USA-Reiseblogger via Pixabay
USA-Reiseblogger via Pixabay

Precisamos realmente dar dez mil passos por dia para melhorar a saúde?

Essa recomendação tem mais a ver com marketing do que com a ciência. Andar bem menos já apresenta benefícios notáveis

Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2021 | 05h00

Dispositivos de rastreamento de condicionamento físico recomendam darmos dez mil passos por dia. Mas essa meta, que muitos acreditam estar alicerçada na ciência, na verdade, é fruto da coincidências e histórias que vão contando, e não em pesquisas científicas.

De acordo com I-Min Lee, professora de epidemiologia na Harvard T.H. Chan School of Public Health e especialista em saúde, essa meta de dez mil passos ficou popular no Japão nos anos 1960. Um fabricante de relógios, esperando lucrar com o interesse das pessoas na sua condição física depois do Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964, produziu em massa um pedômetro com um nome que, escrito em caracteres japoneses, parece um homem caminhando, criando uma meta que, no decorrer das décadas, se incorporou na nossa consciência global e aos dispositivos fitness.

Mas a ciência, mais desenvolvida nos dias atuais, sugere que não necessitamos dar dez mil passos por dia, o equivalente a caminhar oito quilômetros, para o bem da nossa saúde ou longevidade.

Um estudo realizado em 2019 por Lee e seus colegas concluiu que que as mulheres por volta dos 70 anos que conseguiam dar 4,4 mil passos por dia reduziram o risco de morte prematura em 40%, comparado com mulheres que completaram 2,7 mil passos ou menos, diários. Os riscos de morte prematura continuaram a cair entre aquelas mulheres que conseguem dar mais de cinco mil passos por dia, mas os benefícios ficam estabilizados nos 7,5 mil passos diários. Em outras palavras, mulheres mais velhas que completam menos da metade dos dez mil passos diários tendem a viver muito mais tempo do que aquelas que caminham menos.

Um outro estudo, mais amplo e realizado no ano passado com cinco mil homens e mulheres de meia idade de várias etnias, do mesmo modo concluiu que a marca de dez mil passos por dia não é um requisito para a longevidade. Neste estudo, as pessoas que completaram o equivalente a oito mil passos por dia tinham metade da probabilidade de morrer prematuramente de uma doença cardíaca ou qualquer outra causa do que as que concluíram quatro mil passos diários. Os benefícios estatísticos de passos adicionais foram leves, significando que não é prejudicial às pessoas caminharem mais diariamente, até e além da marca dos dez mil passos, mas esses passos extra não oferecem uma maior proteção contra uma morte prematura.

Realisticamente, poucos alcançam a meta de dez mil passos. De acordo com estimativas recentes, muitos adultos nos EUA, Canadá e outros países ocidentais atingem a marca de cinco mil passos por dia.

E se conseguimos atingir essa meta, é uma façanha efêmera. Num estudo famoso realizado em 2005 em Gent, na Bélgica, os cidadãos receberam pedômetros e foram encorajados a caminhar dando pelo menos dez mil passos por dia, durante um ano. Dos 660 homens e mulheres que chegaram até o final do estudo, 8% alcançaram a meta dos dez mil passos diários. Mas num estudo de acompanhamento realizado quatro anos depois, quase nenhum deles ainda caminhava tanto. Muitos retornaram ao ponto de partida, com o mesmo número de passos que davam no início do estudo.

A boa notícia é que aumentar nossa contagem de passos atual, mesmo que sejam alguns milhares de passos adicionais, pode ser uma meta razoável, suficiente e alcançável, disse Lee. As diretrizes de atividade física oficiais emitidas pelos Estados Unidos e outros governos usam tempo, não passos, como recomendação, e sugerem a prática de exercícios por pelo menos 150 minutos por semana, ou meia hora por dia, além dos movimentos que fazemos como parte da nossa vida normal diária.

Traduzindo isto em contagem de passos, disse Lee, a carga de exercícios total seria de pouco mais de 16 mil passos por semana no caso de muitas pessoas, ou dois mil a três mil passos por muitos dias (dois mil passos equivalem a aproximadamente 1.6 quilômetro). Se, como muitas pessoas, hoje conseguimos dar cinco mil passos durante o curso das nossas atividades cotidianas, como fazer compras e realizar as tarefas domésticas, acrescentar dois mil a três passos a mais nos leva a um total de sete a oito mil passos na maior parte dos dias, o que, segundo Lee, seria o número ideal. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
ciêncialongevidadeexercício físico

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.