Keith Negley
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Cientistas descobrem que amigos podem compartilhar ondas cerebrais

Pesquisas mostram que o cérebro de amigos próximos reagem de maneiras similares a determinados eventos

Natalie Angier, The New York Times

23 Abril 2018 | 10h15

Um amigo vai ajudar você na mudança, afirma um velho ditado, enquanto um bom amigo o ajudará a ocultar um cadáver. E por que não? Escrúpulos morais à parte, aquele bom amigo provavelmente concordaria que a vítima era uma pessoa intolerável que estava pedindo o que recebeu e, tudo bem, você não deveria ter feito isso, mas… onde está a pá?

Há muito tempo pesquisadores constatam que as pessoas escolhem amigos parecidos consigo mesmas em uma vasta gama de características: idade similar, raça, religião, status socioeconômico, nível educacional, inclinação política, beleza física, até pela força do aperto de mão. O impulso na direção da homofilia, na direção de criar laços com alguém que é o mais parecido com você quanto possível, é encontrado tanto entre os tradicionais agrupamentos de caçadores-coletores quanto nas mais avançada sociedades capitalistas.

Novas pesquisas sugerem que os fundamentos das amizades são ainda mais profundos do que anteriormente se suspeitava. Cientistas descobriram que cérebros de amigos próximos reagem de maneiras marcadamente similares enquanto eles assistem a uma série de vídeos curtos: são observadas as mesmas idas e vindas de atenção e distração, os mesmos picos de mecanismos de recompensa e de alertas de aborrecimento.

Os padrões de respostas neurais evocados pelos vídeos - envolvendo assuntos tão diversos quanto os perigos do futebol americano universitário, o comportamento da água no espaço e uma tentativa de Liam Neeson de improvisar em comédia - provaram ser tão congruentes entre amigos, ao serem comparados com os padrões vistos entre pessoas que não são amigas, que os pesquisadores conseguiram prever a força dos laços sociais entre duas pessoas apenas com o registro de suas atividades cerebrais.

“Deparei-me com a excepcional magnitude da similaridade entre os amigos”, afirmou Carolyn Parkinson, cientista cognitiva da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Carolyn e seus colegas, Adam Kleinbaum e Thalia Wheatley, da Faculdade de Dartmouth, em New Hampshire, relataram suas constatações na revista acadêmica Nature Communications.

“Considero um trabalho incrivelmente inovador”, afirmou Nicholas Christakis, especialista em biossociologia da Universidade Yale. “Ele sugere que amigos são parecidos entre si não apenas superficialmente, mas até na estrutura de seus cérebros”.

As descobertas apresentam provas fascinantes da vaga impressão que temos de que amizade vai além de assinalar as mesmas preferências nos perfis de Facebook. Trata-se de algo que chamamos de boa química.

“Nossos resultados sugerem possíveis similaridades na maneira com que amigos percebem e assimilam o mundo em volta de si”, afirmou Carolyn. “Esse processo compartilhado poderia fazer que as pessoas se dessem bem com mais facilidade e experimentassem o tipo de interação social integrada que pode parecer tão recompensador.”

O novo estudo é parte de um crescente interesse da ciência na amizade. Por trás do entusiasmo está a evidência demográfica de que a falta de amigos pode ser prejudicial e cobra um preço físico e emocional comparável ao de outros fatores de risco mais comuns, como obesidade, hipertensão, falta de exercícios ou tabagismo.

Os cientistas querem saber o que, exatamente, faz com que as amizade sejam tão benéficas para a saúde - e estão reunindo pistas instigantes.

Nicholas Christakis e outros cientistas demonstraram recentemente que as pessoas com fortes vínculos sociais apresentam concentrações relativamente baixas de fibrinogênio, uma proteína associada ao tipo de inflamação crônica apontada como fonte de muitas doenças.

Pesquisadores também têm se intrigado com as evidências de amizade entre os animais - e não apenas entre os candidatos óbvios, como primatas, golfinhos e elefantes.

Gerald G. Carter, do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical no Panamá, e seus colegas relataram no ano passado que fêmeas de morcegos-vampiro não aparentadas mantêm entre si relacionamentos próximos e compartilham refeições com essas amigas em tempos difíceis - uma atitude que salva vidas entre animais que não conseguem sobreviver muito mais do que um dia sem comida.

Ao longo de anos analisando os comportamentos de um grande bando de chapins-reais, Josh A. Firth, da Universidade de Oxford, e seus colegas de trabalho descobriram que os passarinhos mostravam individualmente claras preferências por determinados membros do bando em detrimento de outros. Quando um bom amigo de algum passarinho morria ou desaparecia, o chapim que ficava começava a se abrir para que outros passarinhos substituíssem o camarada perdido.

Em sua nova pesquisa, Carolyn enfatiza que ela e seus colegas ainda não sabem o que significam os padrões de respostas neurais: que atitudes, opiniões, impulsos ou aflições mentais as tomografias estariam detectando.

Eles planejam agora realizar o experimento de maneira reversa: analisar os sinais de estudantes novatos que ainda não se conhecem e verificar se aqueles com os padrões neurais mais similares acabam se tornando bons amigos.

Alexander Nehamas, professor de filosofia da Universidade de Princeton, em Nova Jersey, afirmou a respeito do estudo: “Tomadas em conjunto, as escolhas estéticas que fazemos, as coisas de que gostamos, nosso gosto a respeito de artes plásticas, peças de teatro, TV, decoração, representam componentes absolutamente essenciais de nosso caráter, uma indicação de quem somos”.

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