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A 'crise' da contagem dos espermas pode não fazer sentido

Relatórios sobre um declínio na fertilidade masculina baseiam-se em suposições falhas, afirma novo estudo

Rachel E. Gross, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2021 | 05h00

Cientistas homens por muito tempo referiram-se em termos poéticos ao conteúdo dos seus testículos. “O esperma é uma gota do cérebro”, escreveu o escritor da Grécia antiga Diógenes Laércio. Leonardo da Vinci desenhou o pênis com um duto para os espermas diretamente conectado com a medula espinhal. O microscopista Antonie van Leeuwenhoek, do século 17, afirmou que cada célula de esperma continha em si um ser humano aninhado esperando pacientemente para se abrir.

Há muito tempo, os cientistas se preocupam com o declínio aparentemente inevitável do esperma. Recentemente, uma série de manchetes alarmantes – e um novo livro de autoria de um pesquisador em saúde pública do Mount Sinai Medical Center em Nova York – alertou que a queda da contagem dos espermas pode ameaçar o futuro da raça humana. “Trata-se de uma crise existencial global”, disse Shanna H. Swan, autora do livro Count Down.

A maior parte destas notícias pode ser relacionada a uma influente meta-análise de 2017 de Swan e colegas, que constatou que, desde 1973, a contagem de espermas na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia despencou cerca de 60%. Os autores analisaram 7.500 estudos sobre contagem de espermas em todo o mundo, eliminaram a maioria deles e então estudaram 185 realizados em 43 mil homens no mundo todo.

Eles definiram o declínio como “um aviso prévio de um perigo em potencial” por causa do enfraquecimento da saúde reprodutiva masculina em termos globais. Hoje, os autores teriam de revisar esta conclusão. “Agora, o alarme é claro e presente”, disse Hagai Levine,  pesquisador desta área na Escola de Saúde Pública Hadassah na Universidade Hebraica e co-autor da revisão de 2017. “Há um perigo agora”, concordou Swan.

Entretanto, segundo um grupo de pesquisadores interdisciplinares de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology os temores da ameaça de um super fim de mundo espermático foram extremamente exagerados. Em um estudo publicado em maio na revista Human Fertility, eles reavaliaram a revisão de 2017 e constataram que se baseava em pressupostos equivocados e não levava em conta explicações alternativas para o aparente declínio do esperma.

Sarah Richardson, uma estudiosa do gênero e da ciência em Harvard, e autora principal do novo estudo, definiu a conclusão da revisão de 2017 “uma espantosa e aterradora declaração que, se fosse verdadeira, justificaria o tom apocalíptico da obra. Felizmente, ela e os seus coautores afirmam, que as evidências de que isso venha a acontecer são escassas.

Os autores de 2017 foram “rigorosos em termos metodológicos” no que se refere à avaliação dos estudos de contagem de esperma para qualidade e coerência, escrevem Richardson e colegas. Entretanto, mesmo os dados aprovados eram geograficamente esparsos e desiguais e muitas vezes careciam de critérios básicos como a idade dos homens. Além disso, seus autores partiram do pressuposto de que um simples parâmetro – a contagem de espermas – era um elemento que permitia prever com precisão a fertilidade e a saúde masculina em geral.

Ninguém sabe o que é uma contagem ótima de espermas. A Organização Mundial da Saúde define como uma contagens de espermas “normal” algo entre 15 a 250 milhões de espermas por mililitro. (Os homens produzem cerca de 2 a 5 mililitros de sêmen por ejaculação.) Mas não se sabe ao certo até que ponto mais significa melhor. Acima de determinado limiar – 40 milhões por mililitro, segundo a OMS, uma contagem mais elevada não significa que um homem seja mais fértil.

“Dobrar a contagem do esperma de 25 para 50 milhões não duplica as chances”, afirmou Allan Pacey, andrologista da Universidade de Sheffield e editor da revista Human Fertility. Duplicá-la de 100 para 200 milhões não dobra as suas chances - na realidade, ela vai estagnando, quando muito”.

