Steven K. Schmidt
Steven K. Schmidt

Cientistas encontram vida nas alturas estéreis deste vulcão chileno

Descobertas exemplificam como vida na Terra avança constantemente além dos limites esperados

Joanna Klein, The New York Times

19 de agosto de 2019 | 06h00

No deserto do Atacama, o vulcão Llullaillaco é Marte na Terra - ou algo bem parecido. A 6.700 metros acima do nível do mar, este é o segundo vulcão ativo mais alto da Terra. Grande parte da montanha é uma paisagem árida, vermelha, de rocha vulcânica e poeira, com um ar fino, seco, luz solar intensa e fortes ventos. Embora o solo possa esquentar até os 32º Celsius, as temperaturas do ar é raro subirem além do congelamento.

Ocasionalmente, a neve se amontoa em bancos formados pelo vento, que depois derretem em espirais geladas de até cinco metros de altura. Os espanhóis as chamaram de “nieves penitentes”, porque pareciam monges encapuzados fazendo penitência. As condições no alto do vulcão o tornam aparentemente sem vida.

Mas uma equipe chefiada por Steven K. Schmidt, um microbiólogo da Universidade de Colorado Boulder, descobriu micróbios que vivem ao redor e no interior dos penitentes a 5.300 metros acima do nível do mar, ou cerca de 300 metros além do ponto em que a vegetação deixa de existir no Llullaillaco.

As descrições dos cientistas, publicadas recentemente em duas revistas especializadas, exemplificam como a vida na Terra avança constantemente além dos limites esperados - e pode até oferecer indicações de como ou onde a vida poderia existir em outras partes do sistema solar.

Schmidt imaginou que o vulcão poderia ser um lugar ideal para estudar os limites da vida na Terra, depois que ouviu falar de múmias de cerca de 3.500 anos desenterradas no local em 1999, estavam perfeitamente preservadas sem terem sido embalsamadas. O fato de não estarem deteriorado sugeria que as condições embaixo do solo vulcânico eram demasiado gélidas e secas para que qualquer tipo de vida pudesse sobreviver.

Mas, e mais perto da superfície, onde as condições ambientais variam? Schmidt sabia que haviam sido encontrados micróbios na tephra da superfície, o solo vulcânico. Entretanto, pouco se conhecia a respeito do topo ou dos penitentes. Em março de 2016, a equipe esperava colher amostras do solo do topo. Contudo, condições atmosféricas difíceis as obrigaram a explorar os campos dos penitentes. Estes se encontravam a uma altitude muito maior de onde pareceria que a vida poderia persistir.

Quando alguém notou uma neve vermelha na base de alguns penitentes, conjeturou que poderia ser neve melancia, uma alga encontrada em ambientes gelados. Os cientistas acreditam que os penitentes são o resultado de uma mescla inusitada de condições, como vento, flutuações de temperatura e raios ultravioletas do sol. À medida que minúsculos cortes em acumulações de neve derretiam, os penitentes cresciam.

Isto também libera água. A análise confirmou que as manchas vermelhas eram algas de neve. E os cientistas também encontraram cianobacterias, leveduras e até mesmo micróbios mais complexos no gelo e na tephra superficial montanha abaixo de onde os penitentes derretiam.

"Consideramos os penitentes um oásis nesta paisagem árida”, disse Schmidt, que oferece água e proteção aos micróbios carregados pelo vento que provavelmente eram dormentes antes que a água os reanimasse. E como os penitentes também são encontrados em Plutão e Europa, uma análise mais profunda poderá apontar o caminho para a descoberta de oásis com vida em outros mundos, também. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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