Estudo oferece evidências de 'células do tempo' no cérebro

Estudo oferece evidências de 'células do tempo' no cérebro

Pesquisa analisou o disparo de células na área temporal medial, uma região profunda do cérebro que é essencial para a formação e recuperação da memória

Benedict Carey, The New York Times - Life/Style

20 de dezembro de 2020 | 05h00

O dicionário Merriam-Webster define um túnel do tempo como uma "descontinuidade, suspensão ou anomalia" na passagem normal do tempo. Neste ano, todos os três termos podem ser aplicados. Parece que março aconteceu há 10 anos, todos os dias podem ser quarta-feira e, ainda assim, chegam os feriados - rápido, como todos os anos.

Algum poeta ou romancista talvez ainda apareça para ajudar a explicar os paradoxos do tempo durante a pandemia, tanto para o efeito "Feitiço do Tempo" como para os borrões de estresse e medo para aqueles na linha de frente ou para os que tinham pessoas infectadas em casa.

Mas a neurociência também tem algo a dizer a respeito da relação entre o tempo percebido e a variação do meridiano de Greenwich, e por que os dois podem sair de sincronia. Em um novo estudo, um grupo de pesquisa de Dallas relatou a primeira evidência forte até agora das chamadas “células do tempo” no cérebro humano.

A descoberta, publicada pela revista PNAS, não foi inesperada: nos últimos anos, vários grupos de pesquisa isolaram neurônios em roedores que rastreiam intervalos de tempo. É onde os cientistas procuram essas células e como as identificaram que fornecem alguns insights a respeito das experiências subjetivas do tempo.

“A primeira coisa a dizer é que, rigorosamente falando, não existem 'células do tempo' no cérebro”, disse Gyorgy Buzsaki, neurocientista da Universidade Nova York que não estava envolvido na nova pesquisa. “Não há relógio neural. O que acontece no cérebro é a mudança dos neurônios em resposta a outros neurônios. Dito isso, é um conceito útil falar sobre como esse substrato neural representa a passagem do que chamamos de tempo". 

No novo estudo, uma equipe liderada por Bradley Lega, neurocirurgião do UT Southwestern Medical Center, analisou o disparo de células na área temporal medial, uma região profunda do cérebro que é essencial para a formação e recuperação da memória. É um lugar natural para olhar: as memórias devem ser de alguma forma "marcadas pelo tempo" para manter alguma aparência de sequência ou ordem cronológica.

A equipe fez gravações de 27 pessoas com epilepsia que estavam sendo monitoradas para cirurgia. O monitoramento exigiu a permanência delas durante algumas semanas no hospital, com eletrodos implantados no crânio e no cérebro, para obter uma leitura em relação à origem das crises. E os lobos temporais mediais, localizados a cerca de 2,5 cm das orelhas, quase sempre são monitorados, pois são uma fonte comum dessas convulsões.

Esses pacientes jogaram jogos de computador que testam o pensamento e a memória, enquanto os pesquisadores observavam o que acontecia com os padrões de disparo das células. Neste experimento, os indivíduos tentavam memorizar listas de palavras, apresentadas uma de cada vez, com um intervalo de um segundo ou mais. Então, eles tinham 30 segundos para lembrar livremente o máximo que conseguissem.

Os pesquisadores descobriram que certos neurônios dispararam durante uma janela específica do período de lembrança livre - de dois a cinco segundos, dependendo da pessoa. Esse disparo estava relacionado apenas ao tempo, não a qualquer outra coisa, como os tipos de palavras que estavam sendo memorizadas e lembradas. E quando essas células em particular dispararam mais precisamente no ponto temporal mais efetivo de uma pessoa, ele ou ela se saiu bem ao se recordar e lembrou das palavras perto da ordem em que foram originalmente apresentadas.

“Essas células estão codificando informações relacionadas ao tempo e essas informações são claramente importantes para a memória”, disse Lega. Na verdade, disse Lega, as células que representam o tempo dispararam para dar suporte a uma atividade, neste caso para rastrear a passagem do intervalo de 30 segundos. Não há ritmo constante ou compasso de fundo; o sinal de tempo é conjurado conforme necessário.

“Não há metrônomo interno ou relógio”, disse ele. As células do tempo estão “disparando para apoiar o que você está fazendo.” Ou seja, as células do tempo se ajustam às demandas feitas ao cérebro, em tempo real, momento a momento. Outro grupo de neurônios próximos, chamado de células em rampa, acelera seu disparo quando uma tarefa começa e desacelera ou diminui à medida que o trabalho termina, marcando trechos de tempo.

“Como essas células são sensíveis às mudanças contextuais durante a experiência, elas podem representar a natureza de evolução lenta das informações contextuais”, escrevem os autores. A atividade coordenada das células do tempo e das células em rampa, por si só, é básica demais para contemplar a estranheza do tempo durante a pandemia. Este mecanismo conta o tempo em segundos e minutos, não em dias e semanas.

Nossa percepção desses intervalos mais longos parece ser moldada muito mais pela quantidade e conteúdo das memórias que os preenchem, e pelas emoções que ajudam a gravá-los. Desde março, as pessoas tiveram que absorver uma enorme quantidade de notícias e informações sobre o vírus, os sintomas e várias intervenções, além das demandas do trabalho e das crianças. Mas com ordens para ficar em casa, o contexto foi esmagado.

Cada dia parecia muito com o anterior e o seguinte e o seguinte. Como se estivéssemos perdidos no mar, flutuamos no lugar enquanto a terra girava sob os pés. O tempo durante a pandemia, do tipo subjetivo, provavelmente parecerá distorcido por um tempo - até que possamos chegar à costa, seja lá como isso aconteça. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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