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Já sentiu coceira? Talvez você deva agradecer à evolução

Um novo estudo sugere que humanos possuem mecanismo de defesa que responde com sensação de coceira a carrapatos e outros ectoparasitas

Sabrina Imbler, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 05h00

De certa maneira, a náusea é o nosso guarda-costas confiável.

A sensação de náusea é amplamente tida como um mecanismo evolucionário de defesa que protege as pessoas de patógenos e parasitas. Engasgos ou ânsias de vômito são “bem adequados” para nos defendermos contra coisas que engolimos e possam conter patógenos, de acordo com Tom Kupfer, psicólogo e cientista da Universidade Nottingham Trent, na Inglaterra. Mas vomitar é inútil para combater os carrapatos, ectoparasitas que se agarram à nossas peles, não aos nossos estômagos.

Em um experimento que provoca embrulho estomacal e coceiras — e posso confirmar essas e outras formas de respostas fisiológicas em primeira mão — Kupfer e Daniel Fessler, antropólogo evolucionário da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, argumentam em um artigo publicado pela revista científica Proceedings of the Royal Society B que os humanos evoluíram para se defender de ectoparasitas por meio de uma reação na pele que provoca a coceira.

Apesar de alguns especialistas não envolvidos na pesquisa afirmarem que mais estudos são necessários, as descobertas se alinham com alguns entendimentos a respeito da evolução do nojo.

“Faz sentido termos desenvolvido estratégias adaptativas de defesa contra ‘bichos nojentos’”, afirmou em um e-mail Cécile Sarabian, ecologista cognitiva que estuda nojo de animais no Instituto de Pesquisa com Primatas da Universidade de Quioto, no Japão.

A asquerosa investigação começou em 2017, nas instalações do Chicheley Hall, em Buckinghamshire, Inglaterra. Kupfer apresentava suas descobertas a respeito de tripofobia, que é uma aversão a agrupamentos de buracos ou bolhas experimentada por algumas pessoas. Os dados dele mostravam que voluntários com tripofobia reagiam com frequência a imagens esburacadas ou bolhosas sentindo coceira ou se coçando, às vezes até sangrar a pele. Kupfer sugeriu que a tripofobia pode não expressar medo, mas, em vez disso, nojo em relação a sinais de parasitas ou doenças infecciosas, que podem resultar em lesões com pequenos buracos e bolhas na pele ou pústulas.

A apresentação de Kupfer incluía imagens que normalmente desencadeiam reações de tripofobia, como vagens de sementes de lótus ou bolhas espumosas. Em um dado momento, um pesquisador incomodado que assistia a apresentação na primeira fila começou a berrar pedindo que Kupfer tirasse da tela uma das imagens.

Quando um buraco se fecha, outro se abre. Fessler aproximou-se de Kupfer após a apresentação, e ambos começaram a conversar a respeito de como o corpo humano pode ter dois tipos de resposta de defesa em reação a certas ameaças. Já que náuseas e vômitos previnem a ingestão de micróbios perigosos, coceiras podem nos proteger de ectoparasitas. Eles começaram a trabalhar em um artigo acadêmico que foi publicado em 2018.

Para o novo estudo, Kupfer e Fessler desenvolveram um experimento no qual mostraram às pessoas uma série de vídeos de 90 segundos — uma sugestiva compilação de imagens de patógenos e ectoparasitas — e perguntavam aos voluntários a respeito de suas reações emocionais e físicas.

A seleção dos vídeos foi um trabalho artístico. “Não queríamos que as pessoas simplesmente dissessem, ‘Isso é nojento’”, afirmou Kupfer. “Queríamos desencadear as sensações fisiológicas que acompanham a reação no nojo: náuseas, engasgos e coceiras.”

Então Kupfer chafurdou no YouTube, com ajuda das então estudantes de graduação da UCLA Sonia Alas e Tiffany Hwang. O trio assistiu a horas de vídeos, selecionando os mais asquerosos e infames possíveis. “Buscávamos fezes, algum tipo de infecção”, esclareceu ele.

O sonho de Kupfer virou realidade. Os clipes finais de ectoparasitas exibidos aos voluntários incluíam um gatinho coberto de pulgas, uma infestação assustadora de percevejos de cama e um close num mosquito sugando sangue. Os clipes finais de patógenos incluíam um pedaço de carne recheada de vermes pulsando com o movimento das larvas; uma ferida infectada num braço que jorrava pus, Fessler chamou essa imagem de “vulcão de pus”; e uma bola maciça de cera de ouvido escura como um asteróide.

A imagem da carne foi produzida pelo próprio Kupfer, que não conseguia encontrar um vídeo suficientemente asqueroso de comida podre. Ele deixou um corte de carne no jardim de casa por duas semanas e filmou quando “pareceu mais nojento”, afirmou ele.

O vídeo considerado mais asqueroso pelos pesquisadores — intitulado de “Festival das privadas sujas” na seção de informações suplementares do artigo — acabou removido do YouTube. E talvez isso tenha sido a melhor coisa a se fazer. Eu tentei assistir todos os vídeos usados no experimento. Não vomitei, mas senti palpitações e tive de me trancar no banheiro no escuro com as luzes apagadas por vários minutos até a imagem do vulcão de pus sair da minha cabeça. Ter perdido o festival das privadas sujas me pareceu um ato de preservação pessoal.

Os cientistas conduziram essencialmente o mesmo experimento três vezes, duas nos Estados Unidos e uma na China, pesquisando no total mais de mil pessoas. Nos três experimentos, os participantes tiveram reações distintas a vídeos de ectoparasitas, em comparação aos vídeos de patógenos. Ao assistir os ectoparasitas, os voluntários relataram mais vontade de se coçar e coceiras, teoricamente protegendo sua pele do perigo. E ao assistir os patógenos, relataram mais sensações de náusea e ânsias de vômito.

Os pesquisadores planejam expandir esse projeto internacionalmente, para aferir de que maneira as reações de nojo de ectoparasitas variam entre diferentes países e culturas. Entender as nuances do nojo, afirmam eles, poderia colaborar com nosso entendimento de distúrbios como a parasitose delirante, que faz as pessoas acreditarem que parasitas invadiram seu corpo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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