Janan Moein via The New York Times
Janan Moein via The New York Times

Elos entre cigarros eletrônicos e risco de covid se tornam mais claros

Os pesquisadores estão começando a perceber como a vaporização aumenta as chances de se pegar o coronavírus e sofrer seus piores efeitos.

Katherine J. Wu, The New York Times - Life/Style

20 de setembro de 2020 | 05h00

O jovem Janan Moein, 21 anos, experimentou seu primeiro cigarro eletrônico há uma ano. Nos últimos meses do ano, já estava consumindo vários cartuchos aditivados com THC por semana — de acordo com ele, mais do que a maioria suporta. Então, no início de dezembro, ele foi parar no pronto-socorro do Hospital Sharp Grossmont, em San Diego, com colapso em um dos pulmões e diagnóstico de doença pulmonar decorrente do uso de cigarros eletrônicos, conhecido como vaping.

Sua estadia no hospital culminou em um coma induzido, durante o qual ele usou um respirador e perdeu quase 25 quilos em apenas duas semanas. De acordo com Moein, em certo momento os médicos chegaram a considerar que as chances dele não passavam de 5%.

Ele decidiu que nunca mais usaria os cigarros eletrônicos. Quando desenvolveu um caso leve de covid-19 depois de participar de um churrasco de família três meses atrás, ele teve a certeza que escolheu o momento certo para abandonar o hábito de fumar. “Se eu pegasse covid-19 pouco antes da época em que adoeci muito, eu provavelmente teria morrido", disse ele. Desde o início da pandemia, os especialistas alertaram que o coronavírus — um patógeno respiratório — provavelmente se aproveita do tecido pulmonar danificado de fumantes.

Médicos e pesquisadores agora começam a identificar com mais precisão como o consumo de tabaco e cigarros eletrônicos parece ampliar a capacidade do vírus de se espalhar de uma pessoa para outra, infiltrando o tecido pulmonar e desencadeando alguns dos piores sintomas da covid-19.

“Não tenho dúvida que fumar e usar cigarros eletrônicos expõem as pessoas aos piores efeitos da covid-19", disse a pediatra Stephanie Lovinsky-Desir, especialista em pulmões da Universidade Columbia. “É claro que fumar e usar cigarros eletrônicos faz mal para os pulmões, e os sintomas predominantes da covid são respiratórios. A combinação entre hábito e doença será ruim.”

No ano passado, a crise de saúde ligada aos cigarros eletrônicos durante a qual milhares de pessoas como Moein adoeceram e foram hospitalizadas com quadros graves de doença pulmonar e respiratória sublinhou os males de muitos produtos do segmento dos cigarros eletrônicos, especialmente os cartuchos a base de maconha vendidos ilegalmente.

Mas enquanto numerosos estudos revelaram que fumar pode aumentar em mais de 100% o risco de desenvolvimento dos sintomas mais graves da covid-19, os dados a respeito da relação entre cigarros eletrônicos e covid-19 estão começando a vir à tona. Uma equipe de pesquisadores informou recentemente que jovens adultos adeptos do vaping apresentam cinco vezes mais risco de serem diagnosticados com o coronavírus.

Boa parte do que rege a relação entre tabagismo, vaping e o coronavírus segue inexplicado. Os médicos não sabem ao certo por que os cigarros eletrônicos deixam algumas pessoas muito doentes, mas parecem poupar outras. E o caso inesperadamente brando de Moein após contrair o coronavírus também é um mistério.

Essas e outras perguntas ainda sem resposta tornaram difícil a tarefa de informar ao público a respeito dos riscos do tabagismo e do vaping durante a pandemia. James Ippolito, de 26 anos, veterano do exército que vive em Hingham, Massachusetts, é viciado em cigarros eletrônicos de nicotina há seis anos, aproximadamente. “Fumo os cigarros eletrônicos o dia todo, todos os dias", disse Ippolito. A ameaça do vírus não o intimida.

“Detesto admitir, mas, se contraísse o vírus, eu seguria fumando — nem me passaria pela cabeça que pode haver uma relação entre as duas coisas", disse ele. Essa teimosia preocupa os especialistas, que apontaram que a covid não é a primeira doença a afetar mais os fumantes e adeptos dos cigarros eletrônicos. “Os pulmões não foram feitos para respirar fumaça regularmente nem usar cigarros eletrônicos", disse Drew Harris, especialista em pulmões da UVA Health, na Virgínia.

Ele acrescentou que esses produtos “causam todos os efeitos nocivos que você pode imaginar". Cerca de 34 milhões de adultos fumam cigarros nos Estados Unidos, e muitos deles são de comunidades negras ou de baixo status socioeconômico — grupos já considerados mais vulneráveis ao vírus. E mais de 5 milhões de estudantes do ensino fundamental e médio informaram recentemente fazer uso do vaping.

O conteúdo ativo dos cigarros e cigarros eletrônicos varia muito, desde a nicotina até o THC, ingrediente que produz o efeito narcótico da maconha. Mas muitos especialistas estão mais preocupados com os outros ingredientes que tendem a acompanhá-los: aditivos como metais pesados e acetato de vitamina E, que inundam o pulmão de toxinas e partículas ultrafinas capazes de envenenar ou pulverizar tecidos delicados.

Décadas de pesquisas revelaram como o tabagismo atrapalha o funcionamento do sistema imunológico. Acredita-se que o golpe das substâncias químicas nocivas incluídas em cada tragada desregule o sistema de freios e contrapesos necessário para direcionar as células e moléculas que combatem doenças para invasores nocivos como germes, ao mesmo tempo desarmando ataques equivocados contra tecidos saudáveis.

