Por que idealizamos o passado?
Charlotte Lieberman, The New York Times - Life/Style

04 de maio de 2021 | 05h00

A um ano do início da pandemia, é fácil nos depararmos recordando o passado: restaurantes lotados, exercícios suados na bicicleta, compras no supermercado sem o incômodo das máscaras no rosto, e torrentes de adrenalina. A gente até sente falta de coisas que jamais achou que esqueceria, como os colegas chatos ou a longa viagem de ida para o escritório, e volta.

Sim, esta é a definição de “coisas que sempre achamos inquestionáveis”- por isso talvez não surpreenda que de repente todos nós estamos valorizando o que está mais ao nosso alcance. Mas é também a prova de uma tendência cognitiva que compartilhamos para lembrar do passado de maneira seletiva como melhor do que na realidade foi, principalmente quando o presente não parece nada bom.

Quando olhamos para trás para “os bons velhos tempos”, devemos perguntar a nós mesmos: Será que o passado foi realmente tão bom quanto como o lembramos? E o que podemos aprender de todas estas andanças da memória?

Espere aí. Está dizendo que minhas lembranças não são verdade?

Não exatamente. Mas há um conceito equivocado comum a todos nós, segundo o qual as lembranças são registros precisos do passado, preservados perfeitamente em um arquivo mental.

“Na realidade, a memória não funciona desta maneira”, disse Anne Wilson, professora de psicologia da Wilfrid Laurier University, cuja pesquisa focaliza memória, tempo e identidade. “Nós reconstruímos o que aconteceu no passado baseados em fragmentos e pedacinhos de memória. Nós agimos como arqueólogos – recolhendo as peças e montando-as novamente”.

Isto não significa que distorcemos conscientemente ou enfeitamos as nossas lembranças. Mas o processo de recuperação da memória é “extremamente reconstrutivo  e propenso a vários preconceitos”, disse Daniel Schacter, professor de psicologia de Harvard e autor de The Seven Sins of Memory: How the Mind Forgets and Remembers.

Por exemplo, os pesquisadores observaram que as memórias associadas a emoções negativas desaparecem mais rapidamente do que as associadas a emoções positivas. O fenômeno é conhecido como “tendência emocional ao enfraquecimento”.

“É um mecanismo de adaptação” explicou Felipe de Brigard, professor de filosofia, psicologia e neurociência da Duke University, que estuda a interseção da memória e da imaginação. “Você precisa carregar o seu passado. Se uma lembrança magoasse toda vez que lembrasse dela como quando a experimentou, isto seria insuportável”.

Um estudo de 2019 constatou uma correlação entre o viés emocional do enfraquecimento e a perseverança, sugerindo que a diminuição da negatividade permite às pessoas “colocar eventos positivos e negativos em sua correta perspectiva emocional”.

Há ainda o simples ato de que a maioria das pessoas prefere lembrar  das experiências positivas, o que nos dá o “acesso preferencial” a tais memórias, disse o dr. Schacter. Em outras palavras, aspectos do passado cuja lembrança é agradável tendem a permanecer em nós ao longo do tempo, enquanto elementos em que não costumamos pensar tendem a desaparecer. Os pesquisadores chamam a isto de esquecimento induzido pela recuperação. “Isto pode contribuir para uma tendência à memória positiva porque costumamos ensaiar, reformular e recuperar experiências  negativas”, disse o dr. Schacter. Memórias traumáticas, que muitas vezes são importunas e persistentes, são a exceção notável.

Faz sentido. Será sempre este o caso?

A nossa tendência geral a lembrar das memórias positivas e não das negativas é particularmente significativa quando o  presente nos causa desconforto. O que acontece porque o processo de relembrar o passado é sempre ditado pela “perspectiva de que estamos nos envolvendo, fazendo sobre o passado”, disse a dra. Anne Wilson. Ela chamou a isto de as nossas “lentes atuais”.

