Steven Kovacs via The New York Times
Steven Kovacs via The New York Times

Os monstros mais jovens do oceano estão prontos para fotos glamourosas

Mergulhadores que praticam fotografia em águas escuras estão ajudando os cientistas marinhos a obter novos insights sobre as larvas de peixes

Erik Olsen, The New York Times - Life/Style

08 de maio de 2021 | 05h00

Para muitos mergulhadores, alguns lugares no fundo do mar equivalem à emoção de um caleidoscópico recife de coral repleto de peixes coloridos. Para Jeff Milisen, biólogo marinho e fotógrafo de Kona, Havaí, não existe lugar melhor para mergulhar do que num trecho aberto do oceano profundo. À noite.

“Há um grande espaço onde não existe nada. Não tem fundo, nem paredes, apenas o espaço infinito. E o que você percebe é que há muitos monstros marinhos ali, mas são minúsculos”.

Naturalmente, existem grandes monstros também, como os tubarões. Mas as criaturas às quais Milisen se refere são parte de um movimento diário de larvas de peixes e invertebrados que sobem das profundidades para a superfície toda noite numa das maiores migrações de organismos no planeta. O hobby que vem surgindo de tirar fotos deles é conhecido como fotografia em águas escuras.

Muitas das larvas não são maiores do que uma unha; outras são ainda menores. E são facilmente confundidos com pedaços de algas marinhas ou detritos flutuando. Mas com um close-up e capturados com uma câmera usando uma lente especial, as criaturas parecem tão grandes quanto os grandes animais selvagens num safari. Um safari num outro planeta.

Há cinco anos, Milisen começou a compartilhar suas fotos num grupo do Facebook e então descobriu uma comunidade de aventureiros apaixonados que vêm tirando fotos de coisas vivas raramente vistas anteriormente. Perplexo e surpreso com as coisas que estavam fotografando, Milisen e outros da comunidade, chamada Blackwater People Group, começaram a contatar cientistas dedicados ao estudo de peixes pedindo ajuda para identificarem o que estavam vendo.

Mesmo os especialistas mais veteranos reagiram com incredulidade.

“A primeira pergunta que fazem é: ‘o que diabos é isto?''', disse Ned DeLoach, fotógrafo experiente que, com sua mulher, Anna, e o escritor Paul Humann, publicaram oito livros sobre peixes de diferentes espécies. “O fato dessas imagens serem tão espetaculares e tão populares é que elas são do outro mundo. As pessoas nunca imaginaram que criaturas como estas existem e isso tem atraído os fotógrafos”.

David Johnson, curador da área dedicada a peixes no Smithsonian National Museum of Natural History, foi um dos primeiros cientistas a ser contatado pelos membros do grupo do Facebook. Disse que ficou imediatamente apaixonado pelas imagens.

“Você tem comportamento, cores. É na verdade um grande avanço em termos do que podemos aprender sobre a história da vida pregressa dos peixes”, disse ele.

Com esse novo hobby decolando e conquistando adeptos em todo o globo, mais e mais fotógrafos têm feito fotos e vídeos surpreendentes que revelam um mundo secreto de animais minúsculos e bizarros que há décadas os cientistas se esforçam para compreender melhor. Muitas das fotos viralizaram nas mídias sociais e recentemente algumas conquistaram prêmios de fotografia.

E agora, cientistas como Johnson querem formalizar a colaboração com esses fotógrafos.

Num estudo publicado em março na revista Ichthyology & Herpetology, cientistas do Havaí, junto com Johnson e outros do Smithsonian delinearam como esperam recrutar mais fotógrafos submarinos noturnos, muitos deles sem base científica, para participarem da pesquisa. Se os fotógrafos conseguirem coletar espécimes dos minúsculos animais que fotografam, seu DNA pode ser extraído e analisado.

Até agora, os cientistas recrutaram uma dezena de mergulhadores que coletaram mais de 60 espécimes para análise. E mais espécimes estão a caminho.

