Não consegue ver imagens na sua mente? Você não é o único

Não consegue ver imagens na sua mente? Você não é o único

Pesquisadores estão descobrindo novas maneiras de investigar duas situações não tão raras para entenderem melhor a relação entre visão, percepção e memória

Carl Zimmer, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2021 | 05h00

O neurologista Adam Zeman não dava muita atenção ao “olho da mente” até encontrar uma pessoa que não o tinha. Em 2005, o neurologista britânico examinou um paciente que lhe disse que um pequeno procedimento cirúrgico havia tirado sua capacidade de elaborar imagens.

Nos 16 anos que se seguiram desde a consulta com aquele primeiro paciente, Zeman e seus colegas ouviram mais de 12 mil pessoas que não tinham esse tipo de câmera mental. Os cientistas estimam que dezenas de milhões de pessoas não têm a capacidade de visualizar imagens na mente, o chamado “olho da mente”, que chamam de afantasia, e milhões vivenciam imagens mentais extraordinariamente fortes, chamadas hiperfantasia.

Em sua pesquisa mais recente, Zeman e seus colegas vêm reunindo pistas sobre como essas duas condições surgem por meio de mudanças na fiação do cérebro que liga os centros visuais a outras regiões. E estão começando a estudar como alguns desses circuitos podem evocar outros sentidos, como o som, na mente. Eventualmente, a pesquisa pode até tornar possível fortalecer o "olho da mente" – ou o ouvido, com pulsações magnéticas.

“Não se trata de um distúrbio, pelo que entendo”, afirmou Zeman, cientista cognitivo da Universidade de Exeter, na Inglaterra. “É uma variação intrigante na experiência humana”.

O paciente que a primeira vez chamou a atenção de Zeman para a afantasia era um agrimensor aposentado que perdeu seu "olho da mente" depois de uma pequena cirurgia cardíaca. Para proteger a privacidade do paciente, Zeman se refere a ele como M.X.

Quando M.X. pensava em pessoas ou objetos, não os via. Mas suas lembranças visuais estavam intactas. Ele conseguia responder a perguntas factuais como se o então primeiro ministro britânico Tony Blair tinha olhos claros (e tem). M.X. conseguia resolver problemas que exigiam formas giratórias mentalmente, mesmo que não as conseguisse ver.

Para entender melhor a afantasia, Zeman convidou pessoas que se corresponderam com ele para preencherem questionários. Um deles descreveu a condição como sentir a forma de uma maçã no escuro. Outro disse que estava “pensando somente em rádio”.

A grande maioria das pessoas que reportou a falta do "olho da mente" não tinha lembrança de um dia ter tido esse olho mental, sugerindo que havia nascido sem ele. Mas, como M.X., essas pessoas tinham pouco problema para lembrar de coisas que haviam visto. Indagadas se as folhas da grama ou de um pinheiro tinham uma tonalidade mais escura de verde, elas responderam corretamente que sim.

Por outro lado, pessoas com afantasia não se lembram tão bem como as outras de detalhes sobre suas vidas. É possível que lembrar suas próprias experiências – o que é conhecido como memória episódica – depende mais do "olho da mente" do que lembrar fatos do mundo.

Para sua surpresa, Zerman e seus colegas também foram contatados por pessoas que pareciam ser o oposto de M.X.: elas tinham visões intensamente fortes, uma condição que os cientistas chamam de hiperfantasia.

Segundo Joel Pearson, neurocientista cognitivo da Universidade de New South Wales que estuda imagens mentais desde 2005, a hiperfantasia vai além de apenas uma imaginação ativa. “É como ter um sonho muito vívido e não ter certeza se é real ou não. As pessoas assistem a um filme e depois conseguem vê-lo novamente em sua mente, e ele é idêntico”, afirmou.

Com base em suas pesquisas, Zeman e colegas calculam que 2,6% das pessoas têm hiperfantasia, e 0,7% afantasia.

