Jean-Gabriel Valaey/Jardin du Lautaret/UGA/CNRS/ALPALGA
Jean-Gabriel Valaey/Jardin du Lautaret/UGA/CNRS/ALPALGA

Neve cor de sangue? Pesquisadores investigam proliferação de algas nos Alpes

Cientistas começam a investigar espécies de algas alpinas para entender melhor suas causas e efeitos

Cara Giaimo, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 05h00

Durante o inverno e até na primavera, os Alpes franceses ficam cobertos por uma neve branca. Mas quando a primavera dá lugar ao verão, as colinas começam a ficar vermelhas. Em algumas partes, a neve assume tonalidades brilhantes, como vermelho vivo, laranja cor de ferrugem, ou limonada rosa. Os moradores chamam o fenômeno de “sangue glaciar”. Os visitantes às vezes falam em “neve de melancia”.

Na realidade, essas cores derivam de algas que crescem com o derretimento da neve. Nos últimos anos, os habitats alpinos no mundo todo têm registrado uma maior proliferação impressionante e curiosamente colorida dessas criaturas normalmente invisíveis.

Embora o fenômeno ainda seja mal compreendido, o fato de ele estar ocorrendo provavelmente não é um bom sinal. Pesquisadores começaram a pesquisar as algas dos Alpes para entender melhor que espécies vivem ali, como sobrevivem e o que as faz aparecer num lugar desses. Algumas das suas conclusões iniciais foram publicadas esta semana na revista Frontiers in Plant Science.

“Pequenas, mas poderosas, bactérias similares às plantas que chamamos de algas são a base de todos os ecossistemas”, afirmou Adeline Stewart, estudante de doutorado na Grenoble Alpes University, na França e coautora do estudo. Graças às suas proezas fotossintéticas, as algas produzem um enorme volume do oxigênio do mundo e formam a base de muitas das cadeias alimentares.

Mas às vezes elas se multiplicam desmedidamente, causando desequilíbrios, o que causa marés vermelhas tóxicas, floração de alga e o “sangue glaciar”.

Embora não se saiba exatamente o que provoca esse florescimento, a cor – com frequência vermelha, às vezes verde, cinza ou amarelo – deriva de pigmentos e outras moléculas que as algas da neve usam para se protegerem da luz ultravioleta. Essas tonalidades absorvem mais luz do sol, o que faz com que a neve embaixo derreta mais rapidamente. Isto pode mudar a dinâmica do ecossistema e acelerar o recuo dos glaciares.

Intrigados com o volume de notícias relatando o fenômeno, pesquisadores de diversos institutos alpinos decidiram voltar sua atenção para habitats em lugares mais distantes em vez daqueles próximos, disse Eric Marèchal, que chefia o laboratório de fisiologia vegetal na universidade de Grenoble e é o líder do projeto.

Como tantos tipos diferentes de algas vivem e florescem nas montanhas, os pesquisadores começaram a fazer estudos nos Alpes franceses para descobrir quais são as que crescem ali. Extraíram amostras do solo de cinco picos espalhados por várias altitudes para descobrir o DNA das algas.

E descobriram que muitas espécies preferem elevações particulares e muito provavelmente prosperaram nas condições lá encontradas. Um gênero chave, chamado apropriadamente de Sanguina, somente se desenvolve acima de dois mil metros de altitude.

Os pesquisadores também levaram algumas espécies para o laboratório para investigar os potenciais desencadeadores do seu florescimento. As algas brotam naturalmente – e a primeira observação do sangue glaciar veio de Aristóteles que achava que a neve desenvolvia minhocas vermelhas, cabeludas, por permanecerem por muito tempo no mesmo lugar.

Mas fatores gerados por humanos podem piorar esse fenômeno e torná-los mais frequentes. Condições climáticas extremas, temperaturas excepcionalmente altas e a concentração de nutrientes derivados do escoamento agrícola e esgoto contribuem para a proliferação das algas em água doce e oceânicas.

Para verificar se isso ocorre também com a alga chamada sangue glaciar, os estudiosos submeteram as algas a uma quantidade excessiva de nutrientes, como nitrogênio e fósforo. Embora não tenham encontrado nada significativo até agora, pretendem prosseguir nessa linha de testagem, disse Steward.

Os limites das amostras de DNA significam que mesmo este estudo fornece um quadro incompleto do que vive na neve e embaixo dela, afirmou Heather Maughan, microbiologista e pesquisadora no Ronin Institute em Nova Jersey, que não participou do estudo.

Mas a pesquisa revela a “incrível diversidade” das algas alpinas – mostrando o quão pouco se sabe a respeito delas, como também seu potencial para “servir de sinalizador da mudança do ecossistema”, disse ela.

Nos próximos anos, os pesquisadores pretendem monitorar como a distribuição das espécies muda com o tempo, o que pode informar a saúde no geral do ecossistema, disse a microbiologista. E eles também tentarão estabelecer se os padrões de temperatura têm alguma relação com o desenvolvimento das algas. E também começarão a comparar as espécies brancas encontradas na neve com as coloridas.

Eles esperam, no final, decifrar a mensagem do sangue glaciar. “Sabemos muito pouco. Temos de ir mais fundo nesse estudo”, disse ela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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