Beawiharta Beawiharta/Reuters
Beawiharta Beawiharta/Reuters

Cientistas investigam encolhimento de humanos e elefantes

Em uma ilha na Indonésia, perdura o mistério sobre por que espécies que chegaram à região na Antiguidade estão encolhendo

Carl Zimmer, The New York Times

17 Agosto 2018 | 15h15

Em 2003, pesquisadores que escavavam uma caverna nas montanhas da ilha de Flores, na Indonésia, descobriram fósseis de um pequeno indivíduo semelhante aos humanos, com um pequeno cérebro comparável ao de um chimpanzé. A espécie foi batizada de Homo floresiensis.

Esses parentes dos humanos modernos tinham pouco menos de um metro de altura, e vários vilarejos da região são habitados por pessoas cuja média de altura é aproximadamente um metro e meio. Seria este o resultado de uma reprodução cruzada séculos atrás entre humanos modernos mais altos e o Homo floresiensis, mais baixo? Quinze anos após a descoberta dos ossos, um estudo do DNA dos habitantes atuais de Flores trouxe um veredicto.

"Na ciência, é raro quando tentamos responder a uma pergunta e encontramos uma resposta definitiva, encerrando a questão", disse Richard E. Green, geneticista e coautor do estudo.

Mas, como ocorre com frequência na ciência, a resposta a uma pergunta suscita novas dúvidas. O estudo mostra que em pelo menos duas ocasiões na história antiga, os humanos e seus parentes (conhecidos como Hominini) que chegaram a Flores começaram a encolher.

Outras pesquisas mostraram que os elefantes também chegaram a Flores duas vezes e, em ambas as ocasiões, as espécies evoluíram para elefantes anões. Assim, qual seria o misterioso poder dessa ilha que faz o corpo encolher?

A datação inicial dos fósseis do Homo floresiensis foi calculada em torno de 13 mil anos.

Em 2007, Herawati Sudoyo, um geneticista da Indonésia, levou amostras de fósseis do Homo floresiensis para o geneticista Richard E. Green, na Alemanha. Green e seus colegas não conseguiram obter respostas definitivas do DNA.

Anos mais tarde, porém o geneticista e seus colegas fizeram duas importantes descobertas. Eles constataram que havia reprodução cruzada entre humanos e neandertais. E os pesquisadores descobriram também um ramo distinto dos Hominini, conhecido como Denisovanos, que também mantinha reprodução cruzada com os humanos.

Em 2013, Green e Sudoyo organizaram uma viagem a Flores para visitar o vilarejo de Rampasasa, perto da caverna, onde Sudoyo e um assistente de pesquisas recolheram amostras de saliva de 32 aldeões.

Outros cientistas estavam analisando os fósseis de Homo floresiensis sob uma nova perspectiva e perceberam que fósseis tinham pelo menos 60 mil anos.

A descoberta resultou numa janela muito mais estreita durante a qual os humanos modernos poderiam ter coabitado a ilha de Flores - e se reproduzido - com o Homo floresiensis.

Os pesquisadores descobriram que um porcentual muito pequeno do DNA dos aldeões vinha de neandertais ou Denisovanos. Uma pequena porção não correspondia aos humanos, neandertais ou Denisovanos.

Os aldeões de Rampasasa não são baixos por serem parcialmente descendentes do Homo floresiensis. Em vez disso, seus ancestrais eram humanos mais altos.

Mas, em algum momento, depois de terem chegado a Flores, eles se tornaram muito baixos - como ocorreu com o Homo floresiensis antes deles. Os humanos desenvolveram corpos de pigmeu em outras ilhas. Pequenas populações desenvolveram baixa estatura em florestas tropicais da África, América do Sul e outros locais.

Os aldeões de Rampasasa são portadores de muitas variantes de genes que estão associados à baixa estatura. A seleção natural favoreceu variantes antigas em vez de mutações. Uma das principais hipóteses para a evolução do corpo pigmeu é a escassez de comida. Um corpo menor exige menos calorias e pode trazer vantagens para a sobrevivência.

"Sejam quais forem os fatores ecológicos para o nanismo na ilha, eles estão abundantemente presentes aqui", disse o o geneticista Richard E. Green a respeito de Flores. "É isso que torna o lugar tão fascinante".

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