Patrick T. FALLON / AFP
Patrick T. FALLON / AFP

Você pode ter mais de 150 amigos?

Estudo questiona este dado, conhecido como o número de Dunbar. O professor de Oxford que lhe emprestou o nome, Robin Dunbar, menosprezou as conclusões como 'bobagens'

Jenny Gross / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 05h00

LONDRES – Quantos amigos uma pessoa pode ter?

Em um estudo de 1993, Robin Dunbar, um antropólogo britânico, lançou a teoria de que os seres humanos não podem ter mais de cerca de 150 amigos, medida que se tornou conhecida como o número de Dunbar.

Mas os pesquisadores da Universidade de Estocolmo publicaram um estudo que questiona o número, e indicando que as pessoas poderiam ter muito mais amigos se se esforçassem para isto.

“Nós podemos aprender milhares de dígitos de pi, e se nos relacionássemos com muitas pessoas, então ficaremos melhor em nos relacionarmos com muitas mais”, disse Johan Lind, autor do estudo e professor adjunto da Universidade de Estocolmo. O paper foi publicado na revista Biology Letters.

Na sua pesquisa original, Dunbar estudou macacos e símios e determinou que o tamanho do neuro-córtex, a parte do cérebro responsável pelo pensamento consciente, estava correlacionado ao tamanho dos grupos nos quais eles viviam. O neuro-córtex nos seres humanos é ainda maior, por isso ele extrapolou que o tamanho ideal do seu grupo era, em média, 150.

No novo estudo, Lind disse que ele e sua equipe usaram conjuntos de dados atualizados e constataram que o tamanho do seu neuro-córtex não limitava o número de conexões que as pessoas podiam manter. O número de Dunbar, ele disse, “vem sendo criticado há muito tempo.” A equipe de Lind achou que não seria possível estabelecer com precisão nenhum número máximo de amizades.

Em uma entrevista, Dunbar professor de Psicologia da Evolução em Oxford, defende sua pesquisa. A nova análise, afirmou, é “bobagem, absolutamente bobagem”, e acrescentou que os pesquisadores da Universidade de Estocolmo realizaram uma análise estatística falha e se equivocaram quanto às sutilezas de suas análises e das conexões humanas. “Eu me espanto com o fato de aparentemente não terem compreendido as relações”, afirmou.

Dunbar define relações significativas como aquelas que as pessoas conhecem suficientemente para cumprimentar sem se sentirem acanhadas quando topamos com elas no saguão de um aeroporto. Este número costuma variar de 100 a 250, ou uma média de aproximadamente 150, afirmou.

Quando o indivíduo nasce, começa com uma ou duas. As amizades chegam ao pico no final da adolescência e início dos 20 anos. Aos 30, as pessoas tendem a ter cerca de 150 relacionamentos, e o número permanece invariável até que as pessoas chegam ao final dos 60 e começo dos 70 anos, quando o número de suas conexões, segundo Dunbar, “começa a despencar”. “Se você viver por muito tempo, o número volta a um ou dois”.

Em seu livro How Many Friends Does One Person Need (Quantos amigos uma pessoa precisa, em tradução livre), Dunbar apontou exemplos históricos e tempos modernos para respaldar a sua pesquisa. Por volta de 6000 A.C., o tamanho das aldeias do neolítico no Oriente Médio era de 120 a 150 pessoas, a julgar pelo número de moradias. Em 1086, o tamanho médio da maioria das aldeias inglesas registrado no Domesday Book era de 160 pessoas. Nos exércitos modernos, as unidades de combate contêm uma média de 130 a 150 pessoas, acrescentou.

Em 2007, quando a agência fiscal sueca estava se reestruturando, um dos seus estrategistas propôs que cada um dos novos escritórios tivesse cerca de 100 a 150 funcionários, citando a pesquisa de Dunbar. Os funcionários, já descontentes com a reestruturação, ficaram sabendo do plano e se queixaram por estarem sendo comparados a macacos. (O número de Dunbar, no fim, não teve a menor influência na reestruturação da agência, segundo três funcionários envolvidos no plano.)

Embora possa ser reconfortante pensar que há um número ótimo de pessoas das quais poderíamos nos cercar, na realidade não há uma única regra que se aplique a todos nós, disse Louise Barrett, professora de Psicologia da Universidade de Lethbridge, no Canadá.

“A vida humana é realmente complicada”, opinou.

Barrett, antropóloga biológica que não estava envolvida no novo estudo, e que anteriormente estudou com Dunbar, disse que a análise parecia bem fundamentada.

“Nós precisamos repensar e ajustar a nossa interpretação e hipóteses à luz deste novo dado”, afirmou.

O debate sobre as relações se dá no momento em que as pessoas estão repensando que amizades elas pretendem voltar a cultivar depois que a pandemia encolheu os círculos sociais e as empresas estão desenhando os espaços de trabalho pós-pandemia.

Dunbar apresentou sua teoria décadas atrás, nos primeiros dias da Internet e muito antes que as redes sociais mudassem a maneira como as pessoas se comunicam.

“Este número faria sentido se nós ainda dependêssemos de um Rolodex e conversássemos com as pessoas, mas não é este o mundo em que vivemos”, disse Angela Lee, professora da Columbia Business School.

As ferramentas de networking, como o LinkedIn, tornaram possível aumentar o número de conexões que podemos manter, e isto é importante porque a pesquisa mostra que as pessoas na outra extremidade das nossas redes são frequentemente as que acabam sendo as mais úteis para o avanço da nossa carreira ou estão gerando ideias criativas, ela disse.

Dunbar afirmava que a sua teoria é ainda viável, mesmo no mundo hiper-conectado de hoje, pois a qualidade das conexões nas redes sociais é muitas vezes baixa.

“Estas não são relações personalizadas”, segundo ele.

O que significará a pandemia na reconstrução das conexões importantes, seja no trabalho ou em nossa vida social? Provavelmente é muito cedo para dizer, mas Dunbar previu que os maiores efeitos nas redes ocorreriam com as pessoas mais velhas.

“Os seus círculos de amizades já estavam declinando e isto os impulsionará ladeira a baixo”.

Dunbar acrescentou que, embora tente não se analisar, ele achou que tinha cerca de 150 amigos.

“É bastante óbvio para a maioria das pessoas quando elas sentam para pensar a respeito que é dessa maneira que a sua rede social está organizada”, afirmou.

O número de Dunbar, acrescentou, não vai a lugar nenhum. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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