Divulgação/Netflix
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Parteiras comentam cena de nascimento em 'Pieces of a Woman'

Atuação de Vanessa Kirby, indicada ao Oscar, contém uma longa sequência que, segundo estas especialistas, tem algumas coisas corretas – e outras erradas.

Bianca Giaever, The New York Times – Life/Style

04 de maio de 2021 | 05h00

Nos filmes, um nascimento é em geral uma emergência. Ele começa com a bolsa de água da mulher se rompendo, no pior momento possível. Ela não parece estar efetivamente em trabalho de parto, entretanto, é levada às pressas ao hospital, em meio a um congestionamento de trânsito. Ali, ela fica nervosa, a dor é uma falta do marido. Ela berra com ele, talvez até o insulte, e exige que ele faça uma vasectomia. Depois, pede uma peridural, mas por alguma razão, não pode ser atendida. Depois de quatro minutos de intensa gritaria, dão a ela algo que parece um bebê Gerber.

O recente filme da Netflix, Pieces of a Woman, interpretado por Vanessa Kirby, indicada para o Oscar, tenta subverter esta narrativa com uma cena de nascimento naturalista em casa que toma quase um quinto da película. A longa sequência, que tem um final trágico, mostra parteiras conversando, particularmente porque cinema e televisão podem influenciar profundamente as expectativas de casais que nunca tiveram um filho. Em algumas entrevistas, as parteiras de todo o país aplaudiram o nascimento naturalista como uma nova fronteira nas descrições cinematográficas, embora elas afirmem que vários detalhes não chegam a ser uma experiência que mostra a sua capacidade de controle.

Quando a cena do trabalho de parto começa, Martha (Kirby) está curvada sobre um fogão, enquanto as contrações se intensificam. O seu parceiro, Sean, interpretado por Shia LaBoeuf, corre para ajudá-la, perguntando repetidamente se ela quer água. Acabam indo para a sala de estar, onde ele a pega no colo.

“Acho  que preciso vomitar”, ela diz, arrotando e engasgando.

Hannah Epstein, parteira formada de San Francisco falou que o que a impressionou na cena é o que os outros filmes não mostram. “Você nunca vê o trabalho de parto, apenas o nascimento”, Ela disse que algumas pacientes se preocupam porque não sabem quando estão em trabalho, e outras acham que o trabalho de parto se limita a empurrar. Pieces of a Woman ajudou a corrigir estas ideias falsas.

“Foi uma ótima descrição no começo do trabalho daquela sensação nojenta, desconfortável” ela disse, e observou que a náusea e o vômito nesta hora também são extremamente comuns.

Depois de falar algumas palavras de encorajamento, a parteira de Martha (Molly Parker) sugere levá-la até a banheira. Angelina Ruffin-Alexander, uma parteira de Atlanta, gostou de ver a água incluída no trabalho de parto, uma técnica que reduz o stress da dor.

“Você tenta criar uma sensação de calma e de paz”, ela disse.

Na banheira, Martha pede a Sean que toque uma música e quer que ele abaixe as luzes. Stephanie Tillman, parteira e pesquisadora de ética médica clínica em Chicago, aprovou esta conversa.  “Nem sempre há uma descrição positiva  de como os pais interagem nesta hora”, afirmou. “Gostei de ver que o parceiro a apoia, principalmente andando pelo espaço com ela”.

Com música ambiente no fundo, Martha encosta a fronte na de Sean, e eles falam em voz baixa. Segundo Epstein, este tom mais calmo é mais preciso do que o caos que ela costumava ver na tela. Ela descreve o trabalho de parto e o processo do nascimento como  "murmúrios, respirações suaves, sussurros, e não o tom de voz de uma conversa", quando as mulheres tentam conservar a sua energia.

Depois de cerca de três minutos na banheira, Martha começa a sacudir, e um grunhido baixo evolui para um profundo grunhido animalesco. A parteira pergunta: “Está sentindo vontade de empurrar?”.

Para Tillman, “este foi realmente um ótimo retrato da fisiologia.” E acrescentou: “As pessoas  ficarão nauseadas com o tremor do corpo, as pernas chacoalhando. É a consequência de uma mudança natural dos hormônios”.

Martha vai para a cama, mas antes começa a fase de empurrar, a parteira faz um exame pélvico.

“Vou apenas verificar o colo do útero e ver em que ponto você está. Certo?” pergunta, mas vai em frente sem receber uma resposta. “Ooo!” diz Martha, a parteira : “Eu sei, eu sei desculpe menininha” e continua. Mais tarde, a parteira diz: “Agora descanse, querida”, e enquanto ela empurra repetidamente, a encoraja dizendo: “Ótimo!”

Tillman, que estuda o consentimento no cuidado da saúde íntima, achou essa conversa “muito desanimadora”, bem como uma oportunidade perdida de mostrar um exame pélvico realizado feito adequadamente.

“É exatamente o que tento fazer com os médicos, que eles desaprendam”, afirmou.

O consentimento para a realização dos exames pélvicos deveria funcionar de modo semelhante ao consentimento durante o sexo, explicou Tillman: Os clínicos deveriam receber um sim claro antes de começar um exame. Se uma paciente expressa dor, ela disse, eles deveriam parar e investigar.

Também achou as expressões carinhosas da parteira “condescendentes, depreciativas, misóginas”, embora comuns.

“Isto reforça uma dinâmica de poder entre pacientes e enfermeiras”, ela disse. “Implica: ‘Eu tenho conhecimento, status social ou poder acima do seu’, e não ‘Eu e você estamos trabalhando juntas’”.

Para Epstein, esta linguagem foi “vergonhosa”. Várias parteiras se fizeram críticas por mostrar Martha dando à luz de costas deitada na cama, enquanto na realidade, as mulheres podem parir de cócoras, apoiadas nas mãos e nos joelhos, deitadas de lado, na água, o mesmo segurando-se a um poste. Roberto Cadeyro-Barcia, médico pioneiro no campo do parto, escreveu certa vez, “Salvo pelo fato de estar pendurada pelos pés, a posição de costas é a pior para dar à luz”.

Vicki Elson, antropóloga do parto e educadora que estuda a descrição do nascimento na mídia, disse que ela se interessou pela primeira vez pelo assunto, quando um episódio de ER - Plantão Médico, de 1995, sobre a morte de uma mãe durante o trabalho de parto provocou um aumento repentino dos telefonemas de pais preocupados para as parteiras.

“A minha profissão consiste em tirar o medo que as pessoas aprenderam com a cultura”, ela disse em uma entrevista.

“A mídia de massa é muito perigosa”, acrescentou. “Ela leva os pais que aguardam o nascimento a pensar que irão experimentar algo perigoso e angustiante.  Que pode ter um efeito físico na mãe. Quando você tem medo, seu corpo se retesa e não funciona tão bem como deveria com os hormônios naturais.”

Estas descrições, bem como as cenas que mostram o medo do desconhecido das futuras mães aparecem comumente no cinema, seja em Mother (2017), em que Jennifer Lawrence está em trabalho de parto no meio de uma multidão num clima de pesadelo, ou em um episódio de 2019 de Grey’s Anatomy, em que uma mulher chega ao hospital em um carro da polícia e grita com o companheiro e a enfermeira durante o parto.

As parteiras entrevistadas mostraram-se esperançosas que os filmes futuros e a televisão retratem mulheres autônomas, que não se descontrolem e nem dependam dos outros.

No final, disse Alison Sander, parteira de San Francisco, o que torna uma cena de parto reconfortante é na realidade muito simples: são as pessoas no quarto que “ouvem as mulheres e o que elas desejam”. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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