David Mark por Pixabay
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A corrida ajudou a moldar o corpo que o ser humano tem hoje, indica estudo

Podemos agradecer nossas cabeças e ombros — e não somente nossos joelhos e dedos dos pés — por termos evoluído até conseguirmos correr tão bem

Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style

21 de março de 2021 | 05h00

Podemos dar graças à evolução primitiva da humanidade pela capacidade que muitos de nós temos de desfrutar das corridas. Observe qualquer pessoa com rabo de cavalo correndo e você verá o cabelo dela delineando repetidamente um número oito no ar, em resposta às forças geradas pela corrida. Mas as cabeças permanecem estáveis, assim como os olhos e a altura do olhar.

Não fosse por alguns avanços evolucionários únicos, nossas cabeças fariam o mesmo que o rabo de cavalo, oscilando como um espaguete de espuma na piscina quando corremos, de acordo com um engenhoso estudo a respeito de como — e por que — a parte superior dos nossos corpos consegue trabalhar da maneira como trabalha quando corremos, mas não quando caminhamos.

O estudo, que envolveu esteiras ergométricas, captura de movimentos, pesos e uma história de fundo que remonta à eternidade, descobriu que uma incomum coordenação entre certos músculos dos ombros e braços dos corredores os ajuda a manter a cabeça estável e o corpo ereto.

As novas descobertas podem dar respostas a questões persistentes a respeito do papel da parte superior dos nossos corpos na corrida e por que nós, inconscientemente, dobramos e mexemos os braços a cada passada. Elas também fornecem mais evidência de que, muito tempo atrás, corridas de longa distância começaram a moldar os corpos e vidas dos humanos de maneiras que reverberam até hoje.

A possibilidade de que nós, humanos, nascemos para correr inspirou muitos estudos, livros, palestras e debates nos anos recentes, incluindo o best-seller Nascido para correr, de 2009, do jornalista Christopher McDougall. A ideia tem base em análises de fósseis que indicam que os primeiros humanos evoluíram para possuir ossos distintivos nas pernas e outras características que teriam auxiliado nas corridas de longa distância. As descobertas sugerem que nossos ancestrais que conseguiam correr bem dominavam a obtenção de comida e a preferência para procriação, de modo que a seleção natural começou a favorecer a prevalência das características físicas dos corredores.

Grande parte dessa pesquisa veio da mente e do laboratório de Daniel Lieberman, professor de evolução da anatomia humana na Universidade Harvard e autor do livro recém-lançado Exercised, que investiga relações entre exercícios e evolução. Em um primeiro momento, a maior parte do trabalho dele e de outros cientistas a respeito da evolução e das corridas se concentrou na parte inferior dos corpos, já que as pernas exercem um óbvio e fundamental papel na maneira como nos locomovemos.

Mas Lieberman também estava interessado nas partes superiores dos corpos dos corredores e, especialmente, em suas cabeças. Como corredor veterano de maratonas, ele sabia que a estabilidade da cabeça é crucial para as boas corridas, mas não é necessariamente algo simples de conseguir. A corrida é propulsora. Tomamos impulso, saltamos e depois batemos o pé com força no solo a cada passada, submetendo a cabeça a forças que poderiam fazê-la oscilar descontroladamente, como aquele saltitante rabo de cavalo.

A maneira como conseguimos manter nossas cabeças estáveis, porém, nunca ficou totalmente clara. Como a maioria das espécies de animais cursoriais, ou adaptados à corrida, incluindo cães e cavalos, nós possuímos um ligamento da nuca bem desenvolvido, um tecido que conecta o crânio ao pescoço. Isso não ocorre em espécies não adaptadas à corrida, como primatas ou suínos.    

Quando ainda era um jovem cientista, recordou-se Lieberman, ele colocava porcos — que são corredores deselegantes — em esteiras ergométricas para estudar a biomecânica dos animais. As cabeças deles mexiam como as de bonecos quando eles eram forçados a correr, levando Lieberman e seus colegas a concluir que os porcos não possuíam o ligamento da nuca, hipótese corroborada por estudos de anatomia.   

Mas, para os humanos, ficar de pé também representa um desafio. Presumivelmente para manter o equilíbrio enquanto corremos, começamos em algum momento a balançar os braços. A hipótese de Lieberman é que o movimento dos braços ajuda a estabilizar nossas cabeças. Mas, para tanto, teria de haver uma coordenação entre os músculos de nossos antebraços e ombros, pensou ele, mesmo que esses músculos não estejam conectados fisicamente. Os músculos precisariam ser acionados no mesmo momento e com força similar durante a corrida para conseguir estabilizar a cabeça.

Mas ele não sabia como testar essa teoria, até que seu colega Andrew Yegian, pesquisador do Departamento de Biologia Evolutiva Humana de Harvard, sugeriu pesar os braços e a cabeça dos corredores. Ao acrescentar um pouco de massa ali, afirmou ele, e observar como os músculos respondem, poderemos dizer se braços e ombros estão trabalhando juntos para estabilizar a cabeça ou não.

Então, para o novo estudo, publicado pela revista científica American Journal of Physical Anthropology, Lieberman, Yegian e seus colegas instalaram sensores na parte superior do corpo de 13 homens e mulheres para registrar atividade muscular e pediram, primeiramente, que eles caminhassem e depois corressem em uma esteira, enquanto os cientistas os filmavam com tecnologia de captação de movimentos.

Então, os cientistas entregaram aos voluntários pequenos halteres para segurar e pediram que eles corressem novamente. Por fim, eles fixaram máscaras com pesos nos rostos dos voluntários e pediram que corressem mais uma vez, antes de comparar a maneira como os músculos de todos responderam a cada intervenção.

O resultado foi que nada demais aconteceu quando os voluntários caminharam; os músculos de seus antebraços e ombros não mostraram evidências de atividades coordenadas. Mas esses mesmos músculos começaram a contrair de maneira sincronizada quando os voluntários começaram a correr; os músculos passaram a contrair  ao mesmo tempo e aproximadamente com a mesma força.

Essa sincronicidade aumentou durante as corridas com os pesos. Quando os voluntários carregaram os halteres e os músculos de seus antebraços contraíram com força extra para compensar, os músculos de seus ombros fizeram o mesmo. De maneira similar, quando os pesos colocados sobre o rosto fizeram os músculos dos ombros contrair com mais força, os músculos de seus braços fizeram o mesmo.

O estudo não explica, porém, como esses músculos consideravelmente distantes se comunicam. As descobertas também não estabelecem em que momento da nossa existência como espécie os músculos começaram a trabalhar juntos dessa maneira. A pesquisa também não comprova se todos nós somos corredores por natureza; muita gente simplesmente não gosta do esporte.

Ainda assim, os resultados nos revelam mais do que sabíamos anteriormente a respeito de nossos corpos, afirma Lieberman, e salientam que a corrida moldou nossa espécie. “Se não fôssemos obrigados a correr” nos primórdios da humanidade, afirma ele, “não possuiríamos esse sistema” de interação muscular hoje. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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