Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Cidades costeiras ficam sem mar e atraem turistas

As consequências ambientais da perda do Mar de Aral estão se intensificando

Neil MacFarquhar, The New York Times

17 Agosto 2018 | 10h00

MUYNAK, Usbequistão - A poderosa tempestade de vento que atingiu este pequeno porto desativado no final da primavera impressionou até um ecologista da região, habituado à devastação trazida pelo desaparecimento do Mar de Aral.

Uma névoa densa e áspera recebeu o ecologista, Gileyboi Zhyemuratov, quando este saiu de casa naquele dia de maio. “Quando abri a porta, tudo estava branco como a neve", disse Zhyemuratov, 57 anos, um descendente de pescadores num lugar onde não há mais peixes.

Durante três dias, a tempestade jogou o lodo que antes formava o leito daquele que foi o quarto maior lago do planeta. Com isso, os moradores do antigo porto de Muynak, no oeste do Usbequistão, ficaram com a boca cheia de areia salgada.

Conforme a tempestade se aproximava, Vladimir Zuev, um piloto russo aposentado que agora organiza viagens pela região, estava sentado em casa. “Era impossível enxergar", disse ele. “O sal estava seco, mas grudava na pele e era difícil de limpar.”

Paradoxalmente, o desastre que acomete a cidade se tornou também sua principal atração. O turismo está em alta.

“Muitas pessoas querem ver uma crise ecológica", disse Vadim Sokolov, funcionário do Fundo Internacional para a Salvação do Mar de Aral.

Rebocadores enferrujados jazem na areia onde antes havia o mar. Muitos vêm tirar uma selfie no cemitério de navios.

Ali e Poline Belhout, casal parisiense de 30 e tantos anos, ficaram em Muynak. “É triste ver que, alguns anos atrás, havia aqui um mar, e hoje resta um cemitério de navios", disse Poline. “Ver os barcos encalhados desse jeito é um pouco desconcertante.”

Antes desprovida de hotéis, a cidade de Muynak agora tem três, além de um café conectado à internet. Um festival de música eletrônica deve acontecer aqui no dia 14 de setembro.

O mar, que sumiu de Muynak mais ou menos em 1986, fica agora a 120 quilômetros de distância.

A tempestade de vento confirmou um fato preocupante: as consequências ambientais da perda do Mar de Aral estão se intensificando.

Os cinco países da Ásia Central criaram o Fundo Internacional para a Salvação do Mar de Aral há 25 anos, mas se recusam a cooperar um com o outro em questões fundamentais, como a distribuição da água.

Faz tempo que isso representa um entrave para qualquer solução, além dos métodos agrícolas de eficiência duvidosa herdados da era soviética. Um antiquado planejamento central determina os gêneros cultivados, disse Yusup Kamalov, da União para a Proteção do Mar de Aral e do Amu Darya, um dos dois rios que desaguam neste mar. Em vez de usar a irrigação controlada, técnicas antiquadas consomem 80% da água. “Ainda estamos na época soviética em termos de agricultura", disse Kamalov.

As raízes do problema começaram há cerca de 60 anos, quando o premiê soviético Nikita S. Khrushchev decidiu industrializar a agricultura em toda a Ásia Central apesar da aridez da região. Os rios Amu Darya e Syr Darya foram desviados para sedentos canais de irrigação que alimentavam campos de trigo e algodão.

Quando a União Soviética entrou em colapso em 1991, o Mar de Aral já estava recuando. Mesmo estrangulados pelos números de distribuição da água, os países da Ásia Central assinaram um acordo para mantê-los.

Turcomenistão e Usbequistão ainda cultivam algodão, ainda que a escassez de água tenha levado a uma redução no cultivo.

A mudança climática também intensificou a falta de água. As geleiras nas montanhas do Turcomenistão e do Quirguistão que alimentam os dois rios estão encolhendo.

Antes do recuo do mar, Muynak era uma próspera cidade portuária de 25 mil habitantes. A maioria trabalhava em pesqueiros ou na fábrica de enlatados. Cerca de 20% dos peixes consumidos na União Soviética vinham das aproximadamente 30 espécies do Mar de Aral.

O desaparecimento do mar levou a problemas de saúde como doenças dos pulmões e rins, além de uma alta na mortalidade infantil. E, sem o efeito refrescante do vento que soprava vindo da água, os verões são mais quentes e os invernos, mais frios em toda a região.

Boriy B. Alikhanov, um ativista usbeque, disse, “Na história moderna da humanidade, nunca ocorreu um caso de morte de um mar inteiro diante dos olhos de uma geração inteira".

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