Lynn Donaldson/The New York Times
Lynn Donaldson/The New York Times

Lobos estão na linha de frente contra uma doença cerebral mortal

Cientistas dizem que esses predadores são essenciais para conter a disseminação da Enfermidade Debilitante Crônica em outros animais; especialistas temem que um dia ela possa chegar aos humanos

Jim Robbins, The New York Times

11 de dezembro de 2020 | 05h00

Será que os lobos do Parque Nacional de Yellowstone podem ser a primeira linha de defesa contra uma doença terrível que ataca rebanhos da vida selvagem?

Esta é a grande pergunta para um projeto de pesquisa em andamento no parque, e os resultados preliminares sugerem que a resposta é sim. Os pesquisadores estão estudando o que é conhecido como efeito de limpeza do predador, que ocorre quando um predador garante a saúde de uma população de presas matando os animais mais doentes. Se a ideia se sustentar, pode significar que os lobos têm um papel fundamental na limitação da disseminação da Enfermidade Debilitante Crônica, que infecta veados e animais semelhantes nos Estados Unidos e ao redor do mundo. Os especialistas temem que um dia ela possa chegar aos humanos.

“Não há ferramenta de gerenciamento que seja eficaz” para controlar a doença, disse Ellen Brandell, doutoranda em ecologia da vida selvagem na Universidade de Penn que está liderando o projeto em colaboração com o Serviço Geológico dos Estados Unidos e o Serviço Nacional de Parques. “Não existe vacina. Os predadores talvez sejam a solução”.

Muitos biólogos e conservacionistas dizem que mais pesquisas fortaleceriam o argumento de que a reintrodução de mais lobos em certas partes dos Estados Unidos pode ajudar a controlar doenças da vida selvagem, embora a ideia certamente deva enfrentar resistência de caçadores, fazendeiros e outras pessoas preocupadas com a competição dos lobos.

A Enfermidade Debilitante Crônica, doença neurológica contagiosa, é tão peculiar que alguns especialistas a chamam de “doença do espaço sideral”. Descoberta entre veados selvagens em 1981, leva à deterioração do tecido cerebral em cervídeos, principalmente veados, mas também alces, cervos e renas, com sintomas como apatia, salivação, desequilíbrio, emaciação e morte.

É causada por uma versão anormal de uma proteína celular chamada príon, que funciona de maneira muito diferente das bactérias ou vírus. A doença se espalhou por populações selvagens de cervídeos e agora se encontra em 26 estados americanos e várias províncias canadenses, bem como na Coreia do Sul e na Escandinávia.

A doença faz parte de um grupo denominado encefalopatias espongiformes transmissíveis, sendo a mais famosa a encefalopatia espongiforme bovina, também conhecida como doença da vaca louca. Em humanos, a doença da vaca louca causa uma variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob, e houve um surto entre pessoas na Grã-Bretanha na década de 1990 por consumo de carne contaminada.

O cozimento não mata os príons, e os especialistas temem que a Enfermidade Debilitante Crônica possa se espalhar para os humanos que caçam e consomem cervos ou outros animais infectados.

A doença infectou muitos rebanhos de veados no Wyoming e se espalhou para Montana em 2017. Ambos os estados são vizinhos a Yellowstone, então os especialistas estão preocupados com a possibilidade de a doença mortal em breve se alastrar pelos vastos rebanhos de alces e veados do parque.

A não ser, quem sabe, que as dez matilhas de lobos do parque, que no total contam cerca de cem indivíduos, ataquem e comam os animais doentes, os quais são presas mais fáceis por causa da doença (a enfermidade parece não infectar os lobos).

“Os lobos de fato vêm sendo apontados como o melhor tipo de animal para remover os veados infectados, porque perseguem suas presas e procuram as mais fracas”, disse Brandell. Por essa lógica, cervos e outros animais doentes teriam maior probabilidade de serem eliminados pelos lobos.

Os resultados preliminares em Yellowstone mostraram que os lobos podem atrasar os surtos de Enfermidade Debilitante Crônica em suas presas e diminuir o tamanho do surto, disse Brandell. Há pouca pesquisa publicada sobre “o efeito de limpeza do predador” e este estudo procura dar mais fundamento para o uso de predadores no controle de doenças.

Uma das principais preocupações quanto à disseminação da Enfermidade Debilitante Crônica na região de Yellowstone é o fato de Wyoming ter 22 áreas de alimentação mantidas pelo estado, as quais concentram artificialmente um grande número de alces na região de Yellowstone. E logo ao sul do Parque Nacional de Grand Teton fica o Refúgio Nacional dos Alces, onde milhares de animais, deslocados por fazendas de gado, são alimentados a cada inverno, para satisfazer os caçadores e turistas. Muitos biólogos da vida selvagem dizem que concentrar os animais em áreas tão pequenas é receita certa para a rápida disseminação da Enfermidade Debilitante Crônica.

Quando os casos da doença entre veados foram de 5% para 50% em Wisconsin e Colorado, esses estados foram classificados como pontos críticos. Mas, se a doença atingir fazendas de caça como as de Wyoming, “as taxas de prevalência vão disparar para 90 ou 100%”, disse Mark Zabel, diretor do Centro de Pesquisa em Príon da Universidade Estadual do Colorado.

Os príons são particularmente mortais. Ao contrário dos vírus e bactérias, os príons podem persistir no solo por mais de dez anos e sobreviver em meio à vegetação. Mesmo que um rebanho morra ou seja sacrificado, novos animais que entrem em contato com os príons podem ser infectados.

A origem da doença é desconhecida. Andrew P. Dobson, professor de ecologia e epidemiologia de Princeton que estudou o efeito de limpeza do predador, acredita que a doença é, em grande parte, resultado de ecossistemas com poucos predadores e necrófagos.

Restaurar a população de predadores em parques nacionais e terras selvagens seria um grande passo para o restabelecimento de ecossistemas mais saudáveis e com menos doenças, disse Dobson.

Ken McDonald, chefe da divisão de vida selvagem do Departamento de Peixes, Vida Selvagem e Parques de Montana, expressou dúvidas quanto à possibilidade de os lobos prevenirem a Enfermidade Debilitante Crônica.

“Os lobos ajudam a remover os animais doentes, mas os animais não ficam visivelmente doentes por cerca de dois anos”, disse ele. “Portanto, são portadores e disseminadores mesmo sem apresentar os sintomas clássicos”.

McDonald disse que manter uma população de lobos grande o suficiente perto de Yellowstone para controlar a Enfermidade Debilitante Crônica exigiria uma quantidade de animais socialmente inaceitável, especialmente para fazendeiros e caçadores.

O método do estado para controlar a doença, disse ele, é aumentar o número de cervos que podem ser mortos em locais onde a doença está crescendo.

Brandell, no entanto, disse que os lobos conseguem detectar a doença muito antes de ela se tornar aparente para os seres humanos, por meio do cheiro ou de uma leve mudança no movimento da presa, o que pode ser benéfico.

“Os lobos não seriam uma cura mágica em lugar nenhum”, disse ela. “Mas, em lugares onde a doença está só começando e você tem uma alcateia de predadores ativa, eles podem mantê-la sob controle, a ponto dela nunca se firmar”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.