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A falta que faz ir assistir a um filme no escurinho do cinema

Para crítica, streaming não desperta os mesmos sentimentos da telona

Manohla Dargis, The New York Times

02 de abril de 2020 | 06h00

As salas de cinema foram fechadas, parte de um esforço necessário para impedir a disseminação do coronavírus, a coisa certa a se fazer, sem dúvida. Mesmo assim, os fechamentos me encheram de uma sensação de perda. Passei grande parte da vida vendo filmes no cinema.

Para aqueles que cresceram com filmes em casa, pode ser difícil entender por que alguém ainda se dá ao trabalho de ir ao cinema. Essa perplexidade se liga a uma série de constantes reclamações: ingressos caros, projeção ruim, junk food a preços abusivos, gente chata e egoísta no celular ou conversando. Não, não, melhor ficar em casa, relaxar e curtir mais uma série bem mais ou menos da Netflix. Mas ir ao cinema fez de mim quem eu sou, moldou meu mundo e minha identidade.

Tudo começou com meus pais, jovens boêmios e loucos por filmes que não conseguiam pagar babás e me levavam a todos os lugares, inclusive ao cinema. Isso foi em Nova York, meados da década de 1960, era heróica da cinefilia. Quando eu tinha 3 anos, eles me levaram para ver Sede de Viver, de Vincente Minnelli, um drama intenso e glorioso com Kirk Douglas no papel de Vincent van Gogh. Chorei tão alto quando van Gogh cortou a orelha que, diz minha mãe, alguns dos outros espectadores sorriram, como se estivessem tentando me acalmar e dizer que ia ficar tudo bem. Gosto de pensar que este foi o começo da minha vida no cinema.

Quando tinha 8 anos, meus filmes favoritos eram Orfeu, de Jean Cocteau, e Jules e Jim’, de François Truffaut, o que soa meio ridículo, mas é verdade. Quando fiquei mais velha, comecei a ir ao cinema sozinha. Vi um pouco de tudo, muitas vezes sem saber nada sobre o que estava vendo.

Muitas das minhas memórias estão ligadas ao cinema; algumas são de estar sozinha num cinema cheio de gente, o que é uma metáfora para minha vida, embora também seja uma metáfora para estar viva. Adoro rir e chorar e gritar junto com a plateia em êxtase. E, mesmo que agora vá ao cinema por ofício, também vou por prazer. Vou porque sou curiosa, porque gosto do diretor ou do astro principal. Vou porque estou feliz, ou angustiada, ou deprimida. Vou porque os filmes sempre me proporcionaram conforto, oferecendo uma fuga da realidade, mas também uma maneira de compreendê-la.

Quando escrevo sobre filmes, não escrevo sobre as pessoas com quem os assisti. Adoro Mad Max 2 - A Caçada Continua por muitas razões, mas, em certo sentido, o que faz com que o filme ainda seja tão importante para mim é o grupo de amigos, agora dispersos, com quem o vi. Sempre que assisto a O Silêncio dos Inocentes penso na minha amiga Amy e em como nos agarramos uma na outra quando o vimos pela primeira vez. Não consigo pensar em O Novo Mundo sem lembrar da sensação de estar no carro com meu marido depois da sessão, chorando, tomada pelas emoções que o filme desencadeou sobre o cinema, sobre a vida, sobre ele.

A cinefilia se transformou profundamente quando começou a era dos filmes em casa. Antes, você tinha que sair e adaptar seus desejos à programação das salas de cinema. Ver um filme exigia determinação. Hoje em dia, existem mais maneiras de assistir a filmes do que nunca, mas ainda prefiro vê-los na tela grande, mesmo que isso signifique enfrentar o trânsito da hora do rush em Los Angeles, onde moro agora. Respeito meus rituais cinéfilos: examinar os novos pôsteres, dar uma conferida na plateia, arranjar o assento perfeito e saborear o momento em que a sala se apaga antes que a tela se acenda.

Não adoro todos os filmes. Mas sempre adoro pensar nos filmes e em como eles são feitos e no que fazem em nós. É fácil entender por que um drama sobre um pai moribundo pode nos derrubar (ou fazer com que zombemos de seu sentimentalismo barato).

E se você começar a pisar um pouco mais fundo depois de ver ao último Velozes e Furiosos (sim, eu fiz isso), saiba que isso tem a ver com o que o neurocientista italiano Vittorio Gallese chama de “neurônios-espelho”, o mecanismo neural que dispara em nossos cérebros quando realizamos uma ação e quando vemos alguém realizar outra. A ideia é que, quando Vin Diesel acelera o motor, nosso cérebro reage como se também estivesse acelerando.

Por mais que os filmes criem sua mágica, eles o fazem por causa das outras pessoas: fazer filmes é um ato social, assim como ir ao cinema. E, ainda que você possa ver tudo sentado sozinho no seu sofá, ir a determinado local e se sentar no escuro com muitas outras pessoas é uma experiência bem diferente. É uma coisa extraordinária estar ali com tantas outras almas, ficar só, mas junto com todo mundo.

Com o distanciamento social, muitos de nós estão sozinhos agora. Quando enfim pudermos sair de novo e ficar perto uns dos outros, espero que inundemos as salas de cinema. Os filmes podem ser exasperantes, mas eles nos ajudaram a passar pelos piores momentos, até por crises econômicas e guerras.

Não há nada como deixar o mundo para trás e mergulhar num filme ao lado de amigos, familiares e todas as outras pessoas. Sinto falta disso. Sinto falta de você. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

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