Alex Silva/ Estadão
Alex Silva/ Estadão

Podem os humanos transmitir o coronavírus para morcegos e outros animais selvagens?

Agências federais sugerem cautela na pesquisa de morcegos nos EUA para evitar a transmissão do novo coronavírus para a vida selvagem

James Gorman, The New York Times - Life/Style

13 de setembro de 2020 | 05h00

Muitas pessoas se preocupam com os morcegos como uma fonte de vírus, incluindo o que causou a pandemia mundial atual. Mas uma outra pergunta vem surgindo: os humanos podem transmitir o novo coronavírus para animais selvagens, especialmente para os morcegos norte-americanos? Esta parece ser a mais recente preocupação no âmbito da pandemia neste momento, mas bem menor do que os temores das pessoas contraírem a doença ou permanecerem empregadas.

Mas à medida que a propagação do novo coronavírus fica clara e mais preocupados ficamos com a possibilidade de os vírus serem transmitidos entre espécies, melhor. O consenso científico é no sentido de que o vírus teve origem em morcegos na China ou nos países vizinhos. Um estudo recente que monitorou a linhagem genética do novo vírus encontrou evidências de que ele provavelmente evoluiu nos morcegos e adquiriu sua forma atual.

Os pesquisados concluíram também que este novo coronavírus, ou outros que podem infectar humanos, estão provavelmente presentes nas populações de morcegos - apenas ainda não foram localizados. Então, por que a preocupação de novos morcegos serem infectados com este atual vírus? O governo dos EUA considera esta uma preocupação legítima, tanto no caso da população de morcegos, que foi devastada por uma doença causada por fungos chamada síndrome do nariz branco, e pelos humanos diante dos problemas potenciais que isso poderia causar.

O Geological Survey e o Fish and Wildlife Service, duas agências envolvidas na pesquisa sobre morcegos, consideraram o assunto sério o bastante para reunir um painel de 12 especialistas com o fim de analisar a possibilidade de transmissão dos humanos para os morcegos da SARS-CiV-2, na América do Norte.

Uma outra equipe de cientistas oriundos também das duas agências avaliou opiniões de especialistas e emitiu um relatório em junho. Sua conclusão é de que existe algum risco, embora seja difícil quantificá-lo. Adotar precauções, como usar máscaras, luvas e roupas de proteção pode reduzir muito esse risco.

Kevin Olival, vice-presidente de pesquisa da EcoHealth Alliance, grupo independente, e autor do estudo, disse que à medida que o vírus começou a se propagar pelo globo “houve uma real preocupação de que os animais selvagens, não só norte-americanos, mas em todo o mundo, pudessem ficar expostos à doença”.

Embora o grupo tenha estudado as interações entre os morcegos da América do Norte e os pesquisadores científicos, Olival disse que os funcionários encarregados de cuidar dos animais e pessoas que reabilitam morcegos feridos, por exemplo, permanecem mais em contato com morcegos do que os pesquisadores.

Avaliar o risco significou lidar com um grande volume de incógnitas: o risco de um cientista infectado, ou uma pessoa que trabalha com animais selvagens, ter contato com morcegos; o risco de os morcegos serem infectados nessa situação; o risco de um morcego infectado transmitir o vírus para outros morcegos de modo que o vírus se introduz e se estabelece na população. Os autores do documento concluíram que existe um risco de humanos infectarem os morcegos com o novo coronavírus.

Qual a grandeza do risco? Poderíamos dizer pequeno, ou desconhecido, mas este estudo é de duas agências federais, e descreve o risco como “não desprezível”. Embora o problema de como os pesquisadores devem conduzir seu trabalho pareça restrito, as consequências potencias são amplas.

O estudo observa que se o SARS CoV-2 se estabelecer na população de morcegos norte-americanos, isso permitirá que o vírus continue se propagando em animais, mesmo se não provocar a doença. E potencialmente pode se propagar para humanos despois de a pandemia ser contida. Outra preocupação envolve o quão rapidamente o coronavírus se propagaria dos morcegos para outros animais selvagens ou domésticos, incluindo os animais de estimação.

Cientistas já demonstraram que gatos domésticos podem ser infectados e que podem infectar um ao outro. O furão pode ser facilmente infectado, como também as martas. Com base na suspeita de que podem transmitir a doença para as pessoas, a Espanha e a Holanda mataram milhares de martas em fazendas de criação de animais cuja pele é comercializada. A infecção de um pequeno número de animais domésticos gerou uma grande publicidade. Mas autoridades de saúde pública, como o CDC – Centros de Prevenção e Controle de Doenças – declararam que, apesar de as informações serem limitadas, o risco dos pets transmitirem o vírus para as pessoas é baixo.

Elas recomendam que qualquer pessoa que esteja com a covid-19 adote as mesmas precauções com relação aos seus animais domésticos. O canal National Geographic reportou que o primeiro cão testado positivo para o vírus nos Estados Unidos morreu. O cão, chamado Buddy, aparentemente tinha um linfoma. Quanto à suscetibilidade dos morcegos norte-americanos, Olival disse não ter conhecimento de algum trabalho publicado sobre a possibilidade de serem infectados.

Pesquisadores de Hong Kong reportaram que, em laboratório, o coronavírus infectou células intestinais de morcegos de ferradura chineses. E no mês passado um estudo publicado na revista Lancet indicou que morcegos frutíferos podem ser infectados com o vírus. Além dos morcegos, disse Olival, os cientistas se preocupam como realizar uma pesquisa sobre os animais selvagens em geral e analisar que precauções devem ser tomada para evitar que uma outra espécie seja infestada.

Uma medida, disse ele, será avaliar os objetivos da pesquisa e analisar que nível de contato será necessário. Em alguns casos, afirmou ele, a observação e o registro de dados devem ser feitos sem o manuseio dos animais. Se não for possível, se justifica o uso de luvas e adoção de outros tipos de precaução, apesar de alguns pesquisadores da “velha escola” resistirem às sugestões, disse Olival. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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