Mary Turner / The New York Times
Mary Turner / The New York Times

Cientistas tentam desvendar mistérios do 'gene da dor'

Mutações genéticas encontradas em uma paciente que nunca sentiu dor contribuem para o desenvolvimento de uma nova categoria de analgésicos

Heather Murphy, The New York Times

12 de abril de 2019 | 06h00

Disseram a ela que o parto seria doloroso. Mas as horas foram passando e nada parecia incomodá-la, mesmo sem a anestesia epidural. “Eu sentia que meu corpo estava mudando, mas não era algo que doesse", lembrou Jo Cameron, hoje com 71 anos. Ela comparou a sensação a “cócegas". Foi apenas recentemente – mais de quatro décadas mais tarde - que ela descobriu que os amigos não estavam exagerando.

O fato é que havia algo diferente na maneira com que o corpo dela sentia dor: na maioria dos casos, simplesmente não sentia. Os cientistas acreditam ter descoberto por quê. Em um estudo publicado no mês passado na British Journal of Anaesthesia, pesquisadores atribuíram a nada dolorosa vida de Jo a uma mutação num gene que não tinha sido identificado anteriormente. Eles dizem que a esperança é que a descoberta possa contribuir para o desenvolvimento de algum tipo novo de tratamento para a dor. 

Acreditam que essa mutação pode estar ligada à razão pela qual Jo sentiu pouca ansiedade e medo ao longo da vida, e também pela qual seu corpo cicatriza mais rapidamente. “As mutações nos ensinam alguma coisa, apontando para um gene em particular como alvo para medicamentos novos e mais potentes contra a dor", disse o neurologista Dr. Stephen G. Waxman, da Universidade Yale, em Connecticut, autor de Chasing Men on Fire: The Story of the Search for a Pain Gene (Perseguindo homens em chamas: a história da busca pelo gene da dor).

Há cerca de cinco anos, Jo disse que levava uma vida feliz e comum nas margens do Loch Ness, na Escócia, com o marido. Depois de fazer uma operação na mão, um médico ficou perplexo ao ver que ela não dizia sentir dor nem tomava analgésicos. “Garanto que não vou precisar de nada", Jo lembra de ter dito ao Dr. Devjit Srivastava, um dos autores do estudo.

Ela disse que, aos 65 anos, teve de substituir o quadril. Como não sentia dor, ela não percebeu nada de errado até que o osso ficasse muito degenerado. Cortes, queimaduras e fraturas pareciam não incomodar. Com frequência, ela só percebia que havia algo de errado quando sentia o cheiro da pele queimada ou quando o marido identificava um sangramento.

Srivastava a encaminhou a uma equipe da University College, em Londres, dedicada a abordagens genéticas para a compreensão da biologia da dor e do toque. Ao investigar o perfil genético dela, o doutor James Cox, membro desse grupo e também autor de um novo estudo, constatou que não se assemelhava ao de outras pessoas que dizem viver sem sentir dor.

Finalmente, ele encontrou o que procurava em um gene que os cientistas chamam de FAAH-OUT. No caso de Jo, “a paciente apresenta uma agenesia que remove a parte frontal do gene", explicou. Até conversar com Srivastava, a dor era algo que nem passava pela cabeça da paciente. Talvez isso fosse ajudado pelo fato de cortes e queimaduras raramente deixarem cicatrizes nela - uma características que os cientistas acreditam também estar ligada à mutação.

Os cientistas também estão intrigados com a baixíssima ansiedade apresentada por ela. Em um questionário de avaliação da ansiedade, Jo não marcou nenhum ponto de 21 possíveis. Não se lembra de nenhum momento em que tenha se sentido deprimida ou assustada. “Sou muito feliz", garantiu.

Os pesquisadores disseram que vão agora se concentrar em compreender melhor o funcionamento do FAAH-OUT para que possam desenvolver uma terapia genética ou outro tratamento para a dor a partir dele. O médico Waxman se disse “bastante confiante na possibilidade daquilo que aprendemos com os genes ligados à dor levar ao desenvolvimento de uma categoria inteiramente nova de analgésicos". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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