Gaetan Borgonie, Extreme Life Isyensya, Bélgica
Gaetan Borgonie, Extreme Life Isyensya, Bélgica

Cientistas analisam biosfera das profundezas da Terra

Pesquisas estão descobrindo seres microbianos subterrâneos que podem mudar o que sabemos sobre as origens da vida

Joanna Klein, The New York Times

12 de janeiro de 2019 | 06h00

Na superfície, a água no grau de fervura mata a maior parte da vida. Mas o Geogemma barossii é uma coisa viva pertencente a um outro mundo, que cresce no nosso. A água fervente - a 100º Celsius - praticamente congelaria esta criatura, que vive a 120º. Não há outro organismo conhecido capaz de suportar um calor tão elevado.

Trata-se de um dos muitos micróbios misteriosos de um imenso habitat subterrâneo. Na década passada, cientistas se reuniram embaixo do Deep Carbon Observatory para tentar compreender esses habitats escondidos. Com brocas de alta tecnologia, veículos submarinos operados por controle remoto, tubos coletores, tecnologia do DNA e maquetes por computador, os pesquisadores exploraram vulcões, minas de diamantes, fontes de água quente nas profundidades do mar, lama de vulcões submarinos e outros locais extremos sob oceanos e os continentes.

Cerca de 200 a 600 octilhões de micróbios vivem embaixo dos nossos continentes e muitos mais sob o leito marinho. Juntos, eles pesam o equivalente a 200 milhões de baleias azuis muito mais do que todos os 7,5 bilhões de seres humanos. A diversidade subterrânea rivaliza com a da superfície, com ainda há mais organismos a serem descobertos no subsolo.

As comunidades microbianas variam de um habitat para outro - quer estejam enterradas sob sedimentos, sob a crosta sulfúrica do leito marinho, ou encapsulados no granito, basalto, arenito ou argila em baixo dos continentes. Há até mesmo alguns fungos e organismos multicelulares, como insetos e vermes, que vivem nas profundezas do solo.

Alguns necrófagos sobrevivem alimentando-se dos restos da fotossíntese da superfície que foram enterrados há centenas de milhões de anos. Os Chemolithoautotrophos, por outro lado, realizam uma espécie de fotossíntese sem sol e respiram o que quer que se encontre à sua volta.

O Candidatus Desulforudis Audaxviator, uma bactéria do cobalto em formato de bastão, respira o que é emitido quando algumas rochas encontram água. “Você pega uma pedra. Coloca-a na água. Aquece um pouco, não precisa ser calor extremo, e ela produzirá tudo aquilo de que a vida necessita para se manter”, disse Karen Lloyd, microbiologista da Universidade de Tennessee, Knoxville.

Outros micróbios respiram urânio e expelem os dejetos no formato de minúsculos cristais. Os micróbios da subsuperfície podem se reproduzir somente a cada 30 anos, ou mais. Se há escassez de nutrientes, os micróbios entram em um estágio de dormência. Pode levar dezenas a milhares de anos para uma nova população substituir a anterior.

A química na subsuperfície profunda sustenta a vida, e estes micróbios das profundezas aparentemente compartilham de um ancestral comum com os que vivem na superfície. A química original da Terra, antes que o oxigênio se tornasse abundante, há bilhões de anos, pode ter sido semelhante à biosfera da subsuperfície profunda. Isso levou os cientistas a tentarem imaginar se foi ali que a vida começou.

Fazendo maquetes da biosfera da subsuperfície e procurando compreender como as reações químicas teriam dado origem à matéria orgânica, os pesquisadores esperam concluir se a vida surgiu na superfície ou nas profundezas, outros indagam se compreender a vida na subsuperfície poderia indicar a existência da vida em outra parte do sistema solar, como Marte ou Europa, uma das luas de Júpiter.

“Poderia existir uma biosfera profunda nestes outros mundos?”, indagou Robert Hazen, mineralogista da George Mason University, Virginia, que dirige o observatório. Até que isto seja estudado, Hazen disse que este novo-velho mundo está “nos proporcionando uma nova e vívida maneira de pensar ‘o que é a vida?’ ”

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