Steven D. Miller/NOAA via The New York Times
Steven D. Miller/NOAA via The New York Times

Satélites detectam oceanos brilhantes com trilhões de micro-organismos

Cientistas identificaram grandes episódios de bioluminescência no mar, cem vezes maior que a ilha de Manhattan - e essa é o menor deles

William J. Broad, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 05h00

O oceano sempre brilhou.

Os gregos e os romanos conheciam as criaturas luminosas dos mares, assim como o fenômeno mais amplo das águas do mar que podiam ser iluminadas por cores verde-azuladas.

Charles Darwin, navegando próximo da América do Sul a bordo do HMS Beagle em uma noite escura, deparou-se com ondas luminescentes. Ele chamou o que via de “maravilhoso e o mais belo espetáculo”. Até onde sua visão podia alcançar, ele acrescentou, “a crista de cada onda era brilhante” – tanto quanto as “luzes lívidas” que iluminavam o céu.

Agora, os cientistas anunciaram que a bioluminescência dos oceanos pode ser tão intensa e enorme em volume que os satélites orbitando a cerca de 800 quilômetros de altura são capazes de ver os tapetes luminosos de micro-organismos quando eles se materializam nos mares. En julho, na revista científica Scientific Reports, oito pesquisadores divulgaram a descoberta de um trecho luminoso ao sul da ilha de Java em 2019 que cresceu e ficou maior do que as áreas combinadas dos estados americanos de Vermont, New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island e Connecticut.

“Foi uma surpresa”, disse Steven D. Miller, principal autor do estudo de bioluminescência e especialista em observações por satélite da Universidade do Estado do Colorado. Quando uma maravilha oculta da natureza é descoberta, ele acrescentou, “isso toma conta de sua mente”.

Os cientistas disseram que a análise atenta das imagens coletadas entre dezembro de 2012 e março de 2021 com dois satélites permitiu a eles identificar uma dezena de grandes ocorrências – aproximadamente uma a cada oito meses. Mesmo as menores eram cem vezes maiores que Manhattan.

As imagens estão abrindo uma nova janela para os oceanos do mundo, segundo os cientistas, e prometem ajudar a rastrear e estudar os mares brilhantes, cujas origens são pouco compreendidas.

Kenneth H. Nealson, um pioneiro na pesquisa de bioluminescência da Universidade do Sul da Califórnia, chamou a descoberta de “um grande passo em direção à compreensão” de como um duradouro mistério dos mares “realmente se desenvolve”.

O novo artigo observou que as grandes concentrações de luzes lívidas há muito “escapavam das rigorosas investigações científicas e, por isso pouco se sabe a respeito de sua composição, formação, mecanismo e papel dentro do ecossistema marinho”.

A bioluminescência marinha é muitas vezes associada com terríveis criaturas das profundezas abissais. Um icônico ser iluminador é o peixe-pescador-das-profundezas, que balança uma antena luminosa em frente aos dentes pontiagudos para atrair presas. Em contrapartida, os mares brilhantes parecem se originar quando muitos trilhões de minúsculas bactérias se acendem ao mesmo tempo.

Nealson, que não estava envolvido com a pesquisa por satélites, e colegas relataram em 1970 que as suspensões diluídas de um tipo específico de bactéria não emitem brilho. No entanto, se fosse permitido que se multiplicassem, os micróbios repentinamente se iluminavam como se um interruptor tivesse sido acionado. Os cientistas agora teorizam que as massas brilhantes de bactérias atraem peixes, cujas entranhas oferecem habitats nutritivos.

O caminho de descoberta de Miller começou quase duas décadas atrás, quando uma conversa na hora do almoço levantou a dúvida de se a bioluminescência marinha poderia ser visível do espaço. Enquanto trabalhava no Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos em Monterey, Califórnia, em 2004, ele começou a examinar imagens de um satélite meteorológico. Pouco depois, ele encontrou no noroeste do oceano Índico o que se revelou ser uma mancha brilhante que era quase do tamanho do estado americano de Connecticut.

A área desfocada quase não era visível, mas Miller e seus colegas ficaram muito animados, porque sabiam que uma nova geração de sensores de satélite em breve ofereceria maior sensibilidade e nitidez. Os sensores aprimorados estrearam em um par de satélites lançados pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA em 2011 e 2017.

Os detectores sensíveis provaram ser competentes – pelo menos nas noites escuras – em capturar lampejos de luz dos mares e ao fornecer imagens para o relatório atual.

Segundo Miller, foi uma surpresa as ocorrências acabarem persistindo por longos períodos. Por exemplo, o grande trecho próximo à ilha de Java, em 2019, durou pelo menos 45 noites. Isso levanta a possibilidade de que uma equipe de oceanógrafos de resposta rápida talvez tenha tempo suficiente para alcançar os trechos e coletar amostras para estudos detalhados.

Até o momento, disse Miller, nenhuma equipe foi bem-sucedida. Ele acrescentou que as empresas de televisão que realizam documentários sobre a natureza sinalizaram interesse em usar as detecções por satélite para rastrear e filmar os mares reluzentes.

Peter Herring, biólogo marinho britânico conhecido por seu trabalho em bioluminescência profunda, disse que a pesquisa por satélite era importante, pois, depois de anos de incerteza, suscita a perspectiva de finalmente conseguir provas concretas do que aciona os verticilos iluminados.

A descoberta, acrescentou, “é um grande respingo que terá ondulações significativas”. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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