Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Ciência busca a origem da generosidade humana

Comportamento de nossos parentes vivos mais próximos pode ajudar cientistas a entender o impulso humano para generosidade

Carl Zimmer, The New York Times

28 Setembro 2018 | 15h15

Até que ponto um macaco é generoso? A resposta pode nos dizer muito a nosso respeito. Pessoas de todas as culturas podem ser generosas.

Embora seja fácil nos atermos à nossa capacidade para a guerra e violência, os cientistas enxergam nossa generosidade como um traço notável na nossa espécie. “Uma das coisas que se destacam nos humanos é nossa disposição em ajudar o próximo", disse o pesquisador Christopher Krupenye, da Universidade de St. Andrews, Escócia.

Essa generosidade pode ter sido fundamental para a sobrevivência dos nossos ancestrais, que viviam em grupos de caçadores-coletores.

Para compreender esse impulso - conhecido como pró-sociabilidade - os pesquisadores se voltaram para nossos parentes vivos mais próximos. Um novo estudo envolvendo macacos bonobo indica que as raízes da generosidade humana são profundas.

Há cerca de sete milhões de anos, nossa linhagem se separou dos ancestrais dos chimpanzés e seus primos, os Bonobos.

Essas duas espécies evoluíram de maneira diferente no seu comportamento, incluindo os objetos - alimento ou ferramentas - que as levam a ser generosas.

Recentemente, Krupenye e outros testaram os bonobos num santuário na República Democrática do Congo. Eles se mostraram generosos - até certo ponto.

Os bonobos do santuário aprenderam a abrir cocos usando pedras. Sem a pedra, eles precisam morder a casca por muito tempo até conseguir chegar à polpa da fruta.

Os cientistas colocaram um bonobo numa jaula com cinco cocos. Em outra jaula, um outro bonobo, com duas pedras mas nenhum coco. As jaulas eram unidas por uma janela. Os bonobos tinham liberdade para trazer presentes até a janela - ou para ignorar o vizinho.

Em 18% dos experimentos, os bonobos com os cocos ofereceram um deles ao vizinho. Mas o bonobo da jaula ao lado quase nunca respondia com o favor recíproco de oferecer uma pedra.

Em outro experimento, um colega de Krupenye introduziu uma vareta na jaula perto do bonobo e foi embora. Então, Krupenye pedia a vareta. Os bonobos quase nunca devolviam a vareta a Krupenye. Alguns pareciam até provocá-lo.

Em experimentos semelhantes com comida, o comportamento dos chimpanzés foi quase o oposto. “Os chimpanzés relutam em abrir mão da comida", disse o psicólogo Felix Warneken, da Universidade de Michigan.

Mas, em se tratando de ferramentas, os chimpanzés entregam pedras a outros chimpanzés. E, no experimento envolvendo a vareta, eles ajudam os humanos. “Uma espécie que não ajuda o próximo a obter comida o acaba ajudando a conseguir um objeto", explicou o primatólogo Brian Hare, da Universidade Duke, Carolina do Norte.

Os chimpanzés vivem em habitats onde o alimento é escasso. Precisam disputar a comida; sabem também como usar ferramentas para obter alimento. Em comparação, os bonobos vivem em florestas onde o alimento é abundante. Eles podem reconhecer o valor que a comida pode ter para o outro, e não sentem a necessidade de ficar com todo o alimento para si.

Mas os bonobos parecem menos habilidosos com as ferramentas. No ambiente selvagem, nunca foram vistos abrindo cocos com pedras nem pescando cupins com uma vareta.

“Talvez eles simplesmente careçam de uma compreensão mais aprofundada do que são as ferramentas", afirmou Warneken.

Warneken e outros realizaram estudos semelhantes envolvendo crianças. Eles observaram que até mesmo bebês oferecem espontaneamente alimentos e objetos aos adultos.

É possível que o ancestral comum de humanos, bonobos e chimpanzés já tivesse a pró-sociabilidade. E agora nossa generosidade se expande além daquilo que ele e outros cientistas observam em nossos parentes mais próximos.

“Não estamos mais falando do mesmo tipo de motivação observada em outros animais. Agora existe uma espécie de obrigação em compartilhar com os demais", explicou Warneken.

Mais conteúdo sobre:
Evolução ciência

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.