China Film Group, via The New York Times
China Film Group, via The New York Times

Cinema chinês chega atrasado, mas com sucesso, à corrida espacial

Produzido com orçamento generoso para os padrões do país, 'The Wandering Earth' não apresenta propaganda do governo da China

Steven Lee Myers, The New York Times

15 de fevereiro de 2019 | 06h00

PEQUIM - A China largou atrasada na exploração espacial e, no cinema, o país foi também um dos últimos a chegar à ficção científica. Mas isso está mudando. A primeira grande produção do país situada no espaço, The Wandering Earth, estreou no dia 5 de fevereiro em meio a elevadas expectativas de que o filme represente o início de uma nova era para a indústria cinematográfica chinesa.

O título faz parte de uma série de longas-metragens produzidos com orçamento generoso explorando um gênero que, até agora, estava além do alcance dos cineastas do país - tanto do ponto de vista técnico como financeiro. Entre os demais filmes estão títulos como Shanghai Fortress, que narra um ataque alienígena contra a Terra, e Pathfinder, a respeito de uma espaçonave que faz um pouso forçado num planeta deserto.

"Para os cineastas chineses, a ficção científica é vista como o Santo Graal", disse o crítico independente Raymond Zhou, destacando que Hollywood definiu um elevadíssimo parâmetro de comparação tecnológica, que orienta também as expectativas do público.

Projetado em 3D, The Wandering Earth se passa num futuro distante em que o sol está prestes a se transformar numa gigante vermelha e engolir a Terra. O perigo iminente obriga engenheiros de todo o mundo a desenvolver um plano para levar a Terra a um novo sistema solar usando propulsores gigantes. As coisas dão muito errado quando a Terra precisa passar perto de Júpiter, desencadeando uma corrida desesperada para salvar a humanidade da aniquilação.

As resenhas têm sido positivas. "É como se a indústria tivesse amadurecido", disse Zhou.

The Wandering Earth estreou durante o Ano Novo Chinês, marco inicial de uma semana de feriados que consiste no período de maior movimento nas bilheterias chinesas. O filme também foi lançado em algumas salas nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. 

No mercado doméstico, o título está concorrendo com Crazy Alien, uma comédia inspirada em ET, o Extraterrestre. Ambos os filmes são adaptados a partir de obras de Liu Cixin, primeiro autor chinês a receber o prêmio de ficção científica Hugo Award.

Os romances dele são épicos vastos e fruto de extensa pesquisa. Assim, tornam-se fantasias plausíveis a respeito do encontro da humanidade com um universo perigoso. Traduzi-los em filmes seria um desafio para qualquer cineasta, como reconheceu recentemente Guo Fan, diretor de The Wandering Earth.

Isso fez do filme, produzido pela Beijing Jingxi Culture & Tourism Company e a empresa estatal China Film Group Corp., um teste para a indústria.

Guo destacou que o público chinês reagiu com certa frieza a muitas superproduções de ficção científica de Hollywood. Assim, os estúdios da China temeram investir seus recursos na produção de títulos convincentes de ficção científica. Diz-se que o orçamento do filme chegou perto de US$ 50 milhões, cifra modesta para os padrões de Hollywood, mas expressiva para a China. Mais de 7 mil pessoas trabalharam na obra. 

"Se este filme não causar prejuízo, poderemos continuar produzindo filmes de ficção científica", disse Guo, cujo filme anterior, My Old Classmate, era uma comédia romântica.

Dois recentes títulos de Hollywood, Gravidade e Perdido em Marte, podem ajudar. Ambos retratam o programa espacial chinês de maneira positiva, e fizeram sucesso no país.

Em janeiro, a China alcançou um marco na exploração espacial: o pouso de um módulo de exploração no lado mais distante da Lua. A China tem planos ambiciosos para participar ou até liderar uma nova era de exploração espacial. 

"Me parece haver um elo forte entre o cinema chinês e as aspirações do país", explicou Sha Dan, curador da Cinemateca Chinesa.

O astro de The Wandering Earth é Wu Jing, herói da série de filmes Wolf Warrior, que investiu pessoalmente no projeto. Ele faz o papel de um astronauta a bordo de uma estação espacial que precisa lidar com um computador que lembra HAL, de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Diferentemente dos filmes da série Wolf Warrior, protagonizados por um herói ao estilo de Rambo nque combate vilões ocidentais, este filme não é marcado pela propaganda nacionalista. The Wandering Earth dá como certo o papel central da China na exploração espacial futura, mas apresenta também uma visão da colaboração internacional necessária para enfrentar as ameaças ao planeta, tema recorrente na ficção de Liu.

O autor destacou que os filmes de ficção científica na China remontam aos anos 1930, quando o diretor Yang Xiaozhong produziu títulos como Exchanged e Visiting Shanghai After 60 Years, mas tais obras foram praticamente esquecidas após a revolução comunista de 1949.

O filme Death Ray on Coral Island, de 1980, foi um fracasso de bilheteria e exemplo de cinema cafona. Poucas tentativas foram feitas desde então.

"Isso ocorre principalmente porque a sociedade chinesa é relativamente fechada e conservadora", respondeu Liu às perguntas feitas por escrito. "Não havia condições para que os filmes de ficção científica tivessem impacto".

Essas condições parecem favoráveis agora. Liu descreveu a experiência de ver The Wandering Earth na tela do cinema como "um abalo para a alma".

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