Emile Dicke para The New York Times
Emile Dicke para The New York Times

Operação contra cientistas gera indignação sobre repressão de Putin

Policiais interrogaram o diretor do instituto por seis horas a respeito de um suposto complô para a exportação de janelas de vidro de uso militar

Andrew Higgins, The New York Times

13 de novembro de 2019 | 06h00

MOSCOU - O Instituto Lebedev de Física de Moscou contribuiu para a União Soviética detonar a sua primeira bomba nuclear, descobriu como construir uma bomba de hidrogênio e, há dezenas de anos, está na vanguarda das realizações científicas russas. De fato, sete dos seus cientistas ganharam o Prêmio Nobel. Portanto, recentemente, foi um verdadeiro choque quando as salas do instituto foram invadidas de surpresa por forças de segurança mascaradas, munidas de amas automáticas.

Os policiais vasculharam o escritório do diretor do instituto, Nikolai N. Kolachevski, e o interrogaram por seis horas a respeito de um suposto complô para a exportação de janelas de vidro de uso militar. Posteriormente, ele denunciou a incursão como um “espetáculo mascarado”, como os russos descrevem as intervenções exorbitantes das forças da lei.

A operação provocou mais uma rodada do que se tornou um jogo de salão para a inteligência da Rússia: tentar descobrir por que razão “siloviki”, ou “integrantes da força” - policiais, membros da inteligência e oficiais militares - agiram de maneiras que contrastam com os objetivos declarados da política do presidente Vladimir Putin.

Além disso, este foi mais um exemplo sombrio do motivo pelo qual a Rússia tem tido tanta dificuldade para diversificar a sua economia. Há anos, Putin recorreu aos cientistas e usou os seus talentos excepcionais para a construção de uma economia moderna. No entanto, os que tentam fazer isto correm um serio risco de sofrerem invasões. Os casos costumam arrastar-se meses ou anos, destruindo praticamente as carreiras dos suspeitos, embora, no fim, eles possam ser exonerados.

Este mês, em reunião com comandantes das forças de segurança no Kremlin, Putin elogiou o Serviço Federal de Segurança - conhecido como FSB, o sucessor do braço interno da KGB da era soviética - por sua crescente atuação na “segurança integrada da Rússia”, embora admitisse que as agências de segurança precisam trabalhar no “fortalecimento da confiança da sociedade em sua ação”.

Quando entraram no Instituto Lebedev de Física, os agentes realizaram incursões simultâneas contra cientistas e membros de suas famílias. O alvo principal foi aparentemente Olga Kanorskaya, 36 anos, filha de um cientista do Lebedev e dona de uma empresa que, no escritório que ela alugava no Instituto, vendia vidros especiais.

Os policiais invadiram o seu apartamento, enquanto outra equipe realizava buscas no dos seus pais. Eles revistaram os seus pertences em busca de provas que corroborassem a acusação, segundo ela “totalmente fictícia” - de que ela tentara exportar vidro com possíveis aplicações militares para a Alemanha, crime que é punido com uma pena sete a 20 anos de cadeia.

Ela foi levada para interrogatório pelos investigadores da polícia e por um oficial da FSB. O conselho científico do instituto Lebedev lamentou em um documento que as invasões tenham “provocado um dano colossal à fama da instituição e que os órgãos policiais tenham desacreditado a si próprios perante a comunidade científica”.

O conselho acrescentou que tais ações das forças de segurança “seriam inimagináveis em um país civilizado, em que as agências da lei se preocupam com problemas reais, e não inventados”. A invasão do instituto de física gerou uma série de teorias a respeito do que poderia estar acontecendo. Uma das explicações aventou a possibilidade de o caso estar relacionado à proximidade das eleições na Academia Russa de Ciências, e de rivalidade entre o Instituto Lebedev de Física e o Instituto Kurchatov, um centro de pesquisa nuclear.

Outra teoria é que o FSB simplesmente precisava de um caso de contrabando relacionado à área da defesa para incluir em seu relatório anual, antes do final do ano. E outra ainda seria que uma empresa concorrente, com ciúme das vendas ao exterior da companhia de Kanorskaya, teria subornado os serviços de segurança para acabar com a rival.

Por enquanto, nem Kanorskaya, seu pai, Sergei, nem Kolachevski, o diretor do instituto Lebedev, foram formalmente acusados. Qualquer que seja a razão da incursão, disse Kolachevski, “não há nada de particularmente surpreendente nisto. Tudo se enquadra no script da ‘caça às bruxas’ que vem ganhando novo impulso a cada ano”. / Sophia Kishkovski contribuiu para a reportagem. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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