A contagem de esperma tem outras limitações como medida. Leva cerca de dois meses para as células-tronco nos testículos se desenvolverem em um novo esperma, o que significa que uma contagem única não passa de uma imagem de uma paisagem em evolução.

“Algo que está acontecendo no corpo de um homem em determinado mês pode ser totalmente diferente do que acontecerá no próximo, e os efeitos da contagem do esperma também poderão mudar”, segundo Meredith Reiches, que participou do estudo de 2021, e antropóloga biológica da Universidade de Massachusetts, em Boston.

Este também deixa de considerar uma peça vital do quebra-cabeças da infertilidade: as mulheres. Focalizar apenas o parâmetro masculino deixa de lado interações fundamentais entre o esperma, o trato reprodutivo feminino e o óvulo. “Na realidade, é muito importante analisar o casal", afirmou Bradey D. Anawalt, endocrinologista da reprodução da Escola de Medicina da Universidade de Washington,.

No seu livro, Swan sugere que as contagens de espermas despencaram em grande parte por causa do aumento dos disruptores   endócrinos, uma classe de substâncias químicas que imitam os hormônios, encontradas em tudo, do shampoo à refeição congelada. (Ela cita também fatores do estilo de vida, como obesidade, álcool e tabagismo.)

Richardson e suas colegas coautoras sugeriram uma alternativa. Talvez com o tempo, os níveis de esperma subam e caiam, nas populações. A questão não foi explorada pelos pesquisadores da reprodução e não pode ser respondida facilmente, porque as contagens de esperma anteriores a 1970 são em grande parte desconhecidas.

A infertilidade masculina contribui para pelo menos 50% de todos os casos de infertilidade no mundo inteiro. Entretanto, historicamente falando, as mulheres arcaram com a maior parte da culpa pela incapacidade de conceber. E com o aumento das tecnologias da reprodução, como a fertilização in vitro, os corpos das mulheres são os únicos meticulosamente mensurados e rastreados pela medicina reprodutiva.

Consequentemente, a ciência ainda carece do conhecimento básico quando se trata do esperma, disse Rene Ameling, sociólogo da medicina e autor do livro GUYnecology: The Missing Science of Men’s Reproductive Health.

“Criamos uma infraestrutura médica preocupada com o problema da fertilidade e da reprodutividade dos corpos femininos e não fizemos perguntas básicas a respeito da saúde reprodutiva dos homens”, disse Almeling. “Há uma quantidade de pesquisas básicas ainda a ser feitas no caso do esperma”.

As principais qualidades do esperma estudadas pelos especialistas hoje em dia – quantos, de que formato e como eles nadam – não mudaram nos últimos 40 anos, disse Abraham Morgentaler, urologista e fundador da Men’s Health de Boston.

Morgentaler, que trabalhou em um laboratório de análise do sêmen do Centro Médico do Beth Israel Deaconess nos anos 1980, atribui esta estagnação ao desenvolvimento da IVF (fertilização in vitro) e de outras tecnologias que se tornaram tratamentos de ponta para quase todos os fatores do problema de fertilidade masculina. “Quase não importa o que há de errado com o esperma”, ele disse.

Estes hiatos do conhecimento são comuns a todos os corpos. Swan afirmou que parte da motivação para escrever o livro foi o seu desejo de ver homens e mulheres se tornarem mais ativos a respeito de sua saúde reprodutiva.

“É algo invisível”, ela disse. “As pessoas não falam sobre. Elas dizem: ‘Tenho uma taxa de colesterol alta’, ou ‘Minha pressão arterial é elevada’. Mas nunca ninguém fala: ‘Minha contagem de espermas é baixa’, ou ‘A contagem dos meus espermas diminuiu’”.

Richardson concordou que o efeito das toxinas reprodutivas sobre a fertilidade merece uma investigação mais profunda. “Dizer que achamos que as conclusões são alarmistas e apocalípticas, e que não estão bem fundamentadas, não significa que nós achemos que não constituem um programa de pesquisa importante”, disse. “Há necessidade de nos concentrarmos na saúde reprodutiva dos homens e de compreender os seus corpos como reprodutivos e tão porosos ao meio ambiente quanto o corpo de qualquer pessoa”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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