Mayandi Sivaguru, Jessica Saw, do Bruce Fouke Lab, Carl R. Woese Institute for Genomic Biology, University de Ilinois
Mayandi Sivaguru, Jessica Saw, do Bruce Fouke Lab, Carl R. Woese Institute for Genomic Biology, University de Ilinois

Cientistas descobrem semelhanças entre pedras nos rins e recifes de corais

A pesquisa também mostra que os cálculos renais podem apresentar detalhadamente a história dos rins

Emily Baumgaertner, The New York Times

06 Outubro 2018 | 06h00

As pedras nos rins, ou cálculos renais, que afetam mais de 10% da população mundial, são surpreendentemente dinâmicas e formam-se como microscópicos recifes de corais, segundo uma nova pesquisa que poderá proporcionar a possibilidade de melhor diagnosticar e tratar esta doença.

As descobertas, publicadas no mês passado na revista “Scientific Reports”, desafiam os pressupostos de grande parte da medicina, segundo a qual as pedras renais são homogêneas e não solúveis. Ao contrário, elas se assemelham a recifes coralíferos em nanoescala ou a formações de calcário: complexas pedras estratificadas que se acumulam e dissolvem com o tempo.

"Quando os médicos encontram aquele calombo feio e incômodo e o descartam, estão jogando fora o mais precioso livro de registros que nós temos - uma história em camadas, minuto a minuto, da fisiologia dos rins", disse Bruce Fouke, professor de Geologia e Microbiologia da Universidade de Ilinois, que chefiou o projeto.

"Quando quebramos as pedras renais cirurgicamente, algumas delas são realmente muito bonitas - como um geodo, como os anéis de uma árvore, ou algo que penduraríamos na parede", explicou Brian Matlaga, urologista e cirurgião especialista em cálculos renais do hospital Johns Hopkins, em Maryland. "Por isso a pesquisa neste campo é tão interessante - e muito recente".

Fouke, cujos projetos de pesquisa levaram ao Parque Nacional de Yellowstone e à Grande Barreira de Corais da Austrália, viu as primeiras conexões entre as pedras dos rins e os esqueletos de corais, o travertino das fontes termais e até mesmo a migração de petróleo e gás bem abaixo da superfície do planeta: interações entre coisas vivas, água e crescimento de minérios ocorrem em todos os três.

"A água que sai das fontes de Yellowstone é quente e salgada, como a água do mar e, inclusive, a urina", disse. "Não se consegue separá-las ao microscópio", explicou em relação aos intrincados depósitos de pedras que esses líquidos ajudam a formar.

Fouke e seus colegas pesquisadores examinaram mais de 50 fragmentos de pedras renais de seis pacientes usando vários microscópios de luz e eletrônicos. Eles identificaram matéria orgânica e cristais de cálcio com luz ultravioleta, que usa diferentes comprimentos de onda para fazer que minerais distintos brilhem.

Um método, chamado microscópio de super-resolução Airyscan, captou instantâneos coloridos de matéria orgânica e camadas de cristal nas pedras renais, "recortadas e truncadas" por rachaduras mais recentes, triângulos e outras formas geométricas. Os padrões desagregadores das pedras mostraram que a maior parte do material se dissolveu e voltou a se formar ao longo do tempo.

O estudo credita ao trabalho de alguns geólogos revolucionários ao longo dos séculos o fato de ter inspirado sua hipótese - principalmente o anatomista dinamarquês Nicolaus Steno, que em 1667 propôs que a pedra estratificada poderia revelar uma história cronológica dos acontecimentos (ele teria morrido de pedras nos rins).

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