Marcos Chin
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Pesquisa mostra que moscas produzem substância semelhante ao leite

De acordo com estudiosos, aranhas, baratas, besouros, tubarões branco, por exemplo, também apresentaram essa característica

Natalie Angier, The New York Times

23 de fevereiro de 2019 | 06h00

A maioria das moscas fêmeas opta por uma abordagem de baixo custo para a paternidade, depositando no lixo ou nas fezes de animais domésticos um grande número de ovos do tamanho de sementes, que, ao chocarem, libertam larvas que precisam se alimentar sozinhas.

Mas a fêmea da mosca tsé-tsé faz internamente a gestação dos filhotes, um de cada vez, dando à luz para que possam viver. Quando cada cria se liberta do útero, após nove dias, mãe e filha são quase do mesmo tamanho.

"É o equivalente a dar à luz um bebê de 18 anos", disse o entomologista Geoffrey Attardo, que estuda as moscas tsé-tsé. Essa mosca recém-nascida parece uma granada de mão. A larva é apenas um grande saco de leite.

E realmente estamos falando de leite - um fluído nutritivo, bioquímico e imunológico desenvolvido sob medida que o corpo da mosca mãe produziu a partir do sangue do qual se alimenta, bombeando para suas crias em desenvolvimento. Devidamente engordadas, as larvas da mosca tsé-tsé podem se enterrar no chão em segurança por 30 dias, metamorfoseando-se em adultas.

Numa recente análise química e genética do leite da mosca tsé-tsé, o Dr. Attardo e seus colegas ficaram surpresos ao descobrir como este era semelhante ao produto da glândula que faz de nós mamíferos. "Eu esperava algo completamente diferente", disse ele. "Mas há uma assustadora e fascinante sobreposição com os tipos de proteínas que vemos no leite dos mamíferos."

A nova pesquisa com a mosca tsé-tsé é apenas um exemplo de um leite semelhante ao materno que os cientistas têm encontrado em lugares que nada se parecem com mamas: em aranhas, baratas e besouros que se enterram no chão; nos tubarões brancos, pinguins-imperadores machos, e nos flamingos de ambos os sexos.

Outros cientistas rastrearam a evolução da lactação dos mamíferos e concluíram que esta não surgiu como forma conveniente de alimentar um bebê, e sim para ajudar nossos ancestrais ovíparos a lidar com o desafio da gestão da água em terra firme. Outros cientistas buscam contar e compreender as diferenças de composição no leite de uma ampla amostragem dos cerca de 5,5 mil mamíferos do mundo.

Sempre que ela aparece, a lactação é cara e exige uma justificativa evolucionária. Os flamingos estão entre os poucos pássaros que produzem leite para os filhotes, e tal esforço os deixa desbotados. Macho e fêmea constroem juntos o ninho, cuidam de um único e grande ovo e, quando este choca, produzem o gordo leite do qual o filhote de flamingo se alimentará por nove longos meses.

Os apelos do filhote estimulam o cérebro dos pais a liberar prolactina - o mesmo hormônio que estimula a lactação humana - que, por sua vez, leva as células na base da garganta dos pais a inchar e secretar a fórmula mágica.

Repleto de proteínas e mais gordo que o leite de mamíferos, o leite dos flamingos "tem a consistência de um queijo cottage", disse o pesquisador Paul Rose, da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha. Sua coloração é rosa. Os pais misturam ao leite os mesmos pigmentos carotenoides que normalmente tingem as penas do flamingo, e cujas propriedades são antioxidantes.

Com o passar dos meses, os pais precisam aumentar constantemente a produção de leite para atender à demanda. Quando o filhote de flamingo está perto do tamanho adulto, com o corpo robusto e ganhando cor, os pais parecem magros e esgotados, e suas penas, antes tão coloridas, agora são brancas como o inverno.

Acredita-se que os ancestrais dos mamíferos modernos punham os tipos de ovos porosos, de casca irregular, vistos atualmente entre os lagartos, cobras e alguns mamíferos únicos como o ornitorrinco. Os ovos desse tipo estão em constante risco de perderem líquido, o que significa que as cobras e lagartos modernos se veem frequentemente limitados pela necessidade de depositar seus ovos num ambiente relativamente úmido.

Nossos ancestrais desenvolveram uma solução libertadora: ao se transformarem em reservatórios d’água, eles puderam depositar seus ovos onde desejassem. "É provável que a primeira função do leite tenha sido hidratar ovos de casca porosa em terreno seco", disse Amy Skibiel, especialista em lactação de mamíferos. De acordo com essa hipótese, os ancestrais dos mamíferos jogavam fluído sobre seus ovos por meio de poros no peito; os mamilos vieram muito depois.

Os ovos de casca porosa correm o risco de serem contaminados por micróbios, e estudos genéticos indicam que as mais antigas soluções para hidratar os ovos eram fortificadas com componentes de combate aos patógenos. E por que não seguir com a hidratação após o ovo chocar, convertendo os fluidos em alimento para os bebês, por meio da seleção natural?

Depois que a linhagem dos mamíferos definiu que a abordagem secretora seria aplicada à paternidade, os leites logo se diversificaram, com sua composição definida por uma combinação de necessidade, alimentação e parentesco.

Por exemplo, o número e a variedade de açúcares no leite humano superam muito os observados em qualquer outro grande primata, disse o pesquisador Michael Power, do Parque Zoológico Nacional Smithsonian, em Washington. 

Ele propõe uma razão surpreendente para isso: não seria para estimular o crescimento do nosso grande cérebro, como alguns sugeriram, e sim porque precisamos dos poderes antibacterianos do açúcar para nos ajudar a lidar com todos os novos patógenos que encontramos quando começamos a conviver em proximidade com outros animais.

"Nossa capacidade de usar os animais de muitas maneiras diferentes é uma das razões pelas quais tivemos sucesso", disse ele, "mas isso foi um grande choque para o sistema". Felizmente, nosso leite evoluiu para estar à altura do desafio. "Nosso cérebro criou nosso leite, e não o contrário", explicou o Dr. Power.

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