JAMSTEC via The New York Times
JAMSTEC via The New York Times

Ouvir o mar profundo poderia ajudar a salvá-lo?

Um banco de dados de panoramas sonoros do fundo do mar pode oferecer aos pesquisadores uma compreensão básica de saudáveis ecossistemas remotos

Sabrina Imbler, The New York Times – Life/Style

16 de dezembro de 2020 | 05h00

Talvez você saiba como é uma fonte hidrotermal: formas negras espiralando dos pilares do mar profundo encrustadas com vermes, caranguejos peludos e peixes beiçudos. Mas você sabe qual é o som disso?

Para o ouvido não treinado, uma fonte hidrotermal – ou mais precisamente, uma fonte hidrotermal de Suiyo Seamount, no sudeste do Japão – gera uma borbulha viscosa mofada que lembra uma sinistra poça de magma ou uma tigela de sopa fervendo.

Para o ouvido treinado, a fonte hidrotermal de Suiyo contém múltiplos sons. Solicitado, durante uma chamada por Zoom, a descrever as gravações de Suiyo de maneira mais científica, Tzu-Hao Lin, um pesquisador do Centro de Pesquisa da Biodiversidade da Academia Sinica em Taipé, Taiwan, fez uma longa pausa, encolheu os ombros e riu. As pessoas sempre perguntam isto para ele, mas ele nunca tem a resposta que elas querem ouvir.

“Em geral, digo que elas as descrevam em sua própria linguagem”, disse Lin. “Não é preciso ser um especialista para falar como os sons lhe parecem”. Lin adora acústica, ele usa fones de ouvido, e ouve o mar desde 2008 e o mar profundo desde 2018. Lin colocou hidrofones, que são microfones para uso embaixo d'água para bisbilhotar os ruídos que se ouvem a milhares de metros sob a superfície.

Ele apresentou estas gravações em agosto, em uma conferência da Deep-Sea Biology Society. Lin não está interessado em estudar o canto de uma baleia ou o ruído do tráfego marítimo, mas no panorama sonoro do habitat – a totalidade de sons humanos, animais e geológicos – a fim de captar a biodiversidade de uma área. Imagine-o como um cartão de visita acústico da fonte hidrotermal. Lin faz parte de um crescente campo de especialistas em acústica que acreditam que o som pode ser a maneira mais rápida e mais barata de monitorar os reinos mais misteriosos do oceano.

Um banco de dados de panoramas sonoros do fundo do mar pode oferecer aos pesquisadores uma compreensão básica de saudáveis ecossistemas remotos, e destacar os sons de comunidades ou mesmo de espécies individuais poderá servir para informar aos cientistas quando as populações são florescentes.

“Precisamos conhecer como são os sons do habitat quando ele é saudável”, disse Chong Chen, biólogo do fundo do mar na Agência das Ciências e Tecnologia Marinha e Terrestre do Japão ou JAMSTEC. “Quando a paisagem sonora muda, talvez o habitat tenha mudado também”.

A luz tem pouco poder no oceano; é tão facilmente absorvida e espalhada pela água do mar que tudo o que esteja a uma profundidade maior do que 200 metros essencialmente é envolto na escuridão. Mas o som reina supremo embaixo d'água, onde viaja cinco vezes mais rápido do que no ar.

Já muito tempo, os cientistas ouvem os sons dos oceanos, mas só recentemente eles se voltaram para as partes mais escuras e profundas do mar, onde o som promete abrir-lhes um portal para um mundo desconhecido. Aqui, criaturas especializadas ocupam habitats que seriam fatais para os habitantes da superfície, por exemplo, quando colegas de Lin recuperaram o hidrofone de Suiyo, o calor da fonte hidrotermal havia derretido parte dos cabos.

“Chegamos perto demais do orifício”, disse Lin com um suspiro. É difícil visitar o fundo do mar e observá-lo exige grandes recursos; os robôs submarinos não são baratos. Mas é bastante fácil baixar um hidrofone na água – juntamente com uma câmera equipada com uma isca, para ver se algum ser a morde.

O hidrofone capta não apenas os ruidosos cliques dos golfinhos brigando, mas também o zum-zum-zum ambiente. Lin passou a interessar-se pela acústica submarina há cerca de dez anos, quando ainda estudava na National Taiwan University em um projeto de observação dos golfinhos corcundas do Indo-Pacífico. Embora o projeto parecesse animador, ele achou o trabalho decepcionante, trabalhando longas horas para ver poucos golfinhos.

Mas ao ouvir as gravações, Lin distinguiu um coro de outras criaturas – os estalido dos camarões e coros de peixes – além do ruído da poluição do progresso industrial. “As pessoas continuam apaixonadas pelos mamíferos marinhos”, afirmou. “Na realidade, não se importam com o peixe sonoro ou os invertebrados”.

Quando ingressou na JAMSTEC na primavera de 2019, para um período de um ano como pesquisador em pós-doutorado, ficou surpreso com a diversidade da vida nas profundezas do mar e mais surpreso ainda pelo fato de poucos terem tentado capturar os sons das criaturas que vivem nestas profundidades e seus habitats vulcânicos frequentemente instáveis. O trabalho ficou até mais urgente porque o interesse internacional pela mineração no mar profundo continuava crescendo.

Em 2019, ele propôs o uso dos panoramas sonoros das profundezas como instrumento de preservação em um trabalho publicado na revista Trends in Ecology & Evolution. As viagens de pesquisa são caras, e Lin não tinha tempo para montar um cruzeiro dedicado ao estudo destas paisagens.