As lentes atuais funcionam como uma espécie de filtro, e determinam quais são os detalhes que você procura e o que fará com eles. Vivendo em uma pandemia mortal e na pior crise econômica desde a Grande Depressão, estamos preparados para algum grau de nostalgia coletiva como parâmetro. “Se começarmos com a hipótese de que as coisas eram melhores no passado, buscaremos as lembranças que confirmam isto”, disse o dr. Wilson.

 Parte disto tem a ver com o que os pesquisadores chamam de "reparo do humor" - fazer o possível para nos animarmos quando nos sentimos abatidos. “A memória não está ali só para lembrar-nos onde estacionamos o carro”, disse o dr. de Brigard. “Ela também desempenha outros papéis, e um deles é ajudar a nos sentirmos melhor”.

Nada disso se dá por acaso – a memória autobiográfica evoluiu dessa maneira por uma boa razão.

Em sua pesquisa, a dra. Wilson constatou que nós manipulamos as nossas memórias pessoais para criar com o tempo uma identidade coerente e um senso próprio favorável.

Isto pode significar melhorar as nossas lembranças com elementos criativos, ou omitindo detalhes indesejados. “Nós sabemos que a memória e a imaginação interagem enormemente”, afirmou o dr. de Brigard. “Frequentemente imaginamos como o passado poderia ter sido. Depois a nossa imaginação penetra na memória original e modifica o conteúdo”.

Embora o caráter maleável da nossa memória a torne vulnerável à manipulação, e ao erro, é também uma adaptação real da mente humana. “Lembrar dos eventos positivos do passado é uma maneira adaptativa de regular a emoção no presente e aumentar o otimismo em relação ao futuro”, disse o dr, Schacter.

Na realidade, a pesquisa do dr. Schacter mostrou que, em ambos os níveis neural e cognitivo, as mesmas regiões do cérebro são recuperadas quando lembramos do passado ou imaginamos o futuro.

Faz sentido. A fim de planejar para o futuro, precisamos olhar o passado. Em tempos menos que ideais, podemos recuperar memórias positivas para imaginar o futuro com maior esperança, motivação e adaptação.

Não, bater papo com os colegas no bebedouro talvez não parecesse tão extraordinário na época. Mas glorificar experiências como estas em nosso momento atual, pode ter realmente um propósito. Quem não precisa de um encorajamento nos dias de hoje?

Ok, mas e memórias que eu sei que são maravilhosas?

Somente porque as lembranças podem mudar quando as reconstruímos não significa necessariamente que todas elas mudaram de maneira considerável. Mas significa que ainda são formadas por vários processos cognitivos, como aqueles momentos significativos, como reuniões no período das festas ou viagens.

Todos sentimos isto. As férias da família estão repletas de brigas, queimaduras de sol e ressacas, mas de algum modo nós lembramos somente da qualidade dos momentos, do tempo esplêndido, de comidas deliciosas.

Em 1994, dois psicólogos pesquisadores, Terence Mitchell e Leigh Thompson, decidiram oferecer uma retrospectiva cor de rosa como uma de três maneiras em que a nossa mente cria o efeito das “lentes cor de rosa”. Em primeiro lugar, é uma projeção cor de rosa – a “maravilhosa antecipação positiva” que frequentemente leva a “exagerar as expectativas”, segundo o dr. Thompson, professor da Northwestern’s Kellogg School of Management.

Em segundo lugar, disseram os pesquisadores, está a “diminuição” do prazer no presente. “Estamos programados para dar estímulos negativos a grande parte da atenção mais cognitiva no presente”, afirmou o dr. Thompson. Mas estes detalhes “desaparecem pelo caminho nas nossas memórias”. Resultado? A retrospecção cor de rosa que lembra do passado com mais carinho do que experimentamos na época.

Diversos estudos documentam como se dá a retrospecção rosada. Um estudo de 1992 constatou que os visitantes da Disneylândia contavam lembranças muito mais positivas de suas viagens do que os detalhes de que lembravam durante as próprias viagens (como crianças chorando ou as longas filas). “Estamos conectados para dar estímulos positivos a uma atenção muito mais cognitiva ao presente”, afirmou o dr. Thompson.

