Inhee Lee via The New York Times
Inhee Lee via The New York Times

Um caracol e um minúsculo computador dão respostas a um mistério sobre a extinção

Uma colaboração improvável resolveu um antigo mistério de sobrevivência dos caracóis das Society Islands, na Polinésia Francesa

Sabrina Imbler, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2021 | 05h00

Em 2017, um caracol-lobo rosado rastejava por uma trilha no Taiti com um passageiro inesperado: um computador sob medida do tamanho de um pulgão, parafusado na sua concha, como um chapéu.

Essa espécie particular de caracol está envolvida na extinção de cerca de 134 espécies de caracóis em todo o mundo. O caracol-lobo, que é carnívoro, foi introduzido há décadas no Taiti e essa espécie predatória deixou ali alguns sobreviventes.

Mas uma espécie taitiana conseguiu sobreviver nas dezenas de vales da ilha: o minúsculo caracol Partula Hyialina cuja concha é branca. “Tem de haver algo especial no caso deles”, disse Cindy Bick, pesquisadora na Universidade de Michigan.

Agora, com dados coletados de um dos menores computadores do mundo fixado na concha do caracol-lobo rosado e do habitat frondoso dos caracóis Partula Hyialina, Bick e seus colegas entenderam como a concha branca daquele caracol permitiu que essa espécie sobrevivesse à extinção. Os resultados da sua pesquisa foram publicados em junho na revista Communications Biology.

Em 2012, quando Bick ainda era uma estudante, ela começou a investigar o mistério da sobrevivência do caracol P. hyialina junto com Damaid O Foighil, professor de ecologia e biologia evolucionária e curador do museu de Zoologia da universidade. Juntos, publicaram um estudo em 2014, sugerindo que a ninhada mais abundante de descendentes ajudou esse caracol a sobreviver melhor que outras espécies. Mas isso não era o suficiente para explicar o sucesso do P. hyialina. “Ele está fazendo mais do que sobreviver”, disse Ó Foigh.

Muitos caracóis terrestres preferem a sombra. O caracol-lobo rosado, como muitas espécies, secaria como charque se deixado ao sol. Mas Bick, quando fez pesquisas em revistas de campo, leu que um malacologista do início do século 20, disse que o caracol P. hyialina com frequência era encontrado nas margens de florestas, onde as árvores ficam desbastadas à luz do sol.

Bick e seu colega começaram a pensar: se a concha leitosa do caracol P. hyalina consegue refletir e tolerar mais a luz do sol, as áreas ensolaradas da floresta podem oferecer um refúgio seguro que os protege contra o caracol-lobo. Eles so precisavam encontrar uma maneira de medir quanta luz do sol cada espécie recebia a cada dia.

Enquanto os dois estudavam os caracóis, o laboratório de engenharia de David Blaauw criava o menor computador do mundo que tem uma bateria, um sensor de 2 x 5 x 2 milímetros, ligeiramente maior do que um pulgão. Os sensores recebem dados com luz visível e os transmitem através de rádio.

Alguns anos depois, a equipe de Blaauw recebeu um pedido excepcional: fixar os minúsculos computadores nos caracóis carnívoros no Taiti. A proposta de Bick parecia perfeita: era uma chance de testar os sensores no mundo real com colaboradores ao lado e ajudando num projeto que poderia fazer avançar a preservação da vida selvagem.

Para preparar os sensores para a tarefa, o laboratório adicionou um minúsculo aparelho munido de células fotovoltaicas para o sensor recarregar sua bateria com o sol. Eles envolveram o sistema com epóxi impermeável e o protegeram da luz forte e da movimentação desorganizada do caracol.

Eles tinham um problema. Precisavam alimentar os minúsculos computadores de energia para medir a luz, mas sem o uso de baterias grandes que iriam esmagar o molusco. Inhee Lee, hoje professor assistente de engenharia elétrica e de computadores na Universidade de Pittsburgh e que era pesquisador no laboratório de Blaauw, ajudou a resolver o quebra-cabeças. Ele e Blaauw simplesmente utilizaram um aparelho que cortava a energia e mediram a velocidade da sua carga solar substituindo a luz do sol.

Usando caracóis invasivos encontrados num jardim em Michigan, os pesquisadores tentaram primeiramente, mas não conseguiram, prender os computadores nas conchas com imãs e Velcro, e então estudaram uma maneira de grudar uma porca de metal na superfície e parafusar o sensor na concha. E então os caracóis e seus minúsculos passageiros estavam prontos para resistir aos elementos simulados (baldes de água).

Em agosto de 2017, Bick e Lee chegaram ao Taiti com 55 sensores. Eles percorreram os vales guiados por Trevor Coote, autor de um estudo e especialista em caracóis terrestres que tinha sua base no Taiti (ele morreu em consequência da covid-19 em fevereiro).

Diariamente, os pesquisadores monitoraram os caracóis durante horas para não escaparem. Eles não tinham autorização para prender os computadores no P. hyalina, uma espécie considerada em risco, de maneira que colocaram câmeras diretamente ao longo dos caracóis, nas folhas em que dormiam durante o dia, basicamente rastreando a quantidade de luz do sol que os moluscos imóveis recebiam. Mas os caracóis-lobo rosados foram um desafio mais complicado, uma vez que eles se moviam lentamente, mas são muito determinados na buscar por alimento.

Os dados revelaram que os sensores no habitat do P. hyalina receberam, em média, 10 vezes a quantidade de luz do sol que os caracóis-lobo recebiam. O que confirmou a hipótese dos pesquisadores de que mais luz protegia os caracóis brancos dos predadores rosados.

O caracol-lobo foi introduzido nas ilhas Sociedade nos anos 1970 com o objetivo de controlar um outro invasor, o caracol terrestre gigante africano. Mas o reinado de terror do caracol-lobo levou muitas espécies de caracóis das árvores nas ilhas à extinção.

“Cresci nesses ambientes e ouvi os mitos e histórias de animais e plantas que hoje estão extintos ou a caminho da extinção se não agirmos rápido para preservá-los”, disse Bick, que nasceu numa ilha do Pacífico. Ela espera que sua pesquisa contribua para os esforços para manter os habitats que servem de refúgio solar para os P. hyialina nas Society Islands.

“A maior parte do tempo, nós falamos sobre coisas que estão mortas ou estão morrendo. Esta é uma história de resiliência”, disse Bick. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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