Kathryn Ziesig/The Flint Journal, via Associated Press
Kathryn Ziesig/The Flint Journal, via Associated Press

Esqueça. É bom para você

Segundo alguns pesquisadores, esquecer ajuda a deixar espaço para o pensamento criativo

Alain Mattingly, The New York Times

14 de outubro de 2019 | 14h29

Paula Span é a típica avó amorosa. Ela fica com sua neta de 3 anos, Bartola, mais ou menos uma vez por semana. Juntas, elas cantam, leem, brincam no parque e vão para a praia. Mas como este tempo é precioso, Paula, que escreve sobre este tema no jornal The New York Times, se dá conta de uma realidade que perturba as avós como ela: Bartola, ela escreveu, “não lembrará praticamente de nada disso”.

E agora começa para a menina a jornada que durará toda a sua vida, a jornada de fazer coisas, absorver coisa e esquecê-las. A memória de Bartola se tornará cada vez mais forte e muitas outras experiências permanecerão, mas muitas outras desaparecerão. Ela chegará ao estágio em que poderá lembrar de um momento particularmente bom (ou ruim) de 30 anos antes, mas não lembrará o que comeu no café da manhã.

Mas isto não é ruim. Os pesquisadores afirmam que esquecer as coisas deixa no nosso cérebro um espaço para novas informações mais importantes. Devemos pensar a mente como uma mesa coberta de objetos, no meio dos quais temos de encontrar algo de que precisamos.

“Somos inundados diariamente por uma quantidade de informações, e grande parte delas se transforma em lembranças no cérebro”, disse ao The Times Ronald Davis, um neurobiólogo de Jupiter, Florida. “Ocorre que não temos condições de administrar tudo isto”.

Segundo alguns pesquisadores, esquecer ajuda a deixar espaço para o pensamento criativo.

De que maneira se dá o esquecimento é um tema fascinante para os cientistas. Um estudo realizado por uma equipe da Universidade de Nagoya, no Japão, sugere a influência de células chamadas neurônios do hormônio que concentra a melanina, mais ativas durante a fase REM do sono. “Os neurônios podem estar limpando as fontes de memória para o dia seguinte”, disse Akihiro Yamanaka, que chefiou o grupo.

Outros estudos sugerem que outras forças participam deste processo. “À medida que aprendemos, e à medida que os outros animais aprendem durante todo o dia, vários mecanismos do esquecimento podem estar sempre corroendo lentamente a memória”, afirmou o dr. Davis.

Alguns aspectos da perda da memória desafiam persistentemente uma explicação. É o caso do distúrbio conhecido como amnésia global transitória, um lapso em que o cérebro simplesmente parece parar de registrar. É temporário, mas assustador.

Jane Brody, do The Times, acredita que pode ter sofrido um episódio deste tipo há dois anos.

Em um hiato de memória de 30 minutos, ela aparentemente caiu da bicicleta, foi para casa a pé, e caminhou até o hospital com o filho para cuidar de um corte no queixo provocado na queda.

“Como não tinha qualquer outro sintoma residual, fiquei extremamente preocupada - e ainda estou - por não ter a menor ideia do por que ou de como eu caí e, portanto, não tenho como evitar que isto volte as ocorrer”, escreveu.

Quaisquer que sejam as causas de tais lapsos mais tarde na vida, são seguramente diferentes do que ocorre na mente de uma criança de 3 anos como Bartola. A mente das crianças desta idade é uma espécie de tábua limpa - que se apaga continuamente.

“As crianças pequenas formam suas lembranças muito cedo”, afirmou ao The Times Patricia Bauer, psicóloga cognitiva da Universidade Emory, de Atlanta. “Mas elas as esquecem muito rapidamente, mais rapidamente do que os adultos”.

Os cientistas cognitivos dispõem de estratégias para ajudar as crianças a reter as lembranças que queremos que elas retenham: estimulando-as a falar repetidamente dos detalhes do dia, ou reunindo fotos de uma aventura. Mas Paula Span sabe que o que pode ser salvo tem limites, e estará satisfeita com o que Bartola puder reter do quadro geral.

“Quero que ela se lembre de mim, não de acontecimentos específicos, mas principalmente da minha presença”, escreveu. “Quero que saiba que ajudei a cuidar dela, a confortá-la e a festejar a sua presença. Quero que saiba que eu estive presente por uma parte da sua vida, e que a amei ferozmente”. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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