Não tire sua cabeça das nuvens
Rebecca Renner, The New York Times- Life/Style

29 de abril de 2021 | 05h00

Como muitas pessoas, Namita Kulkarni viu-se presa durante a pandemia de coronavírus. Quando a vida normalmente intrépida dessa blogueira de viagens ficou paralisada, ela buscou a próxima aventura na sua imaginação.

“Quando criança eu sonhava que estava perdida numa floresta”, disse ela. “A floresta expande nossa percepção de possibilidades, de modo que as coisas ficavam um pouco fantásticas na minha imaginação”. Quando estava com a cabeça nas nuvens, ela desfrutava de cachoeiras mágicas, campos de flores amarelas ou aconchegantes banheiras com vista para vales exuberantes.

Namita não é a única. Os adultos passam cerca de 47% do tempo que ficam acordados deixando suas mentes vagarem, de acordo com um estudo feito na universidade de Harvard que monitorou os participantes com um aplicativo. E outros estudos sugerem que essa porcentagem varia muito, dependendo de como ela é classificada.

Mas nenhum desses trabalhos encarou esse ato de sonhar acordado sob uma luz positiva. Há décadas os psicólogos consideram esse tipo de divagação uma falha do controle cognitivo que causa um entorpecimento de habilidades como o processamento de tarefas, a compreensão da leitura e a memória. Mas Jerome Singer, que foi professor da universidade da Pensilvânia e pai da pesquisa sobre o tema, achava que sonhar acordado teria um efeito positivo. Se não, porque nossa mente é tão propensa à divagação?

Ao contrário de psicólogos que consideravam o ato de sonhar acordado um total desperdício, Singer afirmava que esse divagar pode ser vantajoso ou contraproducente. Para ele, as divagações negativas surgem em duas formas: fantasias obsessivas e dolorosas e uma incapacidade indisciplinada da pessoa se concentrar.

Mas segundo ele, alguns sonhos criativos que a pessoa tem quando acordada, chamados positivos/construtivos, são benéficos.

Por outro lado, como as divagações negativas indicam uma perda de controle, as pessoas propositadamente mergulham no sonho lúdico.

 Quando ele propôs essa tese há 70 anos, ela foi considerada revolucionária. Alguns psicólogos continuaram sua pesquisa no campo da divagação positiva, mas para muitos era um desvio prejudicial dos padrões normais de pensamento. Mesmo o estudo feito em Harvard, com o uso de um aplicativo, considerou que os sonhadores seriam menos felizes.

Durante anos muitos psicólogos utilizaram esse ato de sonhar acordado como barômetro do estado mental de um paciente em vez de uma ferramenta produtiva para mudar esse estado. Agora, uma série de pesquisas e de evidências provenientes da terapia clínica sugerem que podemos usar o ato de sonhar acordado com o propósito de melhorar nosso bem-estar geral.

Mais difícil do que parece

Novas pesquisas mostram que sonhar acordado inspira felicidade se você se concentrar em temas significativos, como lembranças agradáveis de entes queridos ou cenas imaginadas de triunfo diante de todas as adversidades.

Num estudo recente publicado na revista Emotion, pesquisadores testaram quanto prazer resulta do ato de sonhar acordado. Os participantes, usando seus próprios recursos, acabaram gravitando em torno de assuntos neutros ou preocupantes, como trabalho ou escola e saíram da sessão com sentimentos neutros ou negativos.

Quando lhes foi oferecido um arcabouço para orientá-los no sentido de imaginarem alguma coisa positiva, como uma fantasia de que têm superpoderes, ou a lembrança do seu primeiro beijo, eles se sentiram 50% mais positivos após a sessão.

E por que não conseguiam chegar a isto sozinhos? Erin Westgate, professor de psicologia na Universidade da Flórida, que liderou o estudo, disse que a divagação positiva implica um esforço cognitivo mais forte. E nosso cérebro tende a levar a mente a um divagar que precise de menos esforço, mesmo quando os resultados são negativos.

Mas vale a pena aprender a controlar a imaginação corretamente.

Como sonhar acordado

Atletas, como jogadores de rúgbi, golfe, os dedicados às artes marciais, que deliberadamente sonham acordado sobre suas técnicas usando imagens e narrativas, conseguem melhorar seu desempenho. Estudos com cirurgiões e músicos também chegaram a esses mesmos resultados. Mas alguns tiveram problemas para interagir com seus lados imaginativos criativos.

Como o estudo de Westgate mostrou, o ato volitivo de sonhar acordado é especialmente difícil se não houver inspiração. A criatividade e flexibilidade cognitivas têm um pico na infância e declinam com a idade. A criatividade ainda persiste, mas precisa ser instigada. Assim, quando T.M. Robinson-Mosley, psicólogo da NBA, aconselha os jogadores sobre como explorar o poder das suas divagações quando acordados, ela primeiramente os ajuda a derrubarem os bloqueios mentais e trocarem ideias para se concentrarem.

Para ajudar os jogadores a perderem suas inibições, ela começa o trabalho fazendo com que escrevam ou desenhem livremente, ou usando qualquer outro recurso que melhor se ajuste ao indivíduo. Isto permite que eles voltem a se conectar com a criatividade desfrutada quando criança”, disse ela.

Robinson-Mosley compara esse sonho acordado significativo à prática do boxe sombra: “Antes de você entrar no ringue para enfrentar um oponente real, você passa milhares de horas praticando boxe sozinho, numa forma de visualização destinada a estimulá-lo para a disputa em sua mente antes de ir para o ringue”.

Utilizar essa capacidade de sonhar acordado como um ensaio mental vai ajudar mais do que aprimorar seu desempenho no emprego. Pesquisas têm mostrado que imaginar cenários como cenas visuais melhora o estado de espírito de indivíduos com depressão. Quando a pessoa se detém em cenas pessoalmente importantes, mas imaginárias, como as do estudo de Westgate, isso aumenta a criatividade e instiga a inspiração.

Para o seu professor de inglês na escola secundária talvez você seja um estudante distraído, fora da realidade, mas na verdade, mesmo as mais breves férias mentais devolvem a sensação de bem-estar. Às vezes, vale a pena ter a cabeça nas nuvens. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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