão, que se transformou em uma “economia criativa”, como a definiu o grupo de desenvolvimento econômico Amigos do Sudoeste de Virginia. “Nós nos preocupamos com a riqueza natural e cultural”, e não com carvão, tabaco e madeira, afirmou.

A área tem em sua história uma vertente da herança da música bluegrass (de antiga origem inglesa, irlandesa, escocesa e do folclore americano), um coletivo de artesanato e atividades ao ar livre como passeios de quadriciclo, caminhadas, trilhas de mountain bike e passeios pelo rio.

Davidson cresceu no campo de mineração de carvão de Canebrake, West Virginia, onde seu pai trabalhava nas minas. A família posteriormente mudou-se  para Tazewell, na fronteira com a Virgínia. Ele entrou na Força Aérea em 1967, e voltou em 1977 para tentar novamente a mineração. Mas a experiência não durou, e ele entrou no Exército, que o deslocou na Europa. “Costumávamos ir para Berchtesgaden e na Áustria, Suíça, Itália nos Alpes. Foi aí que fiz a minha experiência com essas estradas”, contou. 

“Foi o que me fez olhar para o Dorso do Dragão quando voltei para cá”.

O diretor de turismo do condado se interessou, e a Assembleia Estadual batizou formalmente a Estrada 16 de “O Dorso do Dragão” em 2012, mas havia muito mais para ser feito. “As bicicletas passavam pela cidade, mas iam reto,” contou Irma Mitchell, que dirige um grupo de trabalho para a recuperação da Main Street. “Era preciso dar a elas um motivo para parar”.

Um consultor recomendou que fossem feitas melhorias. A cidade criou então um programa de incentivos fiscais para novas empresas. Desde 2017 foram abertos quatro restaurantes. Há uma micro-cervejaria, um café e outros empreendimentos. A próxima construção prevista é o Centro de Boas-Vindas do Dorso do Dragão.

“Claro, tem a ver com o dinheiro, mas não só com o dinheiro”, disse Davidson. “Quero que outras pessoas compreendam que aqui há uma joia”.

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