Então ele e outros pesquisadores da JAMSTEC colocaram hidrofones em cruzeiros já programados, e coletaram gravações ao longo de dias de algumas áreas costeiras próximas do Japão e da fonte hidrotermal de Suiyo, e uma gravação ainda mais profunda de mais de 5.400 metros sob a superfície, perto da ilha de Minami-Tori em formato de triângulo isósceles.

Descobriu que o tráfego dos navios abafava as sonoridades costeiras, mas a gravação em Minami-Tori Shima pegou ruídos de golfinhos, seres humanos e os murmúrios tectônicos do próprio leito marinho, além de um potpourri de sons até então indetectáveis. As gravações de Lin revelam uma confusão de bips agudos, assobios distantes e um coro submarino de peixes que parece quase ao vento uivando por uma garganta nas montanhas.

Mas o que é tudo isto? Lin e o seu laboratório na Academia Sinica estão criando um algoritmo de software para separar os elementos do panorama sonoro em categorias: biofonia (de seres vivos), geofonia (do tempo, de terremotos e de erupções vulcânicas) e antropofonia (ruídos humanos como testes sísmicos, navios e mineração). Em seguida, o programa isolará os sons individualmente como os assobios dos golfinhos ou os peixes tagarelas, e poderá até descobrir os sons de novas espécies.

Embora os pesquisadores continuem debruçados sobre os dados, alguns panoramas sonoros já forneceram uma visão da vida nas profundezas do mar. A gravação de Minami-Tori Shima revelou um coro de peixes que começou logo após o pôr do sol e acabou depois da meia-noite em profundidades onde não há qualquer luz visível.

“É realmente espantoso”, disse Lin. Ele suspeita que os coros possam estar sincronizados com algum tipo de migração vertical dos peixes rumo à superfície durante a noite, mas ele observou que teria de realizar algumas pesquisas para confirmar esta relação. Pesquisadores observaram músculos sônicos ou gravaram sons de cinco famílias de peixes das profundezas, inclusive de peixes granadeiros e peixe-carvão do Pacífico, segundo Marta Bolgan, bióloga marinha da Universidade de Liege na Bélgica. “É um campo inteiramente novo”, observou.

Recentemente, ela publicou um estudo na revista Fish and Fisheries destacando quão importante é ouvir os peixes das profundezas do mar. Alguns pesquisadores estão trabalhando para melhorar a atual tecnologia usada para este estudo. Na Woods Hole Oceanographic Institution de Woods Hole, Massachusetts, Ying-Tsong Lin está construindo um aparelho com o formato de uma estrela do mar de hidrofones capaz de sintonizar certos sons a centenas de quilômetros de distância, como um telescópio para sons.

A estratégia de Bolgan implica o acoplamento de câmeras de vídeo a gravadores com a finalidade de captar no monitor as vocalizações dos peixes. Mas mesmo este tipo de coisa não é seguro. Um vídeo que capta um peixe e o som dele no mesmo quadro ainda não prova que o animal produziu tal som.

Pesquisadores precisam descobrir se aquele peixe poderia produzir fisicamente aquele som, quer ouvindo as gravações existentes ou especulando como os músculos sônicos do peixe poderiam produzir o ruído. “É uma combinação de dedução e sorte”, afirmou Bolgan.

Os peixes muitas vezes emitem sons durante determinados comportamentos, como a desova, que pode ser difícil repetir em um laboratório, embora alguns pesquisadores tenham obtido sucesso. Em 2016, Eric Parmentier, supervisor de Bolgan na Universidade de Liege, gravou enguias rosnando em tanques de fibra de vidro depois do pôr do sol. Massas de ovos flutuando, na manhã seguinte, indicaram que o peixe havia desovado.

Os peixes podem representar a melhor aposta dos pesquisadores na análise da biodiversidade das profundezas do mar, porque se desconhece se muitos animais marinhos fundamentais do mar profundo são capazes de emitir sons, segundo Chen.

“Os caracóis não vocalizam”, acrescentou como exemplo. Eles são exceções. Em 2019, pesquisadores gravaram fortes estalidos de pequenos vermes marinhos que lutam com a boca e moram em recifes de esponjas-de-vidro. E um estudo de 2017 revelou que os recifes de esponjas-de-vidro têm um panorama sonoro distinto, inteiramente próprio. Lin da Academia Sinica quer fazer com que todas os seus panoramas estejam disponíveis on-line.

Desse modo, os pesquisadores como Bolgan poderão distinguir através das gravações o coro de um peixe particular ou qualquer outro som particular. “Quando os dados são digitalizados, podem ser usados seguidamente”, disse Lin. “As gerações futuras poderão ver como era a biodiversidade dezenas de anos antes”.

Ele carregou todas as suas gravações no SoundCloud e convida os futuros especialistas em acústica a ouvi-los. O objetivo de Lin, o Ocean Biodiversity Listening Project, é um banco internacional de gravações submarinas de acesso aberto que pode constituir uma base de referência de ecossistemas saudáveis das profundezas marinhas.

Ele sabe que está trabalhando contra o tempo. “A mineração em águas profundas começará a qualquer momento”, afirmou Chen. Lin continua a sondar os panoramas sonoros em busca de novos padrões. As gravações ainda são crípticas, um espinheiro de ambientes. Mas por enquanto, alguns refletem a algazarra de um mar profundo que ainda é ruidoso como se supõe que seja. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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