Paul Faulstich via The New York Times
Paul Faulstich via The New York Times

Moradores de Los Angeles ajudam cientistas observando um acasalamento bem estranho

O lagarto da espécie Elgaria multicarinata tem umas das estratégias de acasalamento mais extremas do mundo natural

Cara Giaimo, The New York Times - Life/Style

07 de outubro de 2020 | 05h00

No ano passado, Katie Goldin estava andando pelo seu bairro em Los Angeles quando viu, no meio da calçada, dois lagartos se entrelaçando. O macho, malhado feito uma pedra e com cerca de trinta centímetros de comprimento, estava prendendo a cabeça da fêmea, que era ligeiramente menor, com as mandíbulas. “Ele estava mordendo o pescoço dela, mas com ternura”, disse Goldin, apresentadora de um podcast chamado Creature Feature [algo como Característica da Criatura, em tradução livre]. “Ela parecia estar em transe”.

Os lagartos era da espécie Elgaria multicarinata, que se destaca mesmo num mundo completamente cheio de estratégias reprodutivas bem bizarras. O casal que Goldin viu estava fazendo aquilo que é conhecido como “fixação da parceira”, uma parte do processo copulatório em que o macho fica agarrando a cabeça da fêmea com a boca por horas ou mesmo dias seguidos.

Não se sabe ao certo por que os lagartos fazem isso. Mas, recentemente, dois projetos de pesquisa investigaram a ecologia e anatomia dos animais para entender melhor onde, quando e como acontece esse estranho comportamento. Ao abordar o mesmo assunto a partir de pontos de vista muito diferentes, os cientistas conseguem ajudar nas pesquisas uns dos outros e compor uma imagem mais clara do que realmente está pegando.

Espiando o sexo dos lagartos, pela ciência

Depois que Goldin viu o casal feliz, ela enviou fotos para o Museu de História Natural do Condado de Los Angeles. Desde 2015, o museu lança todos os anos uma convocação para fotos e vídeos dos lagartos mandando ver, os quais recebe por email e redes sociais ou pela plataforma iNaturalist.

A espécie é o réptil mais difundido em Los Angeles. Mas, como a cidade é um “quebra-cabeça de propriedades privadas”, é difícil fazer pesquisas tradicionais da vida selvagem, disse Greg Pauly, curador de herpetologia do museu. Existem apenas alguns poucos relatos publicados sobre o acasalamento deste tipo de lagarto na literatura científica.

Então ele vislumbrou a oportunidade perfeita para uma iniciativa científica comunitária. Ao contrário dos processos naturais mais sutis, este é o tipo de tema que chama a atenção das pessoas comuns e as deixa boquiabertas. “É um espetáculo biológico”, disse Pauly. (Ajuda o fato de os lagartos não se acanharem de fazer tudo no meio da rua, nos jardins, nos quintais).

Nos últimos cinco anos, o museu coletou quase 500 observações de acasalamento desta espécie. Este ano, disse ele, os moradores da cidade andam especialmente felizes em fazer o papel de paparazzi de lagarto durante o confinamento da pandemia: “Vimos um grande aumento nos envios” das áreas urbanas, disse ele.

O conjunto de dados rendeu algumas surpresas. Cerca de 7% dos casais observados são, na verdade, trios, com dois machos mordendo uma fêmea - ou, em alguns casos, um macho mordendo outro macho que está mordendo uma fêmea, numa espécie de sanduíche de amor reptiliano. O cruzamento das observações com dados meteorológicos sugere que a estação de acasalamento dura cerca de uma semana e responde à temperatura e que a atividade de acasalamento aumenta nos anos chuvosos.

O júri ainda não decidiu por que os lagartos acasalam dessa maneira, expondo-se a predadores, carros, intempéries e cidadãos lascivos. O macho pode estar protegendo sua parceira, tentando garantir que ninguém mais apareça para tomar seu lugar - embora todo o lance do sexo grupal complique um pouco essa teoria. Ou a fêmea pode estar avaliando a força do macho. Mais observações de longo prazo ajudarão a descobrir “que diabo está acontecendo ali”, disse Pauly.

Às vezes, os observadores conseguem revisitar os casais para ver quanto tempo eles permanecem acoplados. (O recorde é 48 horas e 43 minutos, estabelecido por dois amantes num quintal de Lemon Grove). “Agora sabemos por algumas dessas observações que eles se acasalam várias vezes” durante uma entrelaçada, disse Pauly, o que pode revelar uma possível razão para essas longas ligações.