Em 1997, o dr. Mitchell e o dr. Thompson obtiveram resultados semelhantes quando começaram a usar a sua teoria da retrospecção cor de rosa, examinando a antecipação e rememoração dos participantes de experiências e lembranças de uma viagem à Europa, férias do Dia de Ação de Graças e uma viagem de bicicleta  pela Califórnia de três semanas de duração. Em geral, as recordações que gravamos eram muito mais positivas do que as experiências gravadas no presente.

Em poucas palavras, sempre nos fixamos nos detalhes que confirmam o nosso estado de espírito atual (“Que férias maravilhosas foram aquelas!”) e costuramos junto as nossas memórias de acordo com isto.

“Parte disto é motivada pela auto-valorização: ‘Quero pensar em mim mesma como uma pessoa capaz, afortunada, provavelmente até de certo modo talentosa’ ”, disse o dr. Thompson. “Após o fato, construímos uma história e escolhemos de maneira seletiva  os aspectos românticos”.

Então qual é o problema?

Não há qualquer problema evidente na idealização do passado. Desde que sabemos como funciona a memória, podemos preservar a nossa responsabilidade, tentar aprender com o passado e viver mais plenamente o presente.

Mas particularmente durante os momentos mais difíceis da vida, dar um passo atrás com respeito ao que está acontecendo no presente apresenta benefícios concretos.

“Temos a capacidade de conseguir algum espaço graças a nossas experiências, o que pode ser realmente útil para ajuda-nos a pensar nelas de maneira mais objetiva”, disse Ethan Kross, psicólogo e diretor do Laboratório do AutoControle e do Controle das Emoções da Universidade de Michigan.

O dr. Kross dedicou grande parte de sua pesquisa ao estudo do que chama “auto-distanciamento” – “a capacidade de dar um passo fora de nós mesmos e ver-nos de uma perspectiva mais distanciada, como se pensássemos de outra pessoa”.

E acrescentou: “Há muitas maneiras de nos distanciarmos das nossas experiências. Pensar a respeito do passado é uma delas”.

Olhar para o passado, idealizado ou não, “nos proporciona um sentido mais amplo de nossa experiência”, ele disse.

Um estudo de 2015 constatou que “o distanciamento temporal” (ou, pensar sobre nós mesmos no passado, ou no futuro) aumenta a nossa capacidade de fazer frente aos eventos negativos por ajudar-nos a perceber a sua impermanência: “Isto também irá passar”.  Estamos mais preparados a acreditar nesta ideia quando vemos o proverbial quadro mais amplo.

Também ficou comprovado que o auto-distanciamento reduz a ansiedade e a depressão, reforça a auto-reflexão, melhora a tomada de decisões e a regulação das emoções, entre outros benefícios.

Passar o tempo com memórias idealizadas pode oferecer benefícios adicionais.

“A nostalgia é um importante recurso psicológico”, disse o dr. Wilson. “As pessoas podem mergulhar no passado, principalmente quando o presente não lhes fornece ajuda.”

Grande parte da pesquisa respalda tudo isto. Recorremos à nostalgia para fazer frente à solidão e ao tédio. Uma pesquisa de Xinyue Zhou da Sun Yat-Sen University, no sul da China, mostrou que a nostalgia não traz apenas benefícios psicológicos, mas também potencialmente fisiológicos. Em um estudo de 2012, a dra Zhou constatou que as pessoas costumam sentir nostalgia com mais frequência nos dias frios ou em cômodos frios, além disso, os participantes da sua pesquisa que falavam de memórias nostálgicas disseram que sentiram um certo calor.

Se a nostalgia “acalenta” não só os nossos corações, mas também o nossos corpos diante de condições difíceis, então pensar com carinho no passado pode ter uma utilidade do ponto de vista evolutivo, além de um conforto emocional.

A questão não será, então,  se apreciamos menos o passado – mas se aprendemos a apreciar mais o presente?

O que posso fazer para valorizar mais meu dia a dia, mesmo agora?

Analise do que você sente nostalgia: Por causa da pandemia, agora nós temos evidências de que nos tornamos nostálgicos até mesmo dos aspectos mais tediosos da vida. Portanto, afaste a própria lógica da sua mente, e analise quais os elementos de sua situação presente, por mais aborrecidos e repetitivos que sejam, você recordará quando tudo isto acabar.

