Samuel S. Urlacher, Ph.D. via The New York Times
Samuel S. Urlacher, Ph.D. via The New York Times

Exercício versus Dieta. O que crianças da Amazônia nos ensinam sobre ganho de peso

O que comemos é mais importante do que o quanto nos movimentamos no combate à obesidade

Gretchen Reynolds, The New York Times – Life-Style

01 de maio de 2021 | 23h30

Quando as crianças ganham excesso de peso, o culpado é muito provavelmente o fato de estarem comendo muito mais do que de se movimentarem muito pouco, segundo um novo e fascinante estudo sobre crianças no Equador. A pesquisa comparou estilos de vida, dietas e constituições corporais de crianças na Amazônia, que vivem em comunidades rurais e se alimentam com as outras crianças indígenas que vivem em aldeias vizinhas, e os resultados têm implicações para as taxas de aumento da obesidade tanto nas crianças quanto nos adultos no mundo inteiro.

O estudo em profundidade conclui que as crianças rurais, que correm, brincam e comem durante horas, são mais magras e mais ativas do que as crianças urbanas. Mas elas não queimam mais calorias no dia a dia, uma descoberta surpreendente que implica que as dietas modernizadas das crianças urbanas influem em seu ganho de peso. As descobertas também levantam questões estimulantes sobre a inter-relação da atividade física e o metabolismo e o motivo pelo qual o exercício ajuda tão pouco na perda de peso, não só nas crianças, mas também nos adultos.

O problema da obesidade em crianças é de premente interesse global, pois a incidência não para de crescer, inclusive em comunidades em que outrora não era comum. Os pesquisadores apontam para o aumento da inatividade da infância e as dietas à  base de junk food como motivos do ganho de peso infantil. Mas qual destas preocupações poderia ser mais importante - a inatividade ou o excesso de comida – permanece pouco claro e importa, como apontam os pesquisadores, porque nós não podemos responder eficientemente a uma crise da saúde a não ser que conheçamos suas causas.

Esta questão chamou a atenção de Sam Urlacher, professor assistente de antropologia na Baylor University de Waco, Texas, que por algum tempo trabalhou e estudou entre o povo Shuar. População indígena da Amazônia equatoriana, os shuar tradicionais vivem principalmente catando, caçando, pescando e do cultivo da terra em uma agricultura de subsistência. Os seus dias exigem muito esforço físico, suas dietas se baseiam principalmente em bananas, bananas da terra e de amidos semelhantes, e seus corpos são magros. Os shuar, principalmente as crianças raramente são acima do peso. E também frequentemente não estão malnutridos.

Mas o dr. Urlacher indagava: seria a sua estrutura magra o resultado principalmente de suas vidas ativas? No curso de pós-graduação, ele havia trabalhado com Herman Pontzer, professor adjunto de antropologia evolutiva na Duke University, cuja pesquisa focaliza como a evolução pode ter influído no nosso metabolismo e vice-versa.

Na pesquisa pioneira do dr. Pontzer com os hadza, uma tribo de coletores-caçadores na Tanzânia, ele constatou que, embora as pessoas se movimentassem frequentemente durante o dia, caçando, cavando, arrastando, carregando e cozinhando, queimavam aproximadamente o mesmo total de calorias de grande parte dos ocidentais sedentários.

O dr. Pontzer concluiu que, durante a evolução, os seres humanos devem ter desenvolvido uma capacidade inata, inconsciente  de realocar o uso da energia do seu corpo. Se nós queimamos muitas calorias, por exemplo com a atividade física, queimamos menos com algum outro sistema biológico, como a reprodução ou a resposta imunológica. O resultado é que em média o gasto de energia diário permanece dentro de uma estreita faixa de calorias totais, que ajuda a evitar a fome entre ao coletores-caçadores ativos, mas que é desanimadora para as pessoas, no mundo moderno, que acham que o aumento do exercício não se equipara muito à perda de peso. (O novo livro muito interessante do dr. Pontzer sobre este tema, Burn, lançado em março).

O trabalho do dr. Pontzer trata fundamentalmente dos adultos hadza, mas o dr.Urlacher pensou se uma alternância metabólica semelhante também existiria nas crianças, inclusive entre os shuar tradicionais. Por isso, para um estudo de 2019, ele mediu precisamente o gasto de energia de alguns jovens shuar e comparou o número total de calorias que eles queimavam com dados existentes sobre as calorias diárias queimadas por crianças relativamente sedentárias (e muito mais pesadas) dos Estados Unidos e Grã-Bretanha. E os totais coincidiram. Embora os jovens shuar fossem muito mais ativos, não queimavam em geral mais calorias.

Entretanto, os jovens shuar diferem da maioria das crianças ocidentais de diversas maneiras, inclusive na sua genética, que, interpretando as descobertas do estudo, era estimulante, conforme o dr. Urlacher já sabia. Mas ele sabia também de um grupo mais comparável de crianças que viviam em uma aldeia distante, entre famílias shuar que haviam se mudado para uma aldeia próxima com um mercado. Suas crianças frequentavam regularmente a escola e comiam alimentos comprados, mas continuavam na tradição shuar.

Então, para o estudo mais recente, que foi publicado em janeiro na revista The Journal of Nutrition, ele e seus colegas obtiveram a permissão das famílias shuar, tanto rurais quanto urbanas, para medir precisamente a constituição do corpo e gasto de energia de 77 crianças entre as idades de 4 a 12 anos, acompanhando também suas atividades, com acelerômetros e reunindo dados sobre o que elas comiam.

As crianças shuar urbanas mostraram ser consideravelmente mais pesadas do que seus colegas da área rural. Cerca de 33% estavam acima do peso, segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde. Mas nenhuma das crianças da área rural estava. As crianças urbanas também eram em geral mais sedentárias. Mas todas as crianças, rurais e urbanas, ativas ou não, queimavam aproximadamente a mesma quantidade de calorias diárias.

O que diferia mais eram as suas dietas. As crianças da aldeia com mercado comiam muito mais carne e laticínios do que as rurais, embora com novos amidos, como arroz branco, e alimentos altamente processados, como doces. Em geral, elas comiam mais e de maneira mais moderna do que as crianças rurais, e era esta dieta, concluíram o dr. Urlacher e seus colegas, que contribuía mais para o seu aumento de peso.

Estas constatações não deveriam nos levar a uma visão romântica do estilo de vida dos coletores-caçadores, alerta o dr, Urlacher. As crianças shuar tradicionais sofrem frequentemente de infecções provocadas por parasitas ou de outro tipo, e apresentam um crescimento raquítico, em grande parte porque os seus corpos parecem desviar as calorias disponíveis para outras funções vitais em lugar de reservá-las para o crescimento, acredita o dr. Urlacher.

Mas os resultados indicam que a quantidade que as crianças comem influencia mais o seu peso corporal do que quanto elas se movimentam, afirmou, uma visão que deverá começar a orientar os esforços para tratar da obesidade infantil.

“O exercício é ainda muito importante para as crianças, por uma série de razões”, afirmou o dr. Urlacher. “Mas manter uma atividade física intensa pode não ser suficiente para tratar a obesidade infantil”. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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