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Ciência forense ajuda a ampliar missão da arquitetura

Noções de arquitetura tem sido usados como ferramentas de investigação

Michael Kimmelman, The New York Times

19 Abril 2018 | 10h15

LONDRES - No ano passado, a polícia israelense realizou uma operação em um vilarejo beduíno chamado Umm al-Hiran, no Deserto do Negev. As autoridades israelenses afirmaram que, durante a operação, um habitante do vilarejo atropelou um agente israelense e o matou. E qualificaram o incidente como um ataque terrorista. O habitante do vilarejo morreu no local. Imagens captadas de um helicóptero pareciam mostrar o carro dele avançando contra o agente.

O grupo de pesquisa Arquitetura Forense, porém, revelou uma história diferente. Você pode se lembrar de uma atuação do Arquitetura Forense de alguns anos atrás. A entidade investigou as mortes de dois adolescentes palestinos na Cisjordânia. Num primeiro momento, o ministro de Defesa de Israel tinha afirmado que os adolescentes haviam arremessado coquetéis Molotov contra soldados israelenses, apesar de câmeras de segurança mostrarem que isso não era verdade. O ministro disse que a gravação tinha sido manipulada.

O Arquitetura Forense analisou os vídeos e posts em redes sociais. Utilizando um programa que processa dados arquitetônicos, o grupo formulou um modelo computadorizado do local do incidente e rastreou a trajetória dos projéteis. Este procedimento forneceu a localização exata do soldado que efetuou os disparos e da arma que ele utilizou na ação. Comparando os registros acústicos, o Arquitetura Forense analisou os tiros fatais em relação aos distintos ruídos de disparos, o que contradisse a alegação dos militares de que somente balas de borracha tinham sido disparadas. Tudo isso contribuiu para que as autoridades israelenses voltassem atrás em suas considerações e acusassem o soldado de homicídio culposo (sem intenção de matar).

Uma pesquisa a respeito do trabalho do Arquitetura Forense está atualmente em exposição no Instituto de Arte Contemporânea de Londres, até 6 de maio. Trabalho colaborativo realizado entre designers, cineastas, programadores, arqueólogos, psicólogos e profissionais de outras áreas, com base no Instituto Goldsmiths, na Universidade de Londres, o Arquitetura Forense atua como uma agência de investigação, em parceria com ONGs como Anistia Internacional e Human Rights Watch.

Em vez de projetar casas ou arranha-céus, o Arquitetura Forense procura por evidências de mentiras, crimes e violações de direitos humanos - combinando habilidades ligadas a espaço e engenharia à destreza de bibliotecários, para coleta de dados, a obstinação de jornalistas investigativos ao requinte de roteiristas de cinema para contar as histórias. Os relatórios do grupo já importunaram o partido alemão União Democrata-Cristã, causaram frustração ao presidente da Síria, Bashar Assad, provocaram um ataque de Vladimir Putin ao serviço de notícias do canal Russia Today e enfureceram autoridades de Israel.

Smartphones e redes sociais inundam o mundo atualmente com fotos que transformam o debate público a respeito do poder, policiamento, violência e racismo. Para Eyal Weizman, o arquiteto israelense-britânico que fundou o Arquitetura Forense, “imagens de destroços” podem ser úteis, mas precisam de “construção e composição - por isso, a arquitetura”. O resultante “complexo arquitetural de imagens”, afirmou ele, permite que as pessoas “vejam a cena de um crime como um palco de relações entre imagens inseridas no espaço-tempo”.

Desde seu início, em 2011, o trabalho do Arquitetura Forense se expandiu além de Israel e os territórios palestinos, para México, Guatemala, Afeganistão e Europa.

No caso de Umm al-Hiran, o grupo utilizou fotogrametria e coletou todas as fotos e vídeos do incidente, localizando as imagens no tempo, sincronizando o material e produzindo sons correspondentes. A trilha sonora, quando executada juntamente com os vídeos das imagens térmicas, revelou três disparos onde clarões de calor saíram da arma de um policial que tinha sido desconsiderado da investigação pela filmagem sem som feita de um helicóptero. A arma foi disparada na direção do carro do suposto terrorista - um agricultor chamado Yaqub Musa Abu Al-Qi’an - pouco antes de o veículo acelerar ladeira abaixo.

O jornal israelense Haaretz publicou, então, um relatório de autópsia vazado revelando que Al-Qi’an tinha sofrido dois ferimentos à bala, um deles, em seu joelho direito, na perna que controla o pedal do acelerador. Este ferimento levantou uma hipótese alternativa para explicar por que Al-Qi’an, que trafegava vagarosamente, com os faróis acesos, acelerou de repente.

Isso sem contar a segunda bala, que testemunhas afirmaram ter visto um agente israelense disparar a uma distância adequada para uma execução, depois que o carro de Al-Qi’an tinha parado. Com a ajuda de voluntários, o Arquitetura Forense realizou uma reconstituição do incidente de Umm al-Hiran utilizando um carro do mesmo modelo, confirmando que a hipótese de que Al-Qi’ran, ferido, perdeu o controle do veículo e acelerou ladeira abaixo estava de acordo com a evidência registrada em vídeo. A reconstituição também constatou que as portas do Land Cruiser trancam automaticamente quando o carro atinge 20 km/h, velocidade que o veículo de Al-Qi’an atingiu antes de parar após descer a ladeira.

Nas imagens do helicóptero, é possível ver a porta do lado do motorista se abrindo, mostrando que Al-Qi’an a abriu conscientemente. O som de um disparo, então, perfura a trilha sonora.

Aquele segundo projétil se alojou abaixo do coração de Al-Qi’an. A investigação do Ministério da Justiça sobre o incidente foi concluída recentemente. O caso aguarda o veredicto final da Procuradoria.

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