Talvez seja o pão que você aprendeu a fazer e o próprio ritual de sua feitura. Ou passar mais tempo em casa com seus filhos. Permita-se notar realmente os detalhes destas experiências a fim de dar maior textura às suas memórias futuras. “Tente tornar-se nostálgico para o presente”, disse o dr. de Brigard. “Ajude o seu eu futuro tornando o presente mais memorável. Enfeite o tédio”.

Talvez ajude tirar algumas fotos e tornar os seus momentos aparentemente menos interessantes memórias que valha a pena preservar e  revisitar. Pensando nas suas experiências do presente em termos do potencial da sua memória – você poderá até mesmo perceber que está prestando mais atenção nos momentos ‘cor de rosa’ do que nestas distrações que acabam nos “enfraquecendo”. “Garanto que você não fotografará o seu cachorro que continua sujando o tapete, mas fotografará o rápido sanduíche perfeito que você aperfeiçoou durante o fechamento”, disse o dr. Thompson.

Coloque o presente no seu respectivo contexto. Aparentemente, onde quer que olhemos, todos nos dizem que devemos “viver o presente”. É um conselho válido. Fazer coisas como meditar ou dar um passeio pode ajudar a nos conectarmos  mais diretamente com a nossa experiência e a deixar de lado esses monólogos mentais.

Mas mergulhar no presente não é a única maneira de valorizar mais a vida. Na realidade, abraçar a nossa capacidade de pensar sobre o passado e o futuro pode nos ajudar a encontrar uma perspectiva mais saudável e um maior significado no presente.

“Estamos constantemente procurando entender o sentido das nossas experiências, e a nossa mente é justamente dotada de flexibilidade para nos ajudar nisto”, disse dr. Kross. “Não gostaria de desistir desta capacidade de regressar no tempo para entender o que estou experimentando, e depois criar uma história que me faça ir para frente.”

Por isso, dê um passo atrás dos detalhes minuciosos da sua vida neste momento, e considere como este período poderá se enquadrar  na sua “história de vida” pode parecer um tanto clichê, mas dar-se um certo distanciamento do dia a dia ajudará a ver a nós mesmo de maneira mais clara – e com mais compaixão. Imagine-se no futuro pensando neste tempo. Que história irá contar? O que você aprendeu? Quanto você cresceu?

Finalmente, procure valorizar o que você costumava julgar incontestável. Antes da pandemia, nós nos reuníamos com os amigos, íamos a bares, assistíamos a shows de música e não achávamos que tudo isto nos fosse devido. Agora, você perceberá que  saboreia um pouco mais os pequenos prazeres, principalmente se essas coisas não estiveram ao nosso alcance nos primeiros meses de pandemia.

Não é coincidência: estudos mostraram que quando temos menos, saboreamos mais. “É um princípio de economia”, disse Jordi Quoidbach, psicólogo e professor adjunto de administração de pessoas e organização na Escuela Superior de Administración y Dirección  de Empresas na Espanha. “O  que é raro costuma ser apreciado mais do que o que  se encontra imediatamente disponível”.

Mesmo quando  a vida voltar ao normal e o simples prazer de comer em um restaurante, por exemplo, se tornar acessível, poderemos “nos privar da superabundância do prazer”, disse o dr. Quoidbach. “Por exemplo, prolongar a excitação da perspectiva de voltar a frequentar restaurantes quando a vida voltar ao normal, e até tratar isto como uma espécie de prêmio e decidir concretamente que não comeremos fora de casa três vezes por semana, mas estabelecer que a noite de quinta-feira será especial, ou mesmo a da terceira quinta-feira do mês”.

Quando tudo fracassar, considere que este período, como qualquer outro, estará sujeito às infinitas distorções da memória. O seu cabelo estará grisalho e a sua ansiedade talvez chegue até o teto, mas você pode imaginar a história que irá reescrever  quando chegar a hora de idealizar mais uma vez o passado. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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