Agora eles vêm estudando um grupo bem maior de pessoas que experienciam imagens mentais intensas. Uma das 21 primeiras pessoas com afantasia que foram examinadas por Zeman, Thomas Ebeyer, de Kitchener, Ontario, criou um site chamado Aphantasia Network, que se tornou um centro para pessoas com essa condição e para os pesquisadores estudá-las. Os que visitam o site podem responder a uma pesquisa psicológica on-line, ler a respeito dessa condição e participar de fóruns de discussão sobre assuntos que vão de sonhos a relacionamentos. Até agora, mais de 150 mil pessoas participaram da pesquisa e mais de 20 mil tiveram pontuações sugerindo afantasia.

“Realmente, este é um fenômeno humano global”, disse Ebeyer. “Tenho tomado conhecimento de pessoas de Madagascar à Coreia do Sul e Califórnia”.

Pearson desenvolveu métodos para estudar a afantasia e a hiperfantasia sem depender apenas das pesquisas. Em um experimento, ele se aproveitou do fato de que nossas pupilas contraem automaticamente quando olham objetos brilhantes. Quando pediu a muitas pessoas para imaginarem um triângulo branco, suas pupilas também contraíram.

Mas muitas pessoas com afantasia não tiveram essa reação. Suas pupilas continuaram abertas, mesmo tentando intensamente imaginar o triângulo branco.

Em outro experimento, ele aproveitou o fato de que a pele das pessoas ficar mais condutiva quando elas assistem a cenas de terror. Ele e seus colegas monitoraram a pele de voluntários enquanto liam histórias assustadores que eram projetadas numa tela diante deles. Quando muitas pessoas liam sobre experiências aterradoras, como ser atacado por um tubarão, elas experimentavam um aumento na condutância da pele.

Em um estudo publicado em maio, Zeman e equipe escanearam o cérebro de 24 pessoas com afantasia, 25 com hiperfantasia e 20 sem nenhuma dessas condições.

Os voluntários foram colocados deitados no scanner e deixaram suas mentes vagarem. Aqueles com hiperfantasia apresentaram uma atividade mais forte nas regiões que ligam a área frontal e posterior do cérebro. E enviaram sinais mais potentes das regiões de tomada de decisão na parte frontal do cérebro para os centros visuais na parte de trás.

No caso daqueles acostumados a ver coisas com seu "olho da mente", a afantasia pode parecer uma condição debilitante. Mas a pesquisa de Zeman não sugere isso. Na verdade, a afantasia até teria algumas vantagens sobre a hiperfantasia.

A hiperfantasia cria imagens que parecem tão reais que abrem espaço para lembranças falsas. Similarmente, pessoas sem essa mente visual podem escapar de algumas agonias causadas quando experiências traumáticas são revividas porque não precisam revivê-las mentalmente.

Incidentalmente, eles são realmente bons quando se trata de seguir em frente. E nos perguntamos se isso é porque estão menos preocupados com aqueles tipos de imagens que, para muitos de nós, vêm à mente e provocam arrependimentos e anseios”.

Pearson diz que um dia será possível dar às pessoas com afantasia um "olho da mente" que nunca tiveram. Ele descobriu que dar pulsos magnéticos para os centros visuais das pessoas comuns tornam suas imagens mentais mais vividas. E acha que os pulsos acalmam a atividade dos centros visuais, tornando-os mais receptivos às solicitações que vêm da parte frontal do cérebro.

Em teoria, os pulsos magnéticos combinados com o treinamento cognitivo podem permitir às pessoas com afantasia fortalecerem os circuitos exigidos para as imagens mentais. Mas Pearson não está certo se seria correto fazer tal procedimento. Se uma pessoa se arrepender desse impulso nas imagens intrusivas, o cientista talvez não consiga fechar esse 'olho da mente' novamente. “Há um lado negativo nisso”, afirmou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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