Daniel Flynn/Arquivo - Reuters
Daniel Flynn/Arquivo - Reuters

Mal misterioso que ataca chimpanzés é associado a uma doença humana

Mortes em santuário da Serra Leoa acabam de ser relacionadas a uma bactéria que, ao que tudo indica, causa moléstias semelhantes nos seres humanos

James Gorman, The New York Times - Life/style

23 de abril de 2021 | 05h00

Os chimpanzés estavam morrendo misteriosamente no santuário de Tacugama, na Serra Leoa, há aproximadamente dez anos, quando Tony Goldberg começou a pesquisa para chegar à sua origem.

Há anos, funcionários do santuário, veterinários e biólogos vinham realizando diversas investigações. Não se trata de uma doença contagiosa, ela não infecta o ser humano e não se manifesta em outros santuários, mas mata os chimpanzés em Tacugama segundo um padrão inconfundível e alarmante.

“Acontece sempre na mesma estação e sempre com os mesmos sintomas”, disse Andrea Pizarro, diretor de conservação do santuário. Os animais mostram o que parecem ser sintomas neurológicos, falta de coordenação, dificuldade para andar e convulsões. Também mostram sinais de distúrbios intestinais, como abdome distendido e vômitos. Quando a síndrome se instala, nenhum chimpanzé consegue sobreviver.

Às vezes, chimpanzés de aparência saudável morrem de um dia para o outro, algo que acontece em todos os santuários e supostamente também na natureza. Mas ao longo dos anos, os testes realizados depois da morte mostram o mesmo padrão de problemas intestinais dos chimpanzés.

O santuário, uma grande atração turística e o único lugar que cuida de chimpanzés órfãos na Serra Leoa, abriga, em média, pouco mais de 90 chimpanzés. Trata-se do chimpanzé-ocidental (Pan troglodytes verus), uma subespécie extremamente ameaçada. Cinquenta e seis chimpanzés morreram em Tacugama da misteriosa doença, em um país que recentemente elegeu o chimpanzé como seu animal nacional.

O que torna o mistério ainda mais intrigante é que o padrão da doença ocorre somente em Tacugama. Evidentemente, os animais adoecem e morrem em outros santuários, às vezes de maneira repentina, mas o padrão peculiar desta doença se manifesta somente em um lugar. Várias pesquisas sobre vírus ou plantas tóxicas não apresentaram respostas claras.

Em 2016, Goldberg, um pesquisador da área de saúde pública, veterinário da Universidade de Wisconsin, em Madison, e diretor do Kibale EcoHealth Project, foi procurado pela Pan African Sanctuary Alliance para tentar desvendar o mistério. Ele e seus colegas de Wisconsin juntamente com outros veterinários e biólogos da África e de outros países, empreenderam análises abrangentes do sangue e dos tecidos dos chimpanzés mortos que haviam sido congelados em um hospital vizinho.

“Levei cinco anos”, ele disse. Em janeiro, ele e outros pesquisadores anunciaram um marco histórico em seu trabalho de detetives veterinários. No relatório, publicado na revista Nature Communications eles afirmaram ter identificado uma nova espécie de bactérias claramente relacionadas à síndrome.

Até o momento, a pesquisa não descobriu se a bactéria é a única causa da doença, mas abriu uma nova janela sobre o gênero bacteriano Sarcina, incluindo possivelmente mais espécies não identificadas, que ameaçam a saúde de animais e de seres humanos.

Goldberg enfatizou que não se trata de mais uma pandemia a caminho. A bactéria não é contagiosa e não pode causar amplos danos.

Desde o começo, nada  foi fácil para a realização do estudo, incluindo o fornecimento ao laboratório das matérias-primas destinadas à pesquisa. Segundo Goldberg, o crédito deveria ir para Ismail Hirji, um veterinário canadense que em 2016 era o veterinário clínico do santuário, por ter vencido os obstáculos iniciais. “Ele moveu montanhas para trazer estas amostras de Serra Leoa”, afirmou Goldberg.

Em seguida, os pesquisadores começaram uma ampla análise do sangue e dos tecidos de chimpanzés saudáveis e doentes, à procura de vírus, bactérias e parasitas, utilizando estudos genômicos, exames visuais dos tecidos e outras técnicas.

Leah Owens, candidata ao doutorado e formada em veterinária que trabalha no laboratório de Goldberg, passou a dedicar-se às bactérias depois que as pesquisas iniciais do DNA mostraram apenas um provável culpado: uma bactéria encontrada em 68% das amostras de chimpanzés doentes, mas não em chimpanzés saudáveis.

Leah tentou cultivar as bactérias em uma cultura que enviou a outros laboratórios para que fosse feito o sequenciamento, a partir de amostras de tecidos. Quase impossível de cultivar no laboratório, a bactéria finalmente proliferou em um esfregaço de tecido. Ao microscópio, o tecido revelou formas comuns de bactérias: esferas e cilindros. E então ela decidiu: “Vou ficar com esta que parece uma coisa maluca.

“À primeira vista, ela se assemelha a um trevo de quatro folhas”, mas na realidade é um cubo de quatro esferas.

Isto indicava que ela pertencia ao gênero Sarcina, com apenas duas espécies conhecidas. Uma vive no solo e a outra, a Sarcina ventriculi, foi identificada pela primeira vez em 1844 e causa sintomas intestinais no seres humanos e nos animais, como os apresentados pelos chimpanzés de Tacugama.

Nos seres humanos, a Sarcina ventriculi pode se espalhar depois de uma cirurgia e produzir gás enchendo as paredes do intestino. Quando a infecção alcança este estágio, as pessoas quase sempre morrem.

O termo técnico, disse Goldberg, é emphysematous grastroenteritis, e “é isto que os chimpanzés tinham”.

À medida que Goldberg avançou na investigação, ficou claro que a bactéria contida nas amostras dos chimpanzés, inclusive no tecido cerebral, onde uma bactéria intestinal evidentemente não deveria ser encontrada, não era a mesma das espécies conhecidas há muitos anos em humanos e animais. Era maior, e o seu genoma apresentava consideráveis diferenças.

Os pesquisadores propuseram no seu estudo que a nova espécie fosse chamada Sarcina troglodytae por ter sido encontrada em chimpanzés da espécie Pan troglodytes.

Antes que o nome proposto possa ser aceito como denominação oficial da nova espécie, os pesquisadores precisam cultivar a bactéria com mais sucesso. No atual estágio, eles mostraram somente que as bactérias estão associadas à doença, mas não a sua causa.

E a doença continua aparecendo misteriosamente. A síndrome sempre chega ao pico em março, durante a estação da seca, por exemplo. Manter os chimpanzés em um recinto fechado à tarde aparentemente a preveniria. E algo em sua dieta ou no seu ambiente também pode influir.

Entretanto, os pesquisadores apresentaram potenciais tratamentos. Uma droga que pode ser eficiente é o omeprazol, o ingrediente do Prilosec que reduz o ácido do estômago - ambiente em que a bactéria prospera.

Alguns antibióticos são mais eficientes do que outros. Pizarro, o diretor do santuário, contou que um chimpanzé começou a apresentar a síndrome em janeiro, mas os funcionários lhe deram antibióticos e outros tratamentos. Agora, o animal está bem. Entretanto, a síndrome ainda pode matar, mesmo depois de uma aparente recuperação. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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