Brendan Hoffman para The New York Times
Brendan Hoffman para The New York Times

Cidade ucraniana alimenta laço com a Hungria em meio a tensão geopolítica

Berehove pode estar na Ucrânia, mas seu povo procura a Hungria por dinheiro e apoio contra Kiev

Andrew Higgins, The New York Times

18 de outubro de 2018 | 06h00

BEREHOVE, Ucrânia - Quando, no mês passado, a Ópera Estatal Húngara visitou a cidade, situada exatamente na fronteira, para apresentar uma ópera patriótica, três mil pessoas ficaram de pé para ouvir os hinos nacionais ucraniano e húngaro. O público de Berehove ficou mudo durante a execução do hino ucraniano, e depois explodiu em um canto ruidoso com o hino da Hungria, um país estrangeiro.

Tanto ao longo de sua fronteira com a Rússia a Leste, quanto na União Europeia a Oeste, os vínculos da língua e da cultura nesta região fronteiriça tornam difícil para a Ucrânia manter-se como um país unificado. Por outro lado, o líder autocrático da Hungria, Viktor Orban, explorou os impulsos nacionalistas estimulando um aumento do populismo em toda a Europa, suscitando o temor de que ele acenda o rancor de grupos étnicos que vivem fora de suas terras.

A cidade de Berehove é composta em grande parte de húngaros étnicos que falam majoritariamente o húngaro, não o ucraniano, e regulam os seus relógios pela hora da Hungria, e não da Ucrânia.

Poucas nações tiveram suas terras redistribuídas quanto as da Europa Central e Oriental, particularmente as que faziam parte do Império Austro-Húngaro, que se desintegrou depois da Primeira Guerra Mundial. No século passado, Berehove fez parte de cinco países.

Segundo o Tratado de Trianon, em 1920, a Hungria perdeu dois terços do seu território. Desde então, os seus habitantes estão furiosos com o desmembramento do país, mas a sua ira adquiriu uma nova força com Orban. O seu governo concedeu a um milhão de húngaros étnicos que vivem fora do seu país passaportes e o direito de votar, criando um grande bloco favorável na maior parte ao nacionalismo defendido por Orban e o seu partido, Fidesz. A Hungria tem apenas 9,7 milhões de habitantes.

O prefeito húngaro étnico de Berehove, Zoltan Babek, afirmou que ninguém está promovendo agitações para que a sua cidade volte a pertencer à Hungria. Mas à pergunta se ele se considerava patriota ucraniano, respondeu: “Eu sou um patriota desta cidade”.

Os promotores da Transcarpátia, a região que faz fronteira com a Hungria, anunciaram recentemente que realizariam uma investigação por alta traição pela emissão de passaportes húngaros a cidadãos ucranianos. O Ministério do Exterior em Kiev, a capital ucraniana, ordenou a expulsão do cônsul da Hungria em Berehove depois da exibição de um vídeo que mostrava moradores prometendo lealdade à Hungria em uma cerimônia de entrega dos passaportes. No vídeo é possível ouvir um diplomata húngaro recomendando que eles não contem às autoridades ucranianas a respeito da sua nova cidadania. A lei ucraniana proíbe a dupla nacionalidade.

O governo de Orban insiste que não tem nenhuma intenção de tentar apropriar-se das terras perdidas e de reconstruir “a Grande Hungria”, que inclui o território que hoje faz parte da Romênia, Sérvia, Eslováquia e Ucrânia. Mas embora  se oponha ao multiculturalismo em casa, lamenta as tentativas de outros países de obrigarem as suas minorias húngaras a aprender suas línguas e costumes.

Em julho, o governo de Orban anunciou a nomeação de um comissário ministerial para o desenvolvimento da Transcarpátia, que não fica na Hungria. Dmytro Tuzhanskyi, especialista em relações da Hungria com a Ucrânia em Uzhgorod, a capital da região da Transcarpátia da Ucrânia, disse: “Foi um erro, um erro freudiano. Mostrou o que eles estão realmente pensando”.

A Ucrânia se sentiu cercada. A Hungria é um membro da União Europeia, que fez da propensão da Ucrânia para o Ocidente o ponto central de sua política externa conjunta. Enquanto isso, Orban pressiona reiteradamente no outro sentido, pendendo para a Rússia.

Budapeste dá apoio à diáspora húngara. O maior beneficiário em Berehove é o Instituto Hungria-Transcarpátia Ferenc Rakoczi II. A reitora do Instituto, Idiko Orosz, é grata pela ajuda nos protestos contra as restrições ao uso de outras línguas que não a ucraniana. Os cidadãos de língua húngara da Ucrânia, afirmou, não são como os imigrantes estrangeiros aos quais Orban se opõe na Hungria, mas são mais como americanos nativos que de repente descobriram que a sua pátria foi tomada 

por estrangeiros.

“Nós estávamos na nossa casa; foram eles que vieram até nós, não fomos nós que fomos até eles”, ela disse, e ainda observou que sua avó nasceu na Checoslováquia, sua mãe na Hungria e ela na União Soviética. “Nenhum de nós foi a parte alguma”.

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