Um corpo prejudicado pelo hábito do tabagismo pode ter dificuldade em produzir uma defesa suficiente contra os vírus — mas não demora em voltar para dentro seu arsenal. No fim, pulmões deteriorados podem ficar cronicamente inflamados e inundados de muco, estreitando as passagens aéreas e sufocando o fornecimento de oxigênio para o sangue. Certos pacientes podem ficar com cicatrizes nos pulmões, impedindo ainda mais a movimentação do ar.

Lovinsky-Desir descreve a arquitetura interna desses tecidos como cachos de uvas cheias de gás, misturados a uma rede de vasos sanguíneos. “O tabagismo crônico destrói essas uvas", disse ela. “Elas se tornam murchas.” O tabagismo também pode prejudicar as pequenas estruturas semelhantes a cabelos conhecidas como cílios, que expulsam toxinas e micróbios das vias respiratórias. Com isso, patógenos têm mais facilidade de se instalar nos pulmões.

De acordo com Lovinsky-Desir, se um vírus entrar nessa dança, “o resultado será mais destruição", congestionando as uvas já danificadas com um coágulo de detritos celulares. Dados coletados ao longo de anos revelaram essas relações. Fumantes que ficam gripados, por exemplo, tem mais probabilidade de parar no hospital do que os não fumantes.

Menos é sabido a respeito do vaping, cujo início é relativamente recente. Mas tendências semelhantes foram observadas em relação aos cigarros eletrônicos e as canetas vape. Vários estudos mostraram que o vaping torna camundongos mais vulneráveis a bactérias e vírus, disparando surtos de inflamação pelo corpo para além dos limites dos pulmões.

Moein foi um dos milhares que, no ano passado, sucumbiram a uma doença chamada evali, sigla em inglês de dano pulmonar ligado ao vaping ou aos cigarros eletrônicos. Muitos pacientes com evali tinham usado nos cigarros eletrônicos uma substância viscosa chamada acetato de vitamina E, encontrado nos cartuchos da marca Dr. Zodiak dos quais Moein gostava. Moein ainda lembra em detalhes do período que passou no hospital.

“Meus lábios ficaram azuis", disse ele. “Tiveram que fechar meus olhos com esparadrapo. O tempo todo eu alucinava pensando que as enfermeiras iam me matar, que as paredes eram feitas de pele humana. Foi uma situação bem difícil.” Agora, quase um ano mais tarde, Moein, alto e atlético, habituado a participar de esportes no ensino médio, disse se sentir “muito saudável” novamente.

Mas Laura Crotty Alexander, especialista em pulmões e vaping da Universidade da Califórnia, em San Diego, e uma das médicas que atenderam Moein, disse que os especialistas ainda estão determinando quais seriam os potenciais efeitos dos cigarros eletrônicos no longo prazo, mesmo se usados por períodos mais curtos do que ele. “O fato dele e se sentir 100% recuperado não significa que seu funcionamento pulmonar foi 100% restaurado", disse ela.

Depois de um surto em setembro do ano passado, as visitas ao pronto socorro ligadas à evali diminuíram muito. Mas os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças não atualizam sua contagem de casos desde fevereiro, deixando os especialistas preocupados com a possibilidade de os riscos ligados ao vaping terem sido esquecidos. “Isso não desapareceu dos pacientes", disse Michelle Eakin, especialista em doença pulmonar da Universidade Johns Hopkins.

Crotty Alexander destacou que ela e outros pesquisadores tiveram dificuldade para acompanhar muitos dos casos de evali do ano passado, paradoxalmente graças a uma pandemia que pode ter sido especialmente dura para alguns desses pacientes. Evidências iniciais apontam que o vírus pode encontrar mais facilidade para infectar os corpos de quem fuma.

O tabagismo parece alterar a superfície de determinadas células, levando-as a se revestirem com uma maior quantidade de uma molécula chamada ACE-2 — a proteína usada pelo coronavírus para invadir seus alvos. “Se há mais expressão, teremos mais vírus invadindo as células", disse Crotty Alexander. “Agora, vejo dados semelhantes sendo reunidos em relação ao vaping.”

Sobreposto às formas com que o vaping enfraquece os pulmões, esse padrão pode ajudar a explicar por que um levantamento recente envolvendo mais de 4 mil pessoas com idades entre 13 e 24 anos identificou que o vaping estava muito vinculado ao contágio pelo coronavírus. Mas Bonnie Halpern-Felsher, pesquisadora em pediatria da Universidade Stanford e uma das autoras do estudo, disse que isso não deve decorrer apenas da biologia.

Pessoas que usam cigarros eletrônicos costumam fazê-lo socialmente, compartilhando espaços e equipamentos. E, como fumar, o vaping envolve muito contato com as mãos e a boca, facilitando o caminho dos germes para as vias respiratórias, disse Michelle. “E quem está fumando ou usando cigarro eletrônico abada tirando a máscara”, disse ela. Ainda não sabemos como serão as consequências da covid no longo prazo para aqueles que fumavam ou usavam cigarros eletrônicos.

O acúmulo de evidências indica que o coronavírus pode causar grande estrago nos glóbulo sanguíneos, criando coágulos que sufocam e distorcem os tecidos, incluindo os pulmões — provavelmente tornando o uso de cigarros eletrônicos e o tabagismo ainda mais perigosos após o caso de covid. “Alguns desses pacientes terão problemas permanentes", disse Anne Melzer, especialista em pulmões da Universidade de Minnesota.

Certos relatos iniciais indicam que algumas pessoas podem estar abandonando o cigarro e o vaping. Mas, com a reabertura das escolas para o ensino presencial, uma recaída pode ser fácil. E Lovinsky-Desir teme que o estresse causado pela pandemia pode levar algumas pessoas a fumarem ainda mais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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