James Tensuan para The New York Times
James Tensuan para The New York Times

Por que esse cientista fica recebendo amostras de cabelos de assassinos

Técnica para recuperar DNA de cabelo sem raiz é usada para resolver crimes

Heather Murphy, The New York Times

15 de outubro de 2019 | 06h00

Pessoas sortudas o suficiente para ter uma cabeça coberta de cabelo geralmente deixam para trás de 50 a 100 fios por dia. Esses cabelos são duradouros, capazes de resistir a anos ou até séculos de chuva, calor e vento. O problema para os que tentam descobrir a quem um fio de cabelo pertenceu é que, a não ser que a amostra de cabelo inclua a raiz, o que apenas uma pequena porcentagem dos fios têm, o cabelo não tem muita utilidade.

Essas limitações ficam evidentes em julgamentos, quando os cientistas forenses têm de explicar aos jurados por que eles não conseguiram extrair DNA suficiente de um fio de cabelo colhido em um casaco, e quando historiadores amadores de famílias se deparam com uma escova de cabelo de um parente morto. Sem a raiz do cabelo, os laboratórios lhes responderão que não é possível gerar um perfil de DNA para um site de genealogia.

Agora, Ed Green, um paleogeneticista da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, conhecido por seu trabalho com o genoma de neandertais, desenvolveu uma técnica que torna possível recuperar DNA e sequenciá-lo a partir de cabelos sem raízes. Ao longo dos 18 meses mais recentes, ele tem usado esse método para extrair perfis genéticos dos cabelos de assassinos e vítimas de crimes não solucionados.

Justin Loe, diretor executivo da Full Genomes, uma empresa de serviços em genética, qualificou a técnica como “um divisor de águas”. “Os criminosos tomam cuidados como usar luvas ou limpar o sangue”, disse ele, “mas poucos deles pensam em raspar a cabeça”.

Em 2017, Barbara Rae-Venter, uma genealogista genética, trabalhava com autoridades em New Hampshire para identificar uma mulher e três meninas encontradas em um parque estadual. Os corpos haviam sido expostos a décadas de luz do sol e água, o que deteriorou até o DNA nos ossos.

Rae-Venter recuperou um artigo que detalhava a maneira como voluntários tinham identificado possíveis parentes de uma criança encontrada enterrada no jardim dos fundos da residência de um casal, na Califórnia. A menina tinha morrido no início da década de 1990, mas Green havia usado o cabelo dela para confirmar que eles eram parentes. “De repente, aí estava a solução do crime”, disse ela.

Para identificar uma pessoa, é necessário DNA nuclear. Métodos tradicionais podem obtê-lo de um fio de cabelo com raiz, mas, se a amostra tiver caído da cabeça há mais de uma semana, isso pode ser um problema, afirmou Susan Ryan, uma consultora forense. “Cabelos têm de estar em um estágio de crescimento para a obtenção do DNA nuclear”, afirmou ela.

Green sabia que isso não era necessariamente verdadeiro. Ele integrava uma equipe do Instituto Max Planck, em Leipzig, Alemanha, que desenvolvia uma avançada tecnologia de sequenciamento genético para ler DNA extraído de ossos fossilizados. Em 2010, envolveu-se no sequenciamento total do DNA do genoma dos neandertais, a partir de lascas de ossos que tinham pelo menos 38 mil anos.

Mas cabelo não era seu foco, até receber um telefonema de Rae-Venter. Em junho, autoridades anunciaram que, após décadas sem identificação, três das quatro vítimas de assassinato tinham sido identificadas. A técnica de Green foi fundamental para a descoberta. A partir de então, ele recebeu uma enxurrada de pedidos.

Anteriormente, o DNA era capaz de solucionar um caso somente se fosse compatível com alguma amostra inserida em um banco de dados criminal ou se combinasse com o material genético de algum suspeito já identificado. Mas com o surgimento da genealogia genética, que possibilita a identificação de DNA entre primos nos bancos de dados genealógicos, a utilidade do DNA foi às alturas. Em quase metade dos casos, genealogistas genéticos dirão que são capazes de identificar pessoas por meio de perfis genéticos.

Natalie Ram, uma professora de direito da Universidade de Maryland, afirmou que, apesar de ver potencial nisso, há o risco de amplificar uma tendência de coletar DNA das pessoas em geral. Também não está claro o quanto essa técnica é confiável. Se ela falhar em relação a um determinado fio de cabelo, ela não apontará um suspeito diferente - não haveria nenhuma correspondência, afirmou Green.

Ele tem consciência de que a técnica poderia ser usada para cometer pequenos delitos, espionagem corporativa ou assédios. Mas tem esperança que seja usada para o bem. Susan compartilha desse desejo. Há entre 200 mil e 250 mil crimes não solucionados arquivados nos Estados Unidos, afirmou ela, e mesmo que cabelos fossem coletados nas investigações de somente 10% deles, 20 mil casos poderiam ter solução.

Ainda assim, nem ela nem Green consideram provável que a técnica seja disseminada no futuro próximo. O sequenciamento do DNA de um único fio de cabelo custa milhares de dólares, sem contar que é necessário contratar um genealogista genético para tentar identificar de quem partiu a amostra. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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