Me abrace forte e não solte mais

A. Kristopher Lappin, biólogo da Universidade Politécnica da Califórnia, em Pomona, também fica confuso com o comportamento de acasalamento dos Elgaria multicarinata. Mas, para ele, o que se destaca é um outro mistério. Em suas próprias observações - assim como naquelas que viu no iNaturalist - ele percebeu que “o macho morde com algum grau de força”, disse ele. “Você pode ver que a cabeça da fêmea fica meio espremida”.

Os músculos vertebrados comuns não conseguem exercer uma força significativa durante um período tão longo. Imagine apertar uma bola antiestresse o dia todo, sem soltar nem um pouquinho, ele disse: “É impossível”.

Para um artigo publicado na semana passada no Proceedings of the Royal Society, Lappin e seus colegas examinaram mais de perto a mandíbula do Elgaria multicarinata. O estranho comportamento de acasalamento do réptil, descobriram eles, é sustentado por um tipo especial de fibra muscular, raramente vista no reino animal.

A maioria dos músculos esqueléticos é composta de fibras de contração, que se contraem rapidamente. Algumas dessas fibras são rápidas e fortes, outras são mais lentas e mais resistentes à fadiga. Sua panturrilha, por exemplo, tem dois músculos: o gastrocnêmio, cheio de fibras de contração rápida, permite que você suba um lance de escada; o sóleo, composto basicamente por fibras de contração lenta, é o músculo que faz com que você aguente ficar de pé.

Mas outras células musculares, as chamadas fibras tônicas, se contraem de maneira mais gradual e demoram muito mais para se cansar. Essas fibras foram encontradas nas cordas vocais humanas, em peixes, nas pernas e pescoços de algumas tartarugas e nos braços de sapos machos, que também agarram suas parceiras por muito tempo.

Para testar se algo semelhante estava acontecendo com a espécie, os pesquisadores realizaram um teste de fadiga, estimulando repetidamente os músculos da mandíbula de vários lagartos e medindo a força de mordida produzida. Pesquisas anteriores sobre músculos de contração forte mostram que eles geralmente ficam tensos e se cansam pouco depois. Medida num gráfico, a força que eles criam parece uma série de picos de montanhas.

Mas, em vez disso, os músculos da mandíbula do lagarto ficavam tensos, ligeiramente fatigados e, em seguida, já estavam ainda mais tensos. No gráfico, eles formaram uma linha parecida com uma escada que, depois de um tempo, se estabilizava numa força de mordida constante. O desempenho surpreendeu até os pesquisadores. “Achamos que havia algo errado com o equipamento”, disse Lappin.

A análise molecular confirmou a presença de fibras tônicas. Mas alguns dos resultados continuam confusos. A mordida sustentada também é bem forte, o que é raro no caso dos músculos tônicos. E tanto os lagartos machos quanto as fêmeas têm essas fibras, embora não esteja claro quando as fêmeas podem usá-las.

A união faz a força

Essas duas formas de investigação - uma pesquisa ecológica abrangente e um estudo anatômico experimental - são muito diferentes. Mas, juntas, elas nos ajudam a chegar mais perto de uma compreensão mais completa desses animais que se comportam de um jeito meio estranho.

O banco de dados da ciência produzida pelos cidadãos para o Museu de História Natural ajudou sua equipe a ver muitos exemplos de fixação de parceira e a aprender muito mais sobre quanto tempo essas interações pode durar, disse Lappin.

E saber como os músculos funcionam influenciará o pensamento de Pauly sobre como os lagartos realizam essas proezas de força, disse ele. Ele anda se perguntando se as diferenças sexuais entre os lagartos poderiam se tornar mais pronunciadas durante a temporada de acasalamento. Essas mudanças são observadas durante o período de reprodução dos sapos, quando os machos de algumas espécies desenvolvem repentinamente “braços de Popeye”, disse ele.

Mas os lagartos têm suas próprias preocupações. Depois de darem sua contribuição à ciência, o casal de Goldin finalmente saiu correndo - “fazendo uma espécie de corrida de três pernas desajeitada, já que não pareciam dispostos a se soltar”, disse ela. “Espero que tenham encontrado mais privacidade”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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