Matthew Abbott/The New York Times
Matthew Abbott/The New York Times

Madrugadores podem ter risco menor de depressão do que notívagos

Deitar e acordar cedo talvez confira alguma proteção contra a depressão, sugere um novo estudo

Nicholas Bakalar, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2021 | 05h00

Se você é uma pessoa que acorda cedo, talvez tenha um risco mais reduzido de ter depressão grave, segundo um novo ensaio clínico.

Vários estudos do ciclo circadiano do corpo mostraram que o fato de acordar cedo está associado a um risco menor de depressão. Mas essas pesquisas foram mais a título de observação e não demonstraram a relação de causa e efeito.

Por exemplo, pessoas madrugadoras podem ter outros comportamentos em termos de saúde ou estilo de vida que diminuem o risco de depressão - elas podem ter uma dieta mais saudável, se exercitar mais ou ter menos problemas de saúde, como dor crônica, relacionados com a depressão. Todos esses fatores, e muitos outros, explicam o risco reduzido da depressão e não o fato de uma pessoa acordar cedo. Além disso, a depressão em si provoca distúrbios do sono, de modo que essa depressão pode ser a causa de a pessoa ser notívaga e não o contrário.

Mas o novo estudo oferece evidências mais convincentes de que dormir e acordar cedo confere uma proteção contra a depressão, independente de outros fatores. O estudo, publicado na revista JAMA Psychiatry, usou um método de pesquisa chamado randomização Mendeliana que auxilia a identificar o que provoca essa relação de causa e efeito.

Com a randomização Mendeliana, os pesquisadores compararam grandes grupos de pessoas com base em variantes genéticas que são independentes de outros aspectos de saúde ou comportamento - neste caso, a tendência a ser um notívago ou um madrugador, que são características herdadas que são aleatoriamente atribuídas durante o nosso desenvolvimento no ventre materno. Mais de 340 variantes genéticas associadas ao ritmo de sono circadiano foram identificadas e os pesquisadores compararam grandes grupos de pessoas com essas variantes genéticas que tornam um indivíduo madrugador com grupos que não as têm. A natureza, em essência, preparou o experimento aleatório para eles.

Para o estudo, os cientistas usaram dois bancos de dados genéticos de mais de 800 mil adultos para fazer uma análise de randomização Mendeliana do ritmo circadiano e o risco de depressão. Eles não só ficaram de posse de dados genéticos, mas também dados sobre diagnósticos de forte depressão e informações sobre quando as pessoas se deitavam e se levantam, combinados com informações prestadas pela própria pessoa e registros de laboratórios do sono, todos esses dados usados pelos pesquisadores para localizar o ponto médio do sono, uma medida científica útil das tendências de sono de uma pessoa. No caso de um indivíduo que acorda cedo que tende a se deitar às 22 h e se levantar às seis horas da manhã, por exemplo, o ponto médio do sono é às duas horas da madrugada.

Eles concluíram que no caso de pessoas com variantes genéticas para acordar cedo, para cada hora mais antes do ponto médio de sono havia um risco 23% menor de terem uma forte depressão.

Segundo o Dr. Till Roenneberg, especialista em cronobiologia que não estava envolvido na pesquisa, a limitação desse estudo está no fato de que os cientistas não tiveram dados sobre quando as pessoas eram obrigadas a se levantar para ir ao trabalho ou cumprir outras obrigações. Mesmo com a randomização Mendeliana, disse ele, não conseguiram explicar o fato de que indivíduos notívagos com frequência precisam ir para o trabalho de manhã cedo, o que pode contribuir para uma depressão.

 “Eles tiraram as conclusões certas dos dados que possuíam, mas a vida é mais complicada do que isso”.

Se você é uma pessoa que dorme tarde, a mudança dos seus hábitos aliviará a depressão ou diminuirá o risco de desenvolver uma? Não necessariamente, disse o cientista que liderou o estudo, Dr. Iyas Daghlas, médico residente na Universidade da Califórnia em San Francisco. O estudo, segundo ele, examinou grandes grupos de pessoas e não indivíduos.

“Esses dados nos mostram que determinadas tendências na sociedade" - como o uso de smartphones e outros dispositivos que emitem luz azul à noite nos levam a dormir mais tarde - “podem ter um efeito no nível de depressão na população", disse ele. "Esses resultados não dizem que se dormir mais cedo você está livre de uma depressão. Descobrir que intervenção e em que populações o estudo será eficaz “ficará para os ensaios clínicos.”

Ainda assim, disse o médico, “embora nossos dados não respondam onde está o ponto ideal, eu diria que, se você é uma pessoa noturna que precisa acordar cedo, ir para a cama em torno de uma hora mais cedo seria útil para sua saúde mental”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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