David W Cerny/Reuters
David W Cerny/Reuters

A subestimada importância dos gatos... Para a ciência médica

Pesquisadores que trabalham com os genomas de gatos domésticos e selvagens dizem que seu DNA traz pistas tanto sobre a saúde humana como sobre a felina

James Gorman, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 05h00

Leslie Lyons é veterinária e especialista em genética felina. Ela também é dona e partidária dos gatos, além de ser conhecida por provocar seus colegas que estudam genética canina com o popular ditado que diz "Gatos mandam. Cachorros babam".

Esse não foi o caso com o financiamento da pesquisa e a atenção à genética das doenças em cães e gatos, em parte porque o número de raças de cães oferece uma variedade em termos de doenças genéticas e talvez por causa do favorecimento geral em relação aos cães. Mas Lyons, uma professora da Universidade de Missouri, diz que há muitas razões pelas quais os gatos e suas doenças são modelos inestimáveis para doenças humanas. Ela assumiu a causa da ciência dos gatos esta semana em um artigo na revista Trends in Genetics.

"As pessoas tendem a amá-los ou odiá-los, e os gatos geralmente são subestimados pela comunidade científica", ela escreve. Mas, ela diz, de algumas formas, a organização do genoma felino é muito parecida com o genoma humano, e a genômica do gato poderia ajudar na compreensão da vasta quantidade de DNA de mamíferos que não constitui genes e é mal compreendida.

Entre os avanços da medicina veterinária que beneficiaram os humanos, ela destacou que o remdesivir, uma droga importante no combate à covid-19, foi primeiramente utilizada com sucesso contra uma doença em gatos causada por outro coronavírus.

Ela é a diretora da 99 Lives Cat Genome Sequencing Initiative e como parte desse projeto, ela e um grupo de colegas, incluindo Wes Warren da Universidade de Missouri e William Murphy da Universidade Texas A&M, produziram recentemente o genoma mais detalhado do gato até o momento, superando o genoma do cão.

“Até o momento”, Lyons disse.

Eu falei com Lyons, Warren e Murphy, que se autodenominam Team Feline. Lyons estava no Texas e com dois de seus colegas falou sobre os motivos pelos quais os genomas felinos são importantes para o conhecimento médico.

Eu escrevo sobre zootecnia e, com o passar dos anos, admiti para os membros do Team Feline, que escrevi mais sobre cães do que gatos. A rivalidade cachorro-gato na ciência genômica é principalmente uma rivalidade bem-humorada, mas apenas para avaliar no que eu estava me metendo, primeiro perguntei sobre a abordagem não científica dos cientistas para cães e gatos.

A conversa foi editada por motivos de duração e clareza.

Primeiro, suas preferências pessoais:

William Murphy: Eu tenho gatos e cachorros como animais de estimação, mas prefiro gatos.

Wes Warren: Tenho um cachorro. Infelizmente, sou alérgico a gatos.

Leslie Lyons: Ele tem um cachorro muito caro que vive com problemas.

O que te motivou a escrever o artigo promovendo a causa da ciência felina?

Lyons: Ao longo da minha carreira, tenho tentado fazer as pessoas reconhecerem que nossos animais domésticos têm as mesmas doenças que nós e podem fornecer informações importantes se conseguirmos entender o que faz com que funcionem um pouco melhor, como seus genomas são construídos.

Você tem genomas de alta qualidade de várias espécies de gatos além do gato doméstico?

Lyons: Já temos os leões e tigres, o gato leopardo, o gato do mato grande, meia dúzia de espécies com genomas muito, muito bons que são ainda melhores do que os genomas dos cães neste momento.

Murphy: De longe. Na verdade, era de melhor qualidade do que o genoma humano de referência até muito recentemente. O objetivo é ter a enciclopédia completa do DNA do gato, para que possamos entender totalmente a base genética de todas as características do gato.

Lyons: Por exemplo, o gene da alergia de Wes. Nós entendemos completamente esse gene agora. Podemos até mesmo eliminá-lo do gato para produzir gatos mais hipoalergênicos ou, pelo menos, entender o que provoca melhor a resposta imunológica.

De que forma as doenças dos gatos são um bom modelo para as doenças humanas?

Lyons: Estamos descobrindo que espécies diferentes têm problemas de saúde diferentes. Precisamos escolher as espécies certas.  

Warren: Sabemos que os cães têm câncer com mais frequência, assim como nós. Os gatos não têm câncer com muita frequência. E essa é uma história fascinante de evolução. Então, existem sinais ou pistas no genoma do gato que nos permitem avaliar melhor por que os gatos têm certos tipos de câncer e entender as diferenças entre cães, gatos e humanos

E os gatos que fazem parte da pesquisa?

Lyons: A pesquisa genômica é fantástica porque, geralmente, só precisamos de uma amostra de sangue. E uma vez que temos a amostra não precisamos fazer experiências com o animal. Estamos na verdade observando o que os animais já têm. Estamos trabalhando com as doenças que já estão lá.

E as espécies selvagens?

Murphy: Genomas de alta qualidade para gatos selvagens podem ajudar nos planos de sobrevivência de suas espécies e em sua recuperação na natureza.

Lyons: Vemos meia dúzia de problemas de saúde em felinos selvagens. Temos um estudo de carcinoma de células transicionais em gatos pescadores, cegueira hereditária em gatos de pés pretos, doença renal policística em gatos de pallas. Leopardos da neve têm problemas oculares terríveis, provavelmente por causa da endogamia em zoológicos. Portanto, compreender seus genomas pode nos ajudar a interromper esses problemas nas populações do zoológico, e isso também ajudará os humanos com as mesmas condições.

E sobre DNA antigo e gatos? Há muito trabalho sobre o assunto em cachorros. Como isso está progredindo nos gatos?

Lyons: Alguns grupos estão avançando com o DNA antigo. Trabalhei com alguns gatos mumificados e mostramos que os tipos de DNA mitocondrial que encontramos nos gatos mumificados estão mais comumente presentes em gatos egípcios hoje do que em qualquer outro lugar. Portanto, os gatos dos faraós são os gatos dos egípcios de hoje.

Mudando de assunto: Sempre gostei de cachorros, mas estou pensando em ter um gato. Alguma dica?

Lyons: Tenha dois. Eles serão companheiros. E dê algo para eles arranharem. Do contrário, será o seu sofá. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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