Massimo Berruti/The New York Times
Massimo Berruti/The New York Times

Cinema ao ar livre na Itália vê ameaça de um setor cinematográfico em dificuldade

O que era uma tradição no verão agora esbarra na recusa de distribuidoras - fortemente atingidas pela pandemia de coronavírus - em liberar os filmes

Elisabetta Povoledo, The New York Times - Life/Style

05 de agosto de 2020 | 05h00

ROMA - Desde o nascer do cinema, os tórridos verões da Itália tornaram as apresentações de filmes em locais abertos sob as estrelas o entretenimento favorito da temporada.

Mesmo o Festival de Cinema de Veneza, em agosto de 1932, foi realizado no terraço do Hotel Excelsior, no Lido, ilha próxima do centro de Veneza.

Mas este ano diversas organizações culturais e sociais sem fins lucrativos lutam para realizar seus festivais de cinema de verão uma vez que as distribuidoras se recusaram a alugar muitos dos filmes requisitados, desde a série de Harry Potter a filmes como Infiltrado na Klan ou Bohemian Rhapsody.

A razão da recusa é que as organizações exibem os filmes com ingresso grátis, mesmo com o setor de cinema da Itália em uma situação difícil, com muitas salas fechada por causa do coronavírus.

“Usamos o cinema como um instrumento de coesão social, para criar uma comunidade e passar um tempo agradável juntos”, disse Luca Sandone do Laboratoio di Quartiere Giambellino Lorenteggio, grupo que exibe filmes gratuitamente num bairro de baixa renda de Milão, “onde as pessoas não podem ir ao cinema porque é muito caro”.

Normalmente a organização de Milão exibe dez filmes durante o verão. Este ano serão apenas quatro, uma vez que as cinco distribuidoras - Universal, Warner Bros, Disney, 20th Century Fox e Rai Cinema -, recusaram conceder os direitos de exibição dos filmes que a organização de Sansone escolheu com a participação dos moradores locais, disse ele.

“As distribuidoras nos informaram que se exibirmos os filmes sem cobrar ingresso elas não os fornecerão”, disse ele.

Pessoas ligadas à indústria dizem que a pandemia foi um abalo tão grande que colocou a sobrevivência do cinema na Itália em risco, e dar acesso totalmente grátis aos filmes só vai piorar a situação.

“Perdemos mais de 30 milhões de ingressos e mais de 200 milhões de euros, sem mencionar a perda de receita derivada das concessões de serviços de alimentos e outros rendimentos”, disse Mario Lorini, presidente da ANEC, associação dos proprietários de cinema que controla as quatro mil salas de cinema do país.

E as operadoras do setor observam que essas iniciativas gratuitas contam com financiamento público ou possuem patrocinadores.

O impasse é um novo capítulo num conflito que teve início há dois anos e que tem afetado outros grupos que exibem filmes gratuitamente por toda a Itália, incluindo um itinerante que percorre pequenas cidades na região central italiana atingidas por recentes terremotos, além de uma associação romana que começou a exibir filmes no bairro do Trastevere, em Roma, e agora organiza o evento em dois outros locais.

As distribuidoras recusaram a fornecer muitos filmes para a associação romana Piccolo America que ela foi obrigada a cancelar retrospectivas de filmes de Sergio Leone, Katherine Bigelow e Francis Ford Coppola, disse Valerio Carocci, líder da associação.

Carocci e outros organizadores acusam a Associação dos Proprietários de Cinemas, ANEC, e a Associação das Indústrias do Cinema e do Audiovisual, ANICA, de conspirarem para destruir essa programação gratuita.

A acusação desencadeou um inquérito por parte dos órgãos reguladores italianos que ficou público no mês passado quando a polícia realizou batidas em escritórios em Roma. A investigação que prossegue visa determinar se essas associações envolvidas num comportamento anticompetitivo violam uma lei sancionada pela União Europeia ou uma lei italiana. Tanto a ANICA como a ANEC negaram ter cometido irregularidades.

A disputa ocorre tendo como pano de fundo a pandemia do coronavírus e suas ramificações econômicas. Como um número incontável de outros setores, o cinematográfico e seus participantes, tais como cineastas e proprietários de salas de cinema, passam por grande dificuldade desde que os cinemas italianos fecharam em 8 de março, pouco antes da decretação do lockdown em todo o país.

Embora tenha sido autorizada a reabertura das salas em 15 de junho, apenas 540 voltaram a funcionar seguindo as diretrizes de segurança e distanciamento social, limitando a 200 o número de pessoas em espaços fechados. Muitos proprietários afirmam que não conseguem cobrir os prejuízos respeitando as regras.

A pandemia atingiu o país um ano depois de as associações ligadas ao setor cinematográfico e o ministério da Cultura começarem a promover a ida aos cinemas numa campanha intitulada Moviement.

A campanha funcionou, disse Lorini: os cinemas, tradicionalmente fechados durante o verão, permaneceram abertos. E a frequência aumentou 45% entre junho e agosto de 2019, com um aumento de 14% das receitas anuais mesmo com a entrada dos serviços de streaming no mercado italiano.

“Vínhamos de um bom período de revitalização e com uma boa ideia do futuro”, disse Lorini.

Apesar dos subsídios do governo italiano para o combate dos efeitos da pandemia, os proprietários de cinema ainda sofrem.

E os organizadores dos festivais de filmes com ingressos gratuitos afirmam que sofrem os efeitos colaterais, incapazes de conseguir os filmes que desejavam. Carocci disse que as distribuidoras negaram os direitos de exibição de mais de 150 filmes que ele pediu.

Um pedido para exibir o filme de Spike Lee, Infiltrado na Klan, no Guarimba Film Festival, em Amantea, cidade calabresa à beira-mar, foi um dos 60 títulos solicitados pelos organizadores cujo pedido não foi atendido.

“Queríamos exibir filmes que não eram conhecidos aqui”, disse Giulio Vita, organizador do festival. “Estamos falando de filmes de qualidade e não de concorrência desleal”.

“Ninguém na Calábria vai ao cinema quando está 50 ºC lá fora”, acrescentou.

Embora muitos cinemas tenham ar-condicionado, tradicionalmente não são os locais preferidos dos italianos no verão, como é o caso nos Estados Unidos e em outros lugares.

As distribuidoras acusadas de negar acesso aos seus filmes na maior parte estão silenciosas no tocante à disputa. Representantes da Universal não quiseram comentar o caso e os da Warner Bros não responderam ao pedido para se manifestarem. E a Rai Cinema e seu braço de distribuição disseram que deram os direitos de todos os filmes que tenham mais de três anos.

Outros envolvidos no setor afirmam que os caros investimentos na produção de filmes precisam ser valorizados e compensados.

“É um erro propor cultura e cinema a um custo zero”, disse Alessandro Giacobbe, diretor executivo da Academy Two, empresa de distribuição com sede em Gênova. “Especialmente este ano, quando os cinemas ficaram fechados durante meses e o setor passa por dificuldades”.

“A mensagem que tem de ser passada para o público é que filmes não devem ser assistidos de graça e que se você não pagar pela cultura, ela desaparecerá”, disse Giacobbe. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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