Toh Gouttenoire/The New York Times
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Como os humanos perderam suas caudas

Estudo sugere que uma única mutação genética ajuda a explicar por que os macacos têm caudas, enquanto os símios e as pessoas não

Carl Zimmer, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2021 | 05h00

Por aproximadamente meio bilhão de anos, nossos ancestrais germinaram caudas. Como peixes, eles usaram suas caudas para nadar nos mares cambrianos. Muito mais tarde, quando evoluíram para primatas, suas caudas os ajudaram a manter o equilíbrio enquanto se balançavam de galho em galho pelas selvas do Eoceno. E então, cerca de 25 milhões de anos atrás, as caudas desapareceram.

Charles Darwin foi o primeiro a reconhecer essa mudança profunda em nossa antiga anatomia. Mas como e por que ela aconteceu permaneceu um mistério.

Agora, uma equipe de cientistas em Nova York diz ter identificado a mutação genética que pode ter apagado nossas caudas. Quando os cientistas fizeram esse ajuste genético em ratos, os animais não desenvolveram caudas, de acordo com um novo estudo publicado online em setembro.

Essa mudança anatômica dramática teve um impacto profundo em nossa evolução. Os músculos da cauda de nossos ancestrais evoluíram para uma malha semelhante a uma rede ao longo da pélvis. Quando os ancestrais dos humanos se levantaram e caminharam sobre duas pernas, alguns milhões de anos atrás, aquela rede muscular estava pronta para suportar o peso de órgãos eretos.

Embora seja impossível provar definitivamente que essa mutação eliminou a cauda de nossos ancestrais, "é o mais próximo de uma prova cabal que se poderia esperar", disse Cedric Feschotte, geneticista da Universidade Cornell que não esteve envolvido no estudo

Darwin chocou seu público vitoriano ao afirmar que descendíamos de primatas com caudas. Ele observou que, embora os humanos e símios não tenham cauda visível, eles compartilham um pequeno conjunto de vértebras que se estendem para além da pélvis - uma estrutura conhecida como cóccix.

“Não duvido que seja uma cauda rudimentar,” ele escreveu.

Desde então, os paleoantropólogos encontraram fósseis que jogam alguma luz sobre essa transformação. Os mais antigos primatas conhecidos, datando de 66 milhões de anos, tinham caudas completas que provavelmente usavam para manter o equilíbrio nas árvores. Hoje, a maioria dos primatas vivos, como lêmures e quase todos os macacos, ainda têm caudas. Mas quando os símios apareceram no registro fóssil, cerca de 20 milhões de anos atrás, eles não tinham cauda.

“Essa questão - onde está minha cauda? - está na minha cabeça desde que eu era criança”, disse Bo Xia, um aluno de pós-graduação em biologia de células-tronco na NYU Grossman School of Medicine.

Uma corrida ruim de Uber, na qual Xia machucou seu cóccix, trouxe a questão de volta com uma nova urgência. “Levei um ano para me recuperar, e isso realmente me estimulou a pensar sobre a região do cóccix,” ele disse.

Para entender como os símios e os humanos perdiam a cauda, Xia observou como a cauda se forma em outros animais. Nos estágios iniciais do desenvolvimento de um embrião, um conjunto de genes principais é ativado, orquestrando diferentes partes da coluna para desenvolver identidades distintas, como o pescoço e a região lombar. Na extremidade do embrião, um broto da cauda emerge, dentro do qual se desenvolve uma cadeia especial de vértebras, músculos e nervos.

Os pesquisadores identificaram mais de 30 genes envolvidos no desenvolvimento de caudas em várias espécies, desde a longa cauda de uma iguana até o toco de um gato manês. Todos esses genes também estão ativos em outras partes do embrião em desenvolvimento. Os cientistas ainda estão estudando como sua atividade única no final de um embrião dá origem a uma cauda.

Xia argumentou que nossos ancestrais perderam sua cauda quando mutações alteraram um ou mais desses genes. Para pesquisar essas mutações, ele comparou o DNA de seis espécies de símios sem cauda a nove espécies de macacos com caudas. Eventualmente, ele descobriu uma mutação partilhada entre símios e humanos – mas ausente nos macacos – em um gene chamado TBXT.

TBXT foi um dos primeiros genes descobertos pelos cientistas há mais de um século atrás. Na época, muitos pesquisadores procuraram genes com a utilização de raios-X em animais, micróbios e plantas, esperando que as mutações criassem uma mudança visível.

A mutação que Xia descobriu não havia sido observada antes. Consistia em 300 letras genéticas no meio do gene TBXT. Esse trecho de DNA era virtualmente idêntico em humanos e símios, e estava inserido precisamente no mesmo lugar em seus genomas.

Xia apresentou a descoberta a seus supervisores, Itai Yanai e Jef Boeke, para ver o que eles achavam. “Eu quase caí da cadeira, porque é um resultado impressionante”, relembrou Yanai.

Para testar a ideia de que a mutação estava envolvida no desaparecimento de nossa cauda, Xia e seus colegas criaram camundongos geneticamente modificados com a mutação TBXT dos humanos. Quando esses embriões se desenvolveram, muitos dos animais não conseguiram desenvolver uma cauda. Em outros, ela cresceu apenas um pouco.

Xia e seus colegas argumentam que essa mutação atingiu um macaco aleatoriamente há cerca de 20 milhões de anos, fazendo com que apenas um toco de cauda crescesse, ou até mesmo nenhuma. Ainda assim, o animal sem cauda sobreviveu e até mesmo prosperou, passando a mutação para seus descendentes. Eventualmente, a forma mutante de TBXT se tornou a norma em símios vivos e humanos.

Os cientistas disseram que a mutação TBXT não é a única razão pela qual temos um cóccix ao invés de uma cauda. Enquanto os ratos em seus experimentos produziram uma variedade de caudas alteradas, nosso cóccix é quase sempre idêntico de pessoa para pessoa. Deve haver outros genes que sofreram mutações posteriormente, ajudando a produzir uma anatomia uniforme.

Mesmo que os geneticistas estejam começando a explicar como nossa cauda desapareceu, o motivo ainda os confunde.

Os primeiros símios eram maiores que os macacos, e seu tamanho maior teria feito com que caíssem dos galhos com mais facilidade, e era mais provável que essas quedas fossem fatais. É difícil explicar por que os símios que não tinham caudas para ajudá-los a se equilibrarem não teriam sofrido uma desvantagem evolutiva significativa.

E perder uma cauda poderia trazer outros perigos também. Xia e seus colegas descobriram que a mutação TBXT não apenas encurta a cauda, mas às vezes também causa defeitos na medula espinhal. E, no entanto, de alguma forma, perder uma cauda provou ser uma grande vantagem evolutiva. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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