Rosa Santomartino University of Edinburgh via The New York Times
Rosa Santomartino University of Edinburgh via The New York Times

Estes micróbios poderão ajudar futuramente os colonos de Marte e da Lua a extrair metais

Um experimento a bordo da Estação Espacial mostrou que as bactérias eram eficazes na extração de elementos de terras raras das rochas

Kenneth Chang, The NewYork Times - Life/Style

31 de dezembro de 2020 | 05h00

Os micróbios poderão vir a ser amigos dos futuros colonos que viverão fora da Terra, na Lua, em Marte ou em outros lugares do sistema solar que desejem estabelecer casas autossuficientes. Os colonos do espaço, assim como as pessoas na Terra, precisarão de elementos chamados terras-raras, cruciais para as modernas tecnologias.

Estes 17 elementos, com nomes espantosos como vitrium, lanthanum, neodymium e gadolinium, estão escassos na crosta terrestre. Sem as terras-raras, não teríamos determinados lasers, ligas metálicas e os ímãs poderosos usados em celulares e carros elétricos. Mas a sua mineração na Terra hoje é um processo árduo.

Ele exige a trituração de toneladas de minério e então a extração de pequenas quantidades destes metais, usando substâncias químicas que deixam atrás de si rios de dejetos líquidos tóxicos. Experimentos realizados a bordo da Estação Espacial Internacional mostram que um método mais limpo e mais eficiente poderá funcionar em outros mundos: como deixar que bactérias façam o trabalho complicado da separação dos elementos terras-raras da rocha.

“A ideia é que a biologia catalise essencialmente uma reação que ocorreria de maneira muito lenta sem a biologia”, afirmou Charles S. Cockell, professor de astrobiologia da Universidade de Edimburgo. Na Terra, estas técnicas de biomineração já estão sendo usadas para produzir de 10% a 20% do cobre do mundo e também em algumas minas de ouro; os cientistas identificaram micróbios que ajudam a lixiviar as terras-raras das rochas.

Cockell e seus colegas queriam saber se estes micróbios poderiam viver e funcionar com eficiência em Marte, onde a força da gravidade na superfície é de apenas 38% em relação à da Terra, ou mesmo na ausência de qualquer gravidade. Com esta finalidade, no ano passado, enviaram alguns deles para a Estação Espacial Internacional.

Os resultados, publicados na semana passada na revista Nature Communications, mostram que pelo menos uma destas bactérias, uma espécie chamada Sphingomonas desiccabilis, suporta diferentes forças de gravidade. No experimento, chamado BioRock, 36 amostras foram lançadas em órbita em contêineres do tamanho de caixas de fósforos com fatias de basalto (uma rocha comum feita de lava esfriada).

A metade destas amostras continha um de três tipos de bactérias; as outras continham apenas basalto. Na estação espacial, Luca Parmitano, um astronauta da Agência Espacial Europeia, colocou algumas delas em uma centrífuga onde giraram a velocidades que simulavam a gravidade de Marte ou da Terra. Outras amostras experimentaram o ambiente de flutuação livre do espaço. Outros experimentos de controle foram realizados no solo. Depois de 21 dias, as bactérias estavam mortas, e as amostras regressaram à terra para análise.

Para dois ou três tipos de bactérias, os resultados foram decepcionantes. Mas a S. desiccabilis aumentou a quantidade de terras-raras extraídas do basalto por aproximadamente um fator de dois, mesmo no ambiente de gravidade zero. “Ficamos surpresos”, disse Cockell, explicando que sem a gravidade, não existe nenhuma convecção que em geral retira o lixo das bactérias e repõe novos nutrientes ao redor das células.

“Então seria possível concluir hipoteticamente que a microgravidade faz com que os micróbios parem de fazer a biomineração a fim de não estressá-los a ponto de não conseguirem fazer a biomineração”, afirmou. “Na realidade, não vimos nenhum efeito do gênero”. Os resultados foram um pouco melhores na menor gravidade existente em Marte.

Payam Rasoulnia, estudante do curso de doutorado da Tampere Universidade na Finlândia, que estudou biomineração de terras-raras, definiu como interessantes os resultados do experimento do BioRock, mas observou que o rendimento” foi muito baixo, mesmo nos experimentos realizados no solo”.

Cockell afirmou que o BioRock não tinha como objetivo maximizar a produção. “Na realidade, estamos interessados no processo em que se baseia a biomineração”, afirmou. “Mas certamente esta não é uma demonstração de biomineração comercial”. A próxima missão com carga da SpaceX para a estação espacial realizará um experimento de follow-up chamado BioAsteroid.

Em lugar de basalto, os contêineres do tamanho de caixas de fósforos conterão pedaços de meteoritos e fungos. Em lugar de bactérias, eles serão os agentes que serão testados para a fragmentação da rocha. “Acho que no fim, poderemos marcar para fazer isto em Marte”, disse Cockell. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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