L. Sousa via The New York Times
L. Sousa via The New York Times

Enguias elétricas caçam em bandos, chocando a presa e também os cientistas

O comportamento, típico dos lobos e das orcas para agarrar presas velozes, raramente é visto em peixes

Annie Roth, The New York Times – Life/Style

05 de fevereiro de 2021 | 05h00

Em agosto de 2012, Douglas Bastos, na época aluno de pós-graduação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, estava explorando um rio nas profundezas da floresta amazônica quando se deparou com uma lagoa fervilhando de enguias elétricas.

Anteriormente, acreditava-se que as enguias elétricas, que apesar do seu nome são na realidade um tipo de ‘peixes-faca’, fossem criaturas solitárias. E, no entanto, diante de Douglas Bastos havia mais de 100. Em seguida, a situação ficou ainda mais agitada.

Ele observou, espantado, que a massa contorcida de enguias começou reunir grupos de lambaris em bolas muito densas, e a bombardeá-las com ataques elétricos sincronizados que os fazia voar.

“Quando vi os lambaris saltando depois dos ataques, fiquei em choque”, disse Douglas. “A caça grupal é um acontecimento raro entre os peixes de água doce. A minha primeira reação foi correr para o barco e pegar uma câmera”.

Dois anos mais tarde, ele e pesquisadores do Smithsonian National Museum of Natural History voltaram para aquela área para estudar este fenômeno inusitado. As conclusões do seu estudo, publicado em janeiro na revista Ecology and Evolution, revolucionaram a ideia de que os peixes elétricos são exclusivamente predadores solitários, e levantou outras questões a respeito da vida desta criatura pouco conhecida.

Quando os pesquisadores retornaram ao local, ao longo das margens do Rio Iriri, puderam confirmar que os peixes elétricos, que Douglas havia observado em 2012 eram enguias elétricas de Volta, uma espécie recentemente descoberta que pode chegar a mais de 2 metros de comprimento e é capaz de produzir choques elétricos de 860 volts – a maior descarga elétrica produzida por um animal.

Nos últimos 250 anos, os cientistas acreditaram que todos os peixes elétricos pertenciam à mesma espécie, mas em 2019, uma pesquisa realizada por C. David de Santana, um pesquisador do Smithsonian, provou que existem pelo menos três espécies, e a maior e mais eletrificada é a da enguia elétrica de Volta.

Segundo Santana, coautor do novo estudo, um comportamento como este jamais havia sido documentado nas enguias elétricas. “Foi algo bastante inesperado”, afirmou.

Em geral, os peixes elétricos caçam sozinhos, precipitando-se sobre os peixes que estão dormindo, e dominando-os. Mas a caça em grupos permite que os predadores cacem a presa que, de outro modo, desapareceria rapidamente, como os pequenos lambaris. Embora muitos mamíferos, inclusive lobos e orcas, sejam conhecidos por caçar em grupos, a estratégia raramente é utilizada pelos peixes. Somente nove espécies, incluindo o salmonete dourado, são conhecidos por caçar desta maneira.

Gabriel Bastos e Douglas Santana analisaram mais de 70 horas de material de vídeo de peixes elétricos de Volta caçando em grupos extremamente coordenados. Ao amanhecer e ao entardecer, as criaturas viscosas, semelhantes a cobras, se congregam em águas rasas e começam a nadar juntas em grandes círculos. Depois de reunir milhares de peixes pequenos em bolas densas, as enguias se dividem em grupos de caça cooperativos compostos de dois a dez membros.

Estes grupos então  cercam  as bolas de lambaris aterrorizados e lançam ataques elétricos conjuntos, fazendo com que os lambaris saltem fora da água. Quando os peixes eletrocutados caíram no chão, as enguias os devoraram rapidamente.

Os pesquisadores não tinham a possibilidade de medir a voltagem dos ataques elétricos coordenados, mas calculam que dez peixes elétricos de Volta juntos poderiam criar uma corrente elétrica forte o suficiente para acender 100 lâmpadas.

Os pesquisadores suspeitam de que estes peixes elétricos orquestram seus ataques comunicando-se via descargas elétricas de baixa voltagem.

Embora não se saiba ao certo se outras espécies de peixes elétricos  caçam em grupos, os especialistas afirmam que não é improvável. “É possível que todas as espécies de peixes elétricos cacem de forma cooperativa”, disse Kory Evans, ecologista especializado em peixes da Rice University.

Santana e seus colegas pretendem  voltar ao Rio Iriri para coletar amostras de tecidos de peixes elétricos, e para equipá-los  com um identificador de frequência de rádio para determinar se as relações familiares influem na cooperação dos peixes, como influi em outros animais que caçam em bandos. Ele também pretende coletar alguns dos peixes do rio para que a equipe aprenda mais a respeito de como estas criaturas se comunicam. “Há muito o que aprender”, concluiu. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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