“Estamos criando uma coleção que pela primeira vez tem uma imagem viva”, disse Johnson. “Obtemos o espécime e criamos um registro de DNA ligado a ele.”

Ele espera que os cientistas com uma queda pela fotografia submarina venham se juntar ao trabalho. Os pesquisadores acham que o exame das imagens dos animais fotografados em seu ambiente natural e a comparação dessas imagens com dados extraídos de técnicas como dissecação e codificação do DNA vai ampliar significativamente o conhecimento de como esses animais mudam com o tempo e porque se comportam daquela maneira. Idealmente, o trabalho também vai esclarecer a misteriosa migração diária de criaturas, chamada migração vertical diária, que ocorre toda noite em todos os oceanos do globo.

Essa migração vertical inclui trilhões de minúsculos animais, muitos ainda no estágio de larvas, que sobem de profundidades de 300 metros ou mais para a superfície para se alimentarem. A viagem é empreendida à noite, acreditam os cientistas, porque isso permite aos animais evitarem peixes predadores maiores que localizam suas presas visualmente. Os peixinhos retornam para o fundo do mar escuro antes do nascer do sol.

Essas muitas criaturas ainda no estágio de larvas transparece no oceano aberto, o que é difícil de estudar. Quase todo o conhecimento existente do que esses animais parecem vem de expedições que os coletaram em grandes cones chamados redes de plâncton arrastadas pelos barcos de pesquisa. A técnica começou há 150 anos, ganhando importância com a expedição Challenger de 1872 a 1876, organizada pelo governo britânico. Desde então, a tecnologia avançou muito, mas a técnica básica não mudou.

Redes de plâncton atraem os animais para um grande anel aberto e os canaliza para um aparelho parecido com um vaso. À medida que a água é empurrada para esse vaso, os animais são facilmente esmagados e normalmente morrem antes de chegarem à superfície.

Observações em água aberta de larvas de peixe não é algo novo, mas na maior parte são realizadas de dia. A técnica chamada mergulho em águas azuis, começou nos anos 1980 quando um grupo de cientistas da Califórnia, esperando vencer os problemas com as redes de plâncton, começaram a sair com seus barcos quando o sol estava brilhando.

William Hamner, ecologista aposentado e biólogo evolucionista na Universidade da Califórnia em Los Angeles, foi pioneiro no mergulho em águas azuis e desenvolveu muitas técnicas para mergulhar e vagar pelo mar aberto, que hoje são usadas pelos mergulhadores em águas escuras.

“O fato de começarmos em águas azuis é porque ninguém se preocupava muito com o plâncton na época para ter o trabalho de observar os animais na natureza, e eu sim”, disse Hamner.

No mergulho em águas azuis ou escuras os mergulhadores normalmente viajam para muito longe da costa, com frequência 16 quilômetros ou mais, onde o leito do mar está alguns milhares de metros abaixo. Eles descem 15 a 30 metros ligados por uma corda que sai do barco ou uma boia na superfície.

No mergulho em águas escuras, faróis submarinos poderosos são ligados por uma corda para iluminar a água, atraindo animais, incluindo tubarões. O passatempo não é para todos.

“É uma experiência sensorial totalmente nova, quando não existe nem topo nem fundo”, disse Anna DeLoach, fotógrafa. “É o mais próximo do que acho que é estar no espaço sideral”.

Para os fotógrafos, capturar uma imagem de algo nunca observado e jamais fotografado antes se tornou quase um vício.

"É fascinante quando envio algo aos cientistas e eles não têm nenhuma ideia do que é”, disse Steven Kovacs, dentista de Palm Beach, Flórida e que contribui para o grupo do Facebook e pratica o mergulho em águas escuras há cinco anos.

Os fotógrafos têm razões para se alegrarem. Alguns cientistas afirmam que as fotos, combinadas com DNA coletados, têm potencial para revolucionar o estudo destes animais.

“Acreditamos que isso abre uma nova janela para entendermos mais esses animais e suscita questões empolgantes para pesquisas futuras”, disse Ai Nonaka, pesquisadora do Smithsonian e principal autora do estudo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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