Kristian Thacker para The New York Times
Kristian Thacker para The New York Times

Cientistas estão ensinando o corpo a aceitar órgãos transplantados

Método prevê 'treinar' sistemas imunológicos dos pacientes antes dos transplantes

Gina Kolata, The New York Times

04 Fevereiro 2019 | 06h00

Não era o sinal mais ameaçador de um problema de saúde, apenas um sangramento pelo nariz que ele não conseguia estancar. Por isso, em fevereiro de 2017, Michael Schaffer, 60 anos, que mora na Pensilvânia, no começo procurou um pronto-socorro, e depois um hospital, onde um médico finalmente conseguiu cauterizar um pequeno corte na narina.

O médico explicou então a Schaffer que ele precisava de um transplante de fígado. Schaffer não tinha a menor ideia de que o seu fígado estivesse falhando. E nunca ouvira falar do diagnóstico: doença hepática gordurosa não alcoólica. Ela pode não apresentar sintomas óbvios, mesmo que esteja destruindo o órgão. O sangramento pelo nariz era um sintoma de que o fígado de Schaffer não estava produzindo as proteínas necessárias para que o sangue coagulasse.

Os médicos pediram a Schaffer que concordasse em tornar-se o primeiro paciente de uma experiência que tentaria algo com que os cirurgiões especialistas em transplantes vêm sonhando há mais de 65 anos. Se funcionasse, ele receberia a doação de um fígado, sem a necessidade de tomar drogas potentes para impedir que o seu sistema imunológico o rejeitasse.

Antes da descoberta de drogas contra a rejeição, os transplantes de órgãos eram impossíveis. A única maneira de o organismo aceitar um órgão doado era suprimir a resposta imunológica. Mas as drogas eram perigosas, e aumentavam o risco de infecção, câncer, elevados níveis de colesterol, e acelerava o aparecimento de uma cardiopatia, diabetes e falência dos rins.

No prazo de cinco anos depois de um transplante de fígado, 25% dos pacientes em média morriam. No prazo de dez anos, de 35 a 40%. “Embora o fígado esteja funcionando, os pacientes podem morrer de enfarte, derrame ou de falência dos rins”, explicou Abhinav Humar, cirurgião do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh que chefiou o estudo. “Talvez não seja inteiramente devido aos remédios contra a rejeição, mas eles contribuem”.

Os pacientes em geral sabem dos riscos das drogas, mas a alternativa é pior: a morte dos que precisam de fígado, coração ou pulmões; ou, no caso dos pacientes com problemas nos rins, uma vida em que a pessoa precisa de um aparelho de diálise, com uma expectativa de vida e uma qualidade de vida ainda pior do que um transplante.

Em 1953, Peter Medawar e seus colegas na Grã-Bretanha realizaram um experimento com um resultado tão impressionante que ele foi um dos ganhadores do Prêmio Nobel por sua realização. Ele mostrou que era possível “treinar” o sistema imunológico dos camundongos para que eles não rejeitassem o tecido transplantado de outros camundongos.

O estudo gerou uma busca científica para encontrar a maneira de treinar o sistema imunológico de adultos necessitados de novos órgãos. Até agora, a maior parte da pesquisa científica tem se concentrado em pacientes que precisam de transplantes de fígado e de rins, disse James Markmann, especialista em transplantes do Massachusetts General Hospital.

Estes órgãos podem ser transplantados de doadores vivos, a fim de que as células do doador estejam disponíveis para serem usadas na tentativa de treinar o sistema imunológico do paciente que receberá o transplante. Quanto mais os pesquisadores aprendiam sobre a sinfonia das células brancas do sangue que controlam as reações a infecções e cânceres - e aos órgãos transplantados - mais começaram a ver alguma esperança de modificar o sistema imunológico do organismo.

Muitos tipos de células brancas trabalham juntos para criar e controlar as respostas imunológicas. Vários pesquisadores optaram por concentrar-se nas células chamadas linfócitos reguladores T. Trata-se de linfócitos raros que ajudam o organismo a identificar suas próprias células como não externas. Se estas células faltam ou estiverem comprometidas, as pessoas poderão contrair doenças em que o sistema imunológico do organismo ataca seus próprios tecidos e órgãos.

A ideia é isolar as células reguladoras T de um paciente prestes a receber um transplante de rins ou de fígado. Então os cientistas tentam cultivá-las no laboratório juntamente com células do doador. Dali, as células T são transferidas de volta para o paciente. O processo, esperam os cientistas, ensinará o sistema imunológico a aceitar o órgão doado como parte do organismo do paciente.

Outro plano é modificar as células de um sistema imunológico diferente, chamadas células dendríticas reguladoras. Como as células T reguladoras, elas são raras e permitem ao restante do sistema imunológico distinguir o que é seu do que não é. Uma vantagem das células dendríticas reguladoras é que os pesquisadores não precisam isolá-las e cultivá-las em quantidades suficientes. Ao contrário, os cientistas podem incentivar um tipo de célula mais abundante - linfócitos imaturos - a se transformarem em células dendríticas em pratos de Petri.

As células T reguladoras também precisam permanecer na corrente sanguínea a fim de controlar a reação imunológica, enquanto as células dendríticas não precisam permanecer por muito tempo - elas controlam o sistema imunológico durante uma breve jornada através da circulação. Quando Schaffer recebeu a notícia de que precisava de um fígado e que poderia ser o primeiro paciente na experiência clínica do grupo, encolheu os ombros. “Alguém precisa ser o primeiro”, disse. 

A operação foi realizada em setembro de 2017. Depois disso, Schaffer teve de tomar 40 comprimidos diários para evitar infecções e reprimir o sistema imunológico enquanto o seu organismo aprendia a aceitar o novo órgão. Mas agora ele toma apenas um. E os médicos esperam que possa deixar de tomar remédio. Para Schaffer, tudo vale a pena. “O meu objetivo é viver até os 100 anos e levar um tiro na cama de um marido ciumento”, brincou. 

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