Jorge Silva/Arquivo Reuters
Jorge Silva/Arquivo Reuters

Cientistas preferem usar expressão 'mordida' em vez de 'ataque' para preservar tubarões

Nos últimos anos, pesquisadores e autoridades da vida selvagem na Austrália e Estados Unidos adotaram termos como “mordidas”, “incidentes” e “encontros”; e gostariam que as pessoas também adotassem

Alan Yuhas, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2021 | 05h00

Nas praias da Austrália Ocidental, nas ondas da Califórnia e nas profundezas azuis do Havaí, os “ataques de tubarão” estão desaparecendo lentamente, pelo menos como expressão usada por pesquisadores e autoridades que vêm repensando a maneira de descrever os momentos em que tubarões e humanos se encontram.

Em julho, dois estados australianos geraram certa zombaria quando o Sydney Morning Herald informou que passariam a evitar a expressão em favor de termos como “mordidas”, “incidentes” e “encontros”.

Cientistas de tubarões há muito pedem uma linguagem menos sensacionalista, dizendo que não estão tentando policiar a fala de ninguém. Em vez disso, dizem eles, querem mudar a percepção do público sobre os animais cuja população caiu 71% desde 1970, principalmente devido à pesca excessiva. O desaparecimento dos tubarões ameaça afetar os ecossistemas marinhos e as fontes essenciais de alimentos, dizem eles.

As autoridades de alguns estados dos Estados Unidos e da Austrália tiveram o cuidado de dizer que escolhiam sua linguagem por questão de precisão e não por causa do politicamente correto ou da pressão de ativistas.

“Dá para entender o tipo de resistência ao que estamos falando, porque é uma mudança para um tipo de eufemismo cômico”, disse Catherine Macdonald, bióloga marinha e diretora da Field School, um instituto de pesquisa no sul da Flórida. “Mas acho que algumas das mudanças descritas são, na verdade, um impulso em direção a uma maior precisão e detalhismo”.

Macdonald e outros cientistas disseram que as mordidas de tubarão devem ser descritas como mordidas, mas que o contexto é importante. Existem mais de 500 espécies de tubarões – pequenos e colossais – e as pessoas os encontram nadando, pescando, surfando e fazendo uma série de outras atividades.

“Há uma verdadeira desconexão entre a realidade e a imaginação humana dos ataques de tubarões”, disse Toby Daly-Engel, diretor do Laboratório de Conservação de Tubarões da Flórida. “Boa parte do que a sociedade chama de ataque de tubarão na verdade é provocada por humanos”.

As pessoas pisam em pequenos tubarões, que se viram e dão o bote. Os mergulhadores – em pelo menos um caso, um influencer de Instagram – chegam muito perto e os tubarões reagem. Mordidas não provocadas às vezes acontecem em águas turvas, disse Daly-Engel, como quando um tubarão branco confunde um surfista com uma foca.

Mas as mordidas são extraordinariamente raras, disse ela – globalmente, ocorrem cerca de 70 a 80 mordidas não provocadas por ano e cerca de cinco mortes – e os tubarões geralmente fogem após o contato físico com uma pessoa.

“Dizer ‘ataque de tubarão’ passa a ideia de intenção”, disse Christopher Pepin-Neff, professor de políticas públicas na Universidade de Sydney que estudou a percepção humana sobre os tubarões. “Mas os tubarões não sabem o que as pessoas são. Eles não sabem quando você está no barco. Não sabem o que é uma hélice. Não é um ataque”.

Na Austrália, o governo de Queensland oferece orientação para minimizar “o risco de um encontro negativo com um tubarão”. A Austrália Ocidental usa “mordida” e “incidente” em seu sistema de alerta e, às vezes, “interação com tubarão”, geralmente quando não há mordida.

A maioria das mordidas não provocadas é relatada nos Estados Unidos, onde a mudança na linguagem começou para valer nos últimos dez anos. Por exemplo, autoridades marinhas e da vida selvagem na Califórnia rastreiam ferimentos, mortes e “incidentes” desde cerca de 2017 para casos em que um tubarão toca pessoas ou sua prancha de surf, caiaque ou algum outro equipamento. No Havaí, as autoridades usam “encontros entre humanos e tubarões” há quase uma década.

Um site do governo do Havaí observa que “mordidas de cães” são chamadas de “ataques de cães” apenas em casos extraordinários. Dan Dennison, porta-voz do Departamento de Terras e Recursos Naturais, disse que sempre que lhe perguntavam por que um tubarão atacava alguém, “Minha resposta era: ‘Até podermos entrevistar o tubarão, não temos ideia’”.

Uma exceção à tendência de rebranding parece ser a Flórida, onde a Comissão de Vida Marinha tem no seu site uma seção sobre “ataques de tubarão”. Uma porta-voz, Carly Jones, disse que a comissão “não tem envolvimento com este tópico”.

Na maioria das vezes, quando os humanos estão perto dos tubarões, nada acontece. As pessoas muitas vezes nem percebem.

“Se você já esteve no oceano, provavelmente estava com um tubarão perto de você, e ele provavelmente sabia que você estava lá, mesmo que você não soubesse que ele estava lá”, disse David Shiffman, biólogo marinho e autor do livro Why Sharks Matter [algo como “Por que os tubarões são importantes”]. Macdonald e uma equipe descobriram recentemente um grande viveiro de tubarões-martelo na costa de Miami, por exemplo – o primeiro encontrado na costa atlântica dos Estados Unidos.

A ideia de evitar a palavra “ataque” atraiu algumas críticas, inclusive do fundador do Bite Club [algo como “Clube da Mordida”, em tradução livre], um grupo de apoio aos sobreviventes. Na sexta-feira, o apresentador da Fox News Tucker Carlson disse que se os novos termos fossem adotados, “quando um grande tubarão-branco arranca sua perna, seria só uma ‘interação negativa’”.

Mas Shiffman disse que os novos termos “não tinham nada a ver com a cultura do politicamente correto”.

“A ideia é ser preciso sem ser inflamatório”, disse ele. “A cobertura midiática inflamatória deixa as pessoas com medo dos tubarões, o que pode significar menos apoio para sua conservação e, potencialmente, apoio para seu extermínio”.

Graças ao filme Tubarão e à cultura popular, os tubarões viraram “o vilão da história”, disse Jasmin Graham, presidente da Minorities in Shark Scientists e bióloga marinha do Mote Marine Laboratory & Aquarium em Sarasota, Flórida. “Todo mundo tem essa reação negativa a eles”, disse ela, “e isso está enraizado na mídia que consumimos”.

Ainda assim, os cientistas não foram unânimes sobre a importância de mudar a percepção do público.

“Será que mudar o nome para ‘encontros com tubarões’ realmente ajudará o público em geral a ter uma perspectiva diferente? Acho que não”, disse Gavin Naylor, diretora do Arquivo Internacional de Ataques de Tubarões da Universidade da Flórida, que distingue entre mordidas provocadas e não provocadas. “Há pessoas no público em geral que os chamam de ‘ataques de tubarão’ o tempo todo e são ambientalistas. É só uma expressão que todo mundo usa”.

Muito mais importante do que a linguagem, disse Naylor, era o foco na regulamentação e no controle da pesca predatória.

Graham disse que os tubarões precisam tanto do público quanto dos governos a seu lado – e rápido.

“Estamos perdendo tubarões tão rápido que, quando percebemos como a situação está ruim, já é tarde demais”, disse ela. “Quando precisamos começar a nos preocupar com isso? A resposta é ontem. Então precisamos começar a fazer as coisas hoje”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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