ESO/L. Calçada
ESO/L. Calçada

Europa assume a liderança na corrida dos telescópios gigantes

Astrônomos de projetos americanos precisam de US$ 1 bilhão para seguir com o que foi planejado

Dennis Overbye, The New York Times

07 de janeiro de 2020 | 06h00

Os Estados Unidos estão prestes a perder o universo. Até pouco tempo atrás, os telescópios mais potentes da Terra estavam localizados no alto das montanhas nos EUA, como o monte Palomar, Kitt Peak e Mauna Kea.

Mas não é mais assim. Em 2025, a European Southern Observatory (ESO, Observatório Europeu do Sul), uma organização multinacional, vai colocar em operação um telescópio que superará todos os outros com as suas dimensões. O Telescópio Europeu Extremamente Grande, em Cerro Paranal, no Chile, terá um espelho captador de luz primária de 39 metros de diâmetro, o que o tornará 13 vezes mais potente do que qualquer outro atualmente operacional.

São dois os projetos liderados pelos americanos que competirão com o gigante europeu, se é que chegarão a ser construídos: o Telescópio de Trinta Metros, em Mauna Kea, no Havaí, e o Gigante Magalhães, no Cerro Las Campanas, no Chile. Mas ambos esbarram em dificuldades financeiras e em controvérsias políticas, e a sua conclusão, se acontecer, levará ainda dez anos.

As obras do Telescópio de Trinta Metros estão paradas há anos por causa de um movimento que afirma que dezenas de anos na construção de telescópios no Mauna Kea poluíram e profanaram uma montanha sagrada para a cultura polinésia, e violaram os direitos de nativos havaianos. A equipe que está por trás do projeto prometeu transferi-lo para as Ilhas Canárias, se não for adiante no Havaí.

Ambos os projetos ainda aguardam financiamentos por centenas de milhões de dólares necessários para a conclusão das obras. No início deste ano, representantes dos dois projetos comparecerão perante um painel de alto nível da Academia Nacional de Ciências para pleitear ajuda.

O painel faz parte da Pesquisa Decadal, em que a comunidade de astronomia apresenta a lista de suas prioridades para gastos com verbas federais. O Congresso e agências como a Fundação Nacional Científica costumam levar em conta as recomendações da pesquisa. Uma classificação elevada faria com que a fundação, que tradicionalmente financia observatórios terrestres, destinasse mais dinheiro ao projeto.

Os telescópios precisarão, pelo menos, de mais US$ 1 bilhão entre ambos para chegarem ao fim. Até o momento, a equipe do Telescópio Gigante Magalhães levantou cerca de US$ 600 milhões com os seus parceiros, e solicita uma quantia equivalente à Fundação Nacional Científica.

Astrônomos americanos dispõem de instrumentos no espaço, como o Telescópio Espacial Hubble, e em breve o seu sucessor, o Telescópio Espacial James Webb. Mas o Hubble está ficando velho, e o telescópio Webb passará vários meses preparando-se para funcionar plenamente no espaço quando alcançar a órbita em 2021.

Os astrônomos também terão o Grande Telescópio Sinótico de Pesquisa, que se encontra em construção no Chile. Mas esse tem apenas 8 metros e não poderá ter uma visão tão profunda do espaço. Evidentemente, os astrônomos americanos poderão sempre assinar projetos como parceiros dos seus colegas europeus. A necessidade de telescópios gigantes baseados em terra ficou clara para os astrônomos americanos 20 anos atrás. O projeto de Trinta Metros nasceu no Instituto de Tecnologia da Califórnia e na Universidade da Califórnia, e passou a incluir o Canadá, Japão, China e Índia. O Gigante Magalhães começou nos observatórios Carnegie e atualmente inclui várias universidades e institutos de pesquisa, assim como a Coreia do Sul, a Austrália e o estado de São Paulo, no Brasil.

Os dois telescópios, um no norte e outro no sul, se complementariam. Até o momento, nenhum telescópio conseguiu a parceria do governo dos Estados Unidos. Em 2018, os dois grupos concordaram em apresentar causa conjunta ao painel da Academia e à comunidade astronômica.

Como disse na época Matt Mountain, presidente da Associação de Universidades para Pesquisas em Astronomia: “Ambos os projetos finalmente acordaram para o fato de que estão sendo passados para trás  pelo telescópio europeu de 39 metros”.

Mas a equipe do telescópio de Trinta Metros ainda não fez as pazes com os manifestantes no Havaí, para os quais o telescópio representa uma longa história de desrespeito colonial.

Recentemente, a equipe garantiu a construção de um edifício para o local alternativo do seu telescópio, em La Palma, nas Ilhas Canárias, da Espanha. Mas a montanha ali tem apenas a metade da altura do Mauna Kea, o que deixa uma camada maior da atmosfera e de vapor de água entre os astrônomos e as estrelas.

Uma organização ambientalista, a Ben Magec, prometeu que combaterá a construção do telescópio, afirmando que a área esta repleta de artefatos arqueológicos. Além disso, transferir o telescópio do solo americano só complicaria a obtenção de recursos da Fundação Nacional Científica.

Em 2003, quando começaram os esforços para a construção do telescópio gigante, o astrônomo Richard Ellis afirmou: “Nós vamos encontrar inúmeras dificuldades para construir um só destes”. Ele não sabia o quanto estava certo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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