Joyce Kim/The New York Times
Joyce Kim/The New York Times

Em 'Monsoon', Henry Golding está atrás de sua identidade (assim como na vida real)

Ator reflete sobre como interpretar um britânico-vietnamita tentando entender sua identidade ressoou nas sua própria experiência de vida

Isabella Kwai, The New York Times - Life/Style

12 de novembro de 2020 | 05h00

Henry Golding ficou encantado ao descobrir um visitante em seu quintal em Los Angeles. "É um pequeno beija-flor no meu bebedouro para beija-flores! Você pode ouvir?", disse ele, entusiasmado, virando a câmera de seu computador em direção à ave em uma entrevista recente via Zoom. É o tipo de momento delicado que Golding tem saboreado desde que trocou uma programação mundial de filmagem por um ritmo de vida mais lento em meio à pandemia.

Ex-apresentador de TV na Grã-Bretanha, Golding, de 33 anos, estrelou como o rico e cativante Nick Young em Podres de Ricos, em 2018, e desde então construiu rapidamente sua carreira interpretando personagens que pedem um toque jovial. No ano passado, ao lado de Hugh Grant e Matthew McConaughey, fez parte do elenco de estrelas de Guy Ritchie em Magnatas do Crime.

Mas seu novo filme, Monsoon (Monção, em tradução livre), escrito e dirigido por Hong Khaou, é uma empreitada mais introspectiva. No drama, Golding interpreta Kit, vietnamita britânico que retorna ao Vietnã pela primeira vez desde que partiu como refugiado aos três anos. De volta ao país para espalhar as cinzas de seus pais, Kit tenta se orientar nas ruas da cidade de Ho Chi Minh com parentes desconhecidos e em um novo relacionamento com um designer americano, Lewis (interpretado por Parker Sawyers).

A busca de Kit para entender sua identidade cultural será familiar para muitos de origem imigrante. O que significa a volta para casa quando você está retornando para um lugar – e para uma família – de que você mal se lembra? E o que significa fazer isso como um ocidental?

Na recente entrevista por vídeo, Golding falou de como seus sentimentos – "Nunca fui suficientemente asiático. Nunca fui inglês o suficiente" – no passado o ajudaram a entender Kit, comentou a experiência "mágica" que é participar de um filme independente e o que a representatividade em Hollywood significa para ele. A seguir, uma versão editada e resumida da conversa.

O personagem de Kit parece bem diferente daqueles que já vimos você interpretar. Como isso aconteceu?

A seleção do elenco para Monsoon começou antes de Podres de Ricos ser lançado. Eu estava nesse limbo de Hollywood em que ninguém sabia realmente no que eu estava trabalhando, e me apaixonei imediatamente pelo roteiro de Monsoon, não só porque era baseado no sudeste da Ásia, onde vivi durante dez anos, mas também por causa da jornada de autoanálise de Kit.

Quando jovem, vivendo entre essas duas culturas – meio malaio, meio inglês –, eu sempre ficava confuso em relação a quem eu era e que cultura eu representava. Nunca fui suficientemente asiático. Nunca fui inglês o bastante. Isso é uma coisa que Kit tem de resolver.

O diretor do filme, Hong Khaou, coloca isso muito bem: você é um produto de sua naturalização ou formação cultural? O fato de eu ter um passaporte britânico me torna britânico? Ou, porque nasci na Malásia, isso significa que sou malaio?

Monsoon explora a ideia de ter uma herança asiática, mas ainda assim experimentar um lugar com uma lente ocidental. Isso ressoou em você também?

Decidi voltar para a Malásia quando eu tinha 21 anos. Depois de deixar o país aos oito anos, cresci na região de Surrey e depois fui trabalhar em Londres. Foi chocante nos primeiros meses, a ponto de eu pensar: "Não sei o que estou fazendo aqui."

Há uma sensação de privilégio branco quando se trata de ser de diferentes origens na Malásia, por causa da percepção de que você é bem-educado ou de que seus pais são ricos – o que está longe da realidade –, por causa dessa arraigada noção colonial de supremacia. Eu nunca tinha experimentado isso no Reino Unido. Lá era como: "Ah, você é descendente de asiático". Nunca foi "isso é exótico, isso é único". Quando eu era pequeno, não havia muitas outras crianças como eu por lá. Agora é muito diferente.

Como você se preparou para interpretar um personagem vietnamita britânico?

Para esse personagem, quanto menos eu soubesse, melhor. Kit, como jovem vietnamita, realmente não tinha nenhuma conexão com essa parte de sua vida. Li muito sobre como esses imigrantes lutaram para chegar a países como o Reino Unido, e como isso impactou sua perspectiva. Eu tinha estado no Vietnã algumas vezes antes das gravações, por isso estava bastante familiarizado com o país do ponto de vista turístico.

Você disse que não estava seguro de assumir o papel, já que é heterossexual e Kit é gay. Como foi essa conversa com o diretor?

Foi uma conversa difícil. Sempre houve uma pergunta: esse papel me pertence? Hong fez teste com praticamente todo tipo de jovem asiático possível. Ele chegou à conclusão de que eu sabia o que Kit havia passado em certo sentido, portanto eu era a melhor pessoa para o trabalho. Por mim, vou me empenhar o melhor que posso e fazer justiça a esse jovem. Aceitar o papel foi a melhor decisão que tomei.

O que a representação da diáspora asiática significa para você? É esse o tipo de filme que você deseja fazer outras vezes?

Como ator, foi mágico ser capaz de acompanhar os sentimentos, a confusão e a história de um personagem. Tenho tentado encontrar material de qualidade como esse para trabalhar, estilos muito mais independentes de produzir filmes.

No entanto, quanto à representatividade, acho que é um longo caminho. Definitivamente, inovamos com Podres de Ricos. Tem aquele novo filme fantástico do estúdio A24, Minari. Com os filmes do diretor Bong Joon Ho agora na Netflix, isso só vai levar mais pessoas a ver filmes como esse. Mas o ritmo tem de ser mantido. A representatividade tem de ser não apenas na tela, mas também como escritores e diretores. Somos todos engrenagens do sistema. Não há fim para isso; é lutar por uma boa causa e não permitir que os críticos o calem.

Você se tornou protagonista em um tempo relativamente curto no mundo da atuação. Como você processa a velocidade com que isso aconteceu?

É surreal, para ser honesto. Quando eu trabalhava como cabeleireiro, a cada 45 minutos encontrava uma pessoa nova. E o fato de ser jornalista de turismo me mostrou que eu estava realmente chegando ao fundo da cultura e dos humanos. Parecia que eu estava indo na direção desta primeira oportunidade de atuar.

O que você espera que os espectadores gostem em Monsoon?

Uma sensação de admiração e desejo de aventura, uma reminiscência dos tempos em que podíamos experimentar países como o Vietnã sem nenhum problema de saúde e sem restrições. Mas também o lado emocional de querer chegar ao fundo de quem você é como pessoa. Se houver alguma coisa perturbando sua cabeça, como um asiático-americano, pergunte a seus pais.

Quando eu ainda estava trabalhando em programas de viagens, peguei minha câmera e entrevistei meus pais. Tenho esse lindo vídeo falando da história deles e de como eles se conheceram. Valorizo muito esse material.

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