Byron Dilkes/Danah Divers/REUTERS
Byron Dilkes/Danah Divers/REUTERS

O problema dos tubarões problemáticos

As ideias de um biólogo marinho para a identificação dos tubarões que atacam seres humanos provocaram objeções de outros cientistas que pesquisam esta espécie

Jason Nark, The New York Times - Life/Style

05 de fevereiro de 2021 | 22h30

Na guerra aos tubarões utilizavam-se choques e às vezes o medo. Quando um tubarão mordia ou matava um banhista, no século passado, as pessoas chegavam a eliminar centenas desses predadores marinhos para acalmar o pânico, como executar todo mundo em uma fileira de policiais a fim de garantir que se fez justiça com a parte culpada.

Eric Clua, professor de biologia marinha da École Pratique des Hautes Études de Paris,  disse que a justificativa  para estes massacres, no passado, era simples: menos tubarões, menos ataques. Este  tipo de raciocínio  também implica a utilização de redes para tubarões e de anzóis com iscas, usados hoje em várias praias australianas e da África do Sul frequentemente visitadas por tubarões. Com isso, observou, a natureza paga um preço exorbitante.

“Eles estão matando tubarões que não têm culpa nenhuma”, disse o cientista que estuda os predadores oceânicos perto do Pacífico Sul.

Clua encontrou uma maneira de fazer ataques de precisão contra tubarões que atacaram pessoas utilizando uma fórmula de teste de DNA, que ele chama de “marca da mordida”. Ele acredita que somente tubarões sozinhos com problemas atacam seres humanos repetidamente, por analogia  com predadores terrestres nos quais foi documentado um comportamento semelhante. Em lugar de matar cada urso, tigre ou leão quando apenas um atacava pessoas em série, vigilantes da vida selvagem em terra costumam concentrar a sua ira no culpado. Segundo Clua, os tubarões com problemas podem ser despachados da mesma maneira.

No verão passado, Clua e vários colegas publicaram  o seu trabalho mais recente sobre a coleta de DNA da marca das mordidas de grande número de tubarões. Feito o banco de dados, o DNA coletado das feridas das pessoas mordidas, é comparado a um tubarão conhecido. O culpado então terá de ser encontrado e morto.

Os críticos discordam de todos os aspectos deste plano.

“Não é assim que a pesca funciona”, disse Catherine Mcdonald, professora de biologia da preservação marinha da Universidade de Miami. “Mesmo quando temos um tubarão marcado por satélite e sabemos onde ele está, se formos até o local e colocarmos um anzol na água, não há qualquer razão para pensar que pegaremos aquele tubarão”.

A teoria do “tubarão problema” origina-se de uma série de ataques ocorridos em Nova Jersey em 1916 que matou quatro pessoas, chocando os americanos da época. Pescadores pescaram e mataram muitos tubarões depois disso, e os artigos dos jornais falaram que um deles, um grande tubarão branco, poderia ter restos humanos no estômago.

No entanto, alguns especialistas criaram a teoria segundo a qual outra espécie, o agressivo tubarão touro, também poderia estar envolvida, porque um dos ataques ocorreu em um pequeno riacho de água salobra a quase dois quilômetros do oceano. Os tubarões touros são conhecidos por penetrarem em água salobra. Os brancos grandes, não.

Além disso,  Christopher Pepin-Neff, professor de política pública da Universidade de Sydney que estudou como o ser humano vê os tubarões, disse que a teoria  do “tubarão assassino”, popularizada pelo filme Tubarão , de Steven Spielberg, foi desmascarada.

“O que eles afirmam basicamente é que o tubarão do filme é real”, escreveu Pepin-Neff referindo-se a Clua e seus coautores.

Outros pesquisadores  afirmaram em suas críticas que respeitam Clua, cuja pesquisa acadêmica sobre a ecologia e comportamento do tubarão  foram citados muitas vezes por outros especialistas do ramo. Mas mesmo os que afirmam que a sua abordagem forneceria informações úteis sobre o comportamento do tubarão, como Blake Chapman, que estudou a neurociência do tubarão na Universidade de Queensland, na Austrália, e escreveu um livro sobre o conflito homem-tubarão, disse que eliminar estes tubarões culpados “seria quase impossível”.

“Não acredito que a eliminação dos ‘indivíduos problemáticos’ em decorrência desta informação seja uma aplicação realista dos dados”, ela disse. E acrescentou que a existência de tubarões deste tipo, na melhor das hipóteses  nunca foi provada.

David Shiffman, biólogo conservacionista marinho e pesquisador em pós-doutorado na Universidade Estadual de Arizona, disse que  custaria bilhões de dólares a implementação da proposta de Clua em uma escala significativa na Austrália, África do Sul ou Estados Unidos, países com vastos litorais onde tubarões e pessoas   muitas vezes se misturam.

“Esta ideia não faz sentido em qualquer plano que seja possível imaginar”, afirmou Shiffman, que debateu a proposta com Clua no Twitter.

Clua afirma que a pesquisa que ele publicará dentro em breve prova que “os tubarões problemáticos” existem entre espécies como tubarões touro e tigre. Ele também descreve o seu trabalho como “revolucionário” e admite que se encontra no limite da ciência aceita em biologia marinha.

“A maioria dos pesquisadores de tubarões pensa, não na maneira errada, mas em uma maneira incompleta”, afirmou.

Entretanto, as pessoas reagem quando ocorrem ataques de tubarões, e Shiffman lembrou que estes incidentes são raros. Segundo o Arquivo Internacional de Ataques de Tubarões da Universidade da Florida, houve 64 ataques não provocados contra humanos no ano passado, e 41 provocados, o que significa que uma pessoa "inicia de qualquer modo uma interação com um tubarão".

Cinco destes ataques foram fatais. Há mais pessoas que morrem todos os anos de queda de árvores nos EUA.

Clua espera lançar  o seu  banco de dados do DNA na  Ilha Reunião, onde 10 pessoas foram mortas por tubarões nos últimos 10 anos. Ele acredita  poder montar a sua operação sobre as marcas de mordidas por menos de US$ 1 milhão e provar que funciona.

Por enquanto, ele praticará a técnica nos tubarões tigre, conhecidos por comerem qualquer coisa, assim que  voltar para a sua base de pesquisa na Polinésia Francesa.

“Vou fazer com que eles mordam a perna de um porco”, disse, “ ou alguma coisa com carne, músculo e osso. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Tudo o que sabemos sobre:
ciênciaecologiatubarão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.