Tony Wu/Minden Pictures
Tony Wu/Minden Pictures

Cientistas tentam desvendar o misterioso canto das baleias

Em constante evolução, a comunicação desses mamíferos é um dos maiores exemplos de evolução cultural no reino animal

Karen Weintraub, The New York Times

18 de janeiro de 2019 | 06h00

Às vezes, uma baleia quer apenas modular seu canto. Essa é uma das descobertas feitas recentemente pelos cientistas ao escutarem a conversa entre as baleias e prestar atenção em mudanças na tonalidade e no padrão do seu canto. Novos estudos indicam que as baleias estão constantemente evoluindo uma forma de comunicação que apenas começamos a compreender.

A maioria das baleias emite um vocalise, mas as baleias dentadas parecem preferir cliques e assobios. As baleias-jubarte, e talvez as baleias-da-Groenlândia, emitem cantos complexos com padrões repetidos, disse Michael Noad, professor-assistente da Universidade de Queensland, na Austrália. A maior pergunta de todas é: por que as baleias cantam?

A principal hipótese diz que as jubartes macho (apenas os machos cantam) estariam tentando atrair as fêmeas. Mas também é possível que elas mudem de tom quando há outro macho por perto, aparentemente para avaliar o tamanho e estado de saúde de um rival, disse Noad. Ainda não se sabe muito a respeito do motivo que leva os padrões melódicos das jubarte a serem mais complexos que os de outras baleias. Noad disse que isso pode ser o resultado de uma “seleção desenfreada”.

As primeiras jubartes que apresentaram cantos complexos tiveram sucesso tão mais expressivo no acasalamento que obtiveram uma vantagem evolutiva. O resultado disso foram animais muito grandes e ruidosos. Em um dos estudos, realizado pela Wildlife Conservation Society, com sede em Nova York, os pesquisadores rastrearam as jubartes pela costa oriental e ocidental da África. Publicado na revista Royal Society Open Science, o estudo confirmou que há interação entre as duas populações, destacando a sobreposição de suas vocalizações.

“Os machos de uma população de jubartes tendem a cantar o mesmo tipo de melodia, mas esta está constantemente mudando e evoluindo com o tempo", disse Melinda Rekdahl, da sociedade de preservação. “Acredita-se que seja um dos melhores exemplos de evolução cultural no reino animal.”

Alguns animais repetem sons com mais frequência do que outros, alguns cantam melodias “aberrantes”, e os mais jovens podem cantarolar variações da melodia dos adultos. As jubartes também alteram a melodia cantada com o passar do tempo. Um dos motivos pode ser a busca por alguma novidade, seja para si mesmos ou para as fêmeas. “Se estivesse nadando com 15 mil baleias e todos os machos cantassem a mesma melodia, eu ficaria louca", disse Rekdahl. É possível que “as fêmeas simplesmente queiram ouvir algo diferente”.

Jenny Allen, que fez seu doutorado sob orientação de Noad, encontrou um padrão inesperado entre as jubartes. Uma vez que suas melodias alcançam certo grau de complexidade, as jubartes as abandonam, começando com outra, mais simples. O estudo dela foi publicado na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences.

“Este claro padrão de oscilação foi algo inesperado", disse Allen, que agora faz sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Queensland. Supondo que as canções sirvam para atrair as fêmeas, “é possível que começar uma melodia nova seja considerado mais atraente do que dar continuidade à mesma versão complicada de uma canção antiga", disse ela.

As canções das jubartes apresentam muitos padrões repetidos, o que talvez as torne mais fáceis de memorizar, como as rimas no fim dos versos ajudam na sua memorização, disse Allen. Ela também descobriu muitos elementos previsíveis nos padrões, comparando-os a canções pop criadas a partir dos mesmos acordes.

Pesquisadores da Universidade de Brest, na França, descobriram que o timbre das vocalizações da baleia-azul-da-Antártida, da baleia-azul-pigmeia e da baleia-comum caíram entre 2007 e 2016 no sul do Oceano Índico. Por causa da anatomia da baleia, um canto mais alto tem timbre mais agudo. As baleias se tornaram um pouco mais silenciosas, disse Emmanuelle Leroy, agora pesquisadora da Universidade de Nova Gales do Sul.

A equipe dela trabalha com duas hipóteses. Com a recuperação das populações após o fim da caça comercial às baleias, talvez os animais não precisem mais que seus cantos viagem até longe para serem ouvidos. Ou quem sabe a crescente acidez dos oceanos por conta da mudança climática faça com que o canto tenha maior alcance natural, permitindo que as baleias reduzam seu volume.

A pesquisa deles, publicada na revista Geophysical Research: Oceans, também mostrou que o timbre das baleias-azuis-da-Antártida ficou mais agudo durante a primavera e o verão. Essa pode ser a resposta das baleias para a ruidosa movimentação dos icebergs. Esses sons extremamente altos - como o gelo se partindo num copo de gelo - tornam mais difícil para que as baleias escutem umas às outras, o que as leva a aumentar o volume, disse Leroy.

Em outro estudo, pesquisadores do Instituto Oceanográfico Woods Hole, em Massachusetts, descobriram que baleias-piloto de barbatana curta encontradas no litoral do Havaí têm seus próprios dialetos, indicando que diferentes grupos evitam uns aos outros deliberadamente. A pesquisa proporciona um entendimento melhor dos laços sociais entre os grupos de baleias, disseram os pesquisadores, algo que poderia promover o entendimento da sua diversidade genética e evolução, bem